Ele tomou o seu baixo perfil

Limongi: “Líderes responsáveis não têm o direito de se isentar diante da insanidade de Bolsonaro”

2018.10.11 08:34 Br2the416 Limongi: “Líderes responsáveis não têm o direito de se isentar diante da insanidade de Bolsonaro”

Fernando Limongi, doutor em ciência política, não esconde a angústia com o resultado do primeiro turno das eleições do último domingo. Para ele, a vitória de Jair Bolsonaro joga o país no escuro e aqueles que o apoiam estão minimizando riscos extremamente perigosos que o candidato do PSL trará caso vença o segundo turno. Pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento e do Núcleo de Instituições Políticas e Eleições (NIPE/ CEBRAP), Limongi se mostrou chocado com a neutralidade assumida por grandes lideranças como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso neste segundo turno da eleição. Cardoso é um dos fundadores do CEBRAP, criado em 1969 por um grupo de professores afastados das universidades pela ditadura militar. “Isso é uma covardia inadmissível”, diz. Leia os principais pontos da conversa, em tópicos.

Salto no escuro com Governo obscurantista

Eu quero começar fazendo uma declaração quase que política, pensando como uma pessoa que é financiada para pensar. Eu sou pago pelo Estado brasileiro pra pensar e eu acho que eu tenho que fazer um pronunciamento público. Eu acho que a direita brasileira, o conservadorismo brasileiro - ou o que quer que seja, quem votou e apoiou Bolsonaro – está minimizando o risco que está correndo e está fazendo uma opção muito perigosa. A elite brasileira está dando um salto no escuro. Quer dizer, na verdade não está dando um salto no escuro, porque sabe o que está fazendo e está fazendo bobagem. Estamos aceitando a direita brasileira, o centro brasileiro está aceitando ser liderado por um cara que é um obscurantista, um retrógrado, um apologista da violência, um cara que apoia o golpe de Estado e tem saudade do regime militar.

Covardia inadmissível de Fernando Henrique

Essa direita brasileira, o centro incluído, criou um fantasma e foi gerando um temor desproporcional e descabido ao PT, como se nós estivéssemos de volta à Guerra Fria e o PT fosse uma ameaça comunista, totalitária, o que não é. Não há nenhum elemento, nenhuma informação objetiva que permita chegar a essa conclusão. O PT cometeu erros, cometeu erros sérios, mas eles são fichinhas se comparados ao que o Bolsonaro ameaça fazer e diz que vai fazer e cresceu fazendo. Uma parte do centro está se dizendo diante de uma escolha de Sofia e não está. Só tem um lado que não pode ser escolhido em hipótese alguma e as pessoas estão minimizando isso. Me deu arrepio ver que o Fernando Henrique Cardoso se declarou neutro, isso é uma irresponsabilidade, isso é uma covardia inadmissível. Eu fui presidente do CEBRAP, eu sou herdeiro do Fernando Henrique, eu salvei o CEBRAP de fechar. Eu estou até emocionado [a voz de Limongi fica embargada]. Não é possível que ele não se lembre do que ele sofreu, do que ele passou e que ele minimize isso. E pior! Ele declarou, inicialmente, que seria contra o Bolsonaro e que votaria no PT, agora ele que resolveu usar o Twitter, ele, covardemente, cede à pressão popular. Um intelectual não pode fazer isso, um intelectual tem compromisso. O Fernando Henrique não pode fazer isso.

“Cria cuervos”

Eu salvei o CEBRAP que ele [FH] criou, ia fechar. E eu assumi a presidência para salvar. Sacrifiquei parte da minha carreira acadêmica, fiquei quatro anos lá sem fazer nada, a não ser administrar cozinha de um lugar pra agora ouvir que isso aí [Bolsonaro] não é nada?! Esse cara não envolve risco? Não é possível que não se tenha parâmetro de comparação entre um cara que é apologista de um regime militar, o regime que perseguiu o senhor Fernando Henrique Cardoso, certo? O Fernando Henrique foi parar no pau-de-arara. Um cara que declara ter ódio ao Rubens Paiva, tem uma verdadeira fixação em falar mal do Rubens Paiva, do Vladimir Herzog, acha que aquilo foi um acidente de trabalho, [assassinato de ambos na ditadura], acha que aquilo estava certo. Alguém pode em sã consciência dizer que existe comparação entre o risco que o PT representa e o risco que o senhor Bolsonaro representa? Quem acha que vai tourear esse cara está sendo de uma ingenuidade absurda. Nós já vimos esse filme várias vezes, esse é o famoso Cria Cuervos. Nós estamos aceitando como se não fosse um risco um cara que é apologista da violência da ditadura militar, um cara que votou o impeachment da Dilma elogiando o [Brilhante] Ustra.

Em jogo, a barbárie

Ninguém que critique o Bolsonaro está defendendo a Dilma ou necessariamente dizendo que PT é santo. É esse maniqueísmo que o centro e a direita brasileira aceitaram jogar e estão agora sendo vítimas dele sem perceber ou o que? Isso é uma insanidade que está acontecendo nesse país. Nós ainda temos chance de corrigir, mas só vai corrigir se gente como o Fernando Henrique Cardoso vier a público e falar como um intelectual e pensar na sua responsabilidade política. É um risco inacreditável que nós estamos correndo, uma irresponsabilidade que essas pessoas que começaram a nutrir um terror ao PT, um horror ao PT, vieram agora a público deixar escapar. Isso não tem cabimento! Isso não tem um termo de comparação. Uma tristeza ouvir a declaração do Xico Graziano dizendo que agora ia apoiar o Bolsonaro. Xico Graziano não tem memória? Não lembra o que aconteceu com ele quando ele se colocou contra, nas redes sociais, o Bolsonaro dizendo que as eleições de 2014 estavam sendo fraudadas? Quando ele saiu a público, corajosamente, para dizer que aquilo era uma besteira ele foi trucidado nas redes sociais por esse grupo de trogloditas que está por trás do Bolsonaro. Não tem meia palavra com esse cara, ele é um troglodita. Isso tem que ser dito, não tem como minimizar isso. Em nome do quê? De um temor que o PT volte a fazer uma política macroeconômica e expansionista? Tudo bem, o PT cometeu erros e tem uma dificuldade de fazer autocrítica. Mas e o senhor Bolsonaro fez alguma autocrítica? Ou, por que que nós devemos acreditar no senhor Bolsonaro paz e amor? O que está em jogo é a barbárie.

Ódio cego ao PT

As pessoas estão sendo vítimas do monstro que criaram, da imagem que criaram. [...] Depois de ser derrotado pela quarta vez pelo PT, ali o centro e a direita perderam a razão, saíram paro tudo ou nada. Mas se eu falo isso as pessoas vão minimizar dizendo "Ah, o cara é petista!" Eu quero falar: "Vamos pensar o que nós temos que fazer?". Não é possível sequer ficar neutro diante deste cenário. Não é uma Escolha de Sofia, só tem um lado, o resto é defesa pra gente sobreviver. E isso eu tô falando digamos assim dos "velhos": [José] Serra, Aloísio [Nunes], Fernando Henrique Cardoso, Xico Graziano [que saiu do PSDB para apoiar Bolsonaro]. Gente que não pode esquecer do que passou. Não pode se esquecer de Rubens Paiva, não pode se esquecer do [Vladimir] Herzog. Isso não pode ser minimizado. Não pode! Não tem como! Esse gênio que está saindo da garrafa, você não põem de volta. Vamos fazer um experimento mental e imaginar que o Haddad declarasse que o seu ministro da Economia será Marcos Lisboa. Cada um tem o [Paulo] Guedes que merece, certo? Então, por que o Fernando Haddad não poderia declarar que o seu ministro da Economia vai ser o Marcos Lisboa? O Marcos Lisboa hoje, por um acaso, é o patrão do Fernando Haddad porque o Fernando Haddad trabalha no Insper, então, ele tá lá dentro. O Marcos Lisboa já trabalhou para o PT, foi parte da equipe do PT. Por que a informação de que o Guedes trabalharia para o Bolsonaro dá mais garantia do que uma possibilidade do PT vir para o centro e ser pragmático.

Perseguição e censura

Lógico [que haverá perseguição]! É disso que estamos falando, censura vem aí se esse cara ganhar! Ele não tem trato com tolerância. Óbvio, vai testar as nossas instituições. Mas as nossas instituições têm se provado muito pouco capazes de lidar com esse perfil.

Desconfiança com urnas, levantada por Bolsonaro

Ele disse que não são capazes de lidar com fake news. E o pessoal diz, “eu não voto mais no PT porque o PT mente”. Sim, e aí vocês votam num cara que é apologista da fake news. Um cara que disse hoje que não vai assinar nada contra a fake news, porque ele pratica fake news, porque ele surfa nisso e é dado a teorias conspiratórias. Ele declarou que existe uma internacional fundada pela Dilma -está lá na entrevista que ele deu para Jovem Pan-, que existe uma internacional da fraude eleitoral da América Latina cuja sede está em Quito, no Equador. O cara é louco, o cara é um desequilibrado. Ele acredita nessas histórias. Essa história da fraude eleitoral é uma das teorias da conspiração mais malucas, a la época da Guerra Fria. [...] E o TSE e a Justiça brasileira foram brandos nisso, ao afastar qualquer hipótese de que isso teria acontecido lá no passado.

Entrevista do Bolsonaro à Record no dia do último debate

A lei eleitoral regula minuciosamente cada acesso à televisão. Isso não existe, tanto que quando há um debate há uma série de regulações: quem pode ser convidado, quem não pode ser convidado. Ninguém pode ser tratado diferente, ninguém pode ter mais tempo. Por que se abriu essa exceção para o Bolsonaro? Isso é inadmissível. Então, tem alguma coisa que está deixando as eleições se tornarem um vale tudo. Há uma sucessão de erros estratégicos. A gente sabe e qualquer estudos de ciências sociais, de interações sociais de pessoas agindo racionalmente com o horizonte limitado, quando você junta todas essas ações o resultado pode ser um resultado péssimo para todos. Está todo mundo agindo racionalmente, todo mundo defendendo seus interesses, lutando pelo seus interesses, mas na hora que interage o resultado é péssimo para todos. A maior parte dos eleitores não quer nenhum dos dois. Mas a elite política criou esse fantasma e o PT agiu equivocadamente, no meu ponto de vista, quanto a sua estratégia. O PT apostou em salvar o Lula, em se agarrar ao Lula e isso foi um erro. Tanto que o PT teve tantos votos quanto ele tem de preferência partidária. Ele ficou reduzido a sua base. Não se ganha eleição assim.

A razão não veio

Acho que ninguém, ninguém imaginou que viria essa violência que veio. Todo mundo achou que em algum momento a razão viria. E eventualmente o "se" não é possível. Você tem o contra factual. Você fala "se" isso tivesse acontecido talvez não tivesse ocorrido a facada, se o Bolsonaro não tivesse sido retirado da campanha, se ele não fosse calado de forma inadvertida, talvez nada disso tivesse ocorrido. O Bolsonaro ficou quieto e foi beneficiado. Receptador de todo esse ódio que se criou na sociedade brasileira pela sua própria elite.

Sem experiência

Eu falo: olha, você ganha mais do que 10 salários mínimos, você que optou pelo Bolsonaro, olha o vídeo desse pessoal quebrando a placa da Marielle, vê em quem você está votando. Quem você acha que está chamando? Está chamando a raposa pra tomar conta do galinheiro, quer dizer, e que garantias lhe dá o senhor Paulo Guedes? Esse cara não tem experiência pública nenhuma, é um desconhecido. Guedes vai nos fazer ter saudades de Guido. Guido vai ser um gênio comparado a Guedes. Não é porque passou por Chicago que você vira gênio. E não é só a esquerda que tem ideologia, a direita - e isso é o que é mais preocupante agora - está gerando uma ideologia perigosíssima. Uma ideologia de intransigências, de radicalismos, de negação de qualquer moderação.

Campanha no WhatsApp

Tem um subterrâneo acontecendo nas redes sociais que é a mesma coisa que aconteceu no Brexit, na Colômbia, nos Estados Unidos. Então, a gente está lutando com este demônio aqui, mas tem também o demônio do WhatsApp. Tem uma loucura rolando e tem uma nova tecnologia para se fazer campanha. Isso mudou. Eu estudo eleições e histórias das eleições há muito tempo e entendo como isso foi se transformando. Se você for olhar nos anos 40, quando o Brasil se redemocratiza, o principal recurso para se ganhar eleições era o caminhão, você precisava tirar eleitor do campo e transportar para cidade. Então, o recurso essencial pelo qual se brigava era o caminhão. Você tirava o caminhão do seu adversário, você ganhava as eleições. Daí chegou um momento que se começa a ter rádio, televisão e agora tem as redes sociais. Isso muda. Vai ter um momento em que essa novidade vai mais ou menos equiparar, os dois lados vão saber usar igual, mas por enquanto a direita está usando melhor, está sabendo usar, está pondo recurso nisso. Está havendo uma “Internacional de Direita”, como tem a “Internacional de Esquerda”. Tem uma tecnologia que está rolando, tem um know-how que está rolando, e esse pessoal se pôs a favor do Bolsonaro. E é um pessoal inconsequente. Nós temos uma direita inconsequente nascendo aqui e que está presente no mundo.

Extrema direita no Brasil

Sempre teve uma extrema direita no Brasil, tem uma parte dizendo que tem uma grande novidade, mas acho que a novidade é menor. Não pode esquecer que Paulo Maluf ganhou todas as eleições na cidade de São Paulo, depois da redemocratização, mesmo quando ele perdeu no Estado pra governador, ele ganhou na capital. Então sempre teve direita, não tem problema ter, é parte do jogo. Se o Bolsonaro ganhar não tem conversa, ele assume o poder e todo mundo aceita, o jogo é esse e o jogo só continua se você aceita brincar dentro das regras do jogo. A questão é se o Bolsonaro aceita jogar com as regras do jogo daqui pra frente.

Educação com Bolsonaro

Vamos pegar os economistas formados em Chicago, formados em Princeton, formados em Harvard que aceitam a ideia de que o grande problema do Brasil é a falta de investimento em capital humano, que o problema é a educação, que o brasileiro é pouco produtivo e que por isso estamos atrasados, por tanto toda e qualquer atenção no Brasil deve estar para a política pública. Essas pessoas têm medo do PT e da política macroeconômica do PT, mas não têm medo da política educacional que o senhor Bolsonaro vai aplicar. Porque ele quer colocar criança de volta pra casa, quer tirar criança de dentro da escola, porque isso faz parte do programa de governo dele [programa sugere a valorização da educação à distância]. Não pode dizer que não leu. O senhor Guedes não vai dar garantia para isso. Ele quer tirar criança da escola, porque ele não quer que as crianças sejam expostas a professores marxistas [programa de Bolsonaro destaca em vermelho ”um dos maiores males atuais é a doutrinação”]. E se as crianças voltam pra casa quem vai tomar conta de criança? Quem vai trabalhar? Olha o desarranjo econômico que esse cara pode gerar por uma insanidade ideológica. Todo mundo falou "ah, o PT é muito ideológico". E o senhor Bolsonaro é um poço de razão e de ciência? Ele é um energúmeno ideológico. Ele vai acabar com a educação no Brasil. Ele vai mandar a gente de volta para a Idade Média. Esse cara é um obscurantista. Ele vê um comunista em cada agente estatal. Aí ele se junta com a direita mais radical, neoliberal, que acha que todo agente do Estado é um paternalista protegendo um looser.

Arrecadações e possível corrupção

Quem vai ser o novo PC Farias [tesoureiro do ex-presidente Collor de Mello]? [Gustavo] Bebiano [presidente do PSL] será o PC Farias 2, certo? Sempre tem que ter um cara que controla todos os contratos, centraliza toda rede de negociações com os interesses, que precisam ser atendidos porque eles vivem de fornecer coisas para o Estado, etc. Essa negociação rola, vai rolar. Então, quem que vai fazer isso? Ou vai ser um dos filhos do Bolsonaro ou vai ser o Bebiano ou vão ser todos eles, cada um em uma área. A corrupção que vai rolar vai ser inacreditável porque é um bando de amadores, uns caras que nunca mexeram com Educação, nunca mexeram com Saúde, nunca mexeram com Ciência e Tecnologia, não sabem o que rola lá. O que vai aparecer de gente para eles vendendo projetos. A hora que muda o governo tá todo mundo caçando onde encaixar o projeto que ele não conseguiu vender ao governo anterior para o novo governo. E obviamente atrás de cada um deles tem um interesse se organizando. Foi isso que o PC Farias fez, vai ser isso que o senhor Bebiano vai fazer ou qualquer um que assumirá esse papel. Tudo bem a Dilma e a política econômica do Guido Mantega e a nova matriz econômica é inadmissível, é um erro crasso, ninguém justifica. Foi uma política macroeconômica eleitoral para ganhar eleição, quebrou o Brasil, foi uma irresponsabilidade. O PT não fez uma autocrítica, um absurdo, jogou dinheiro pela janela, delirou, tudo errado. PSDB também não fez diferente, mas não vamos falar que fizeram igual. Agora o que se está fazendo é uma escolha sem igual entre Bolsonaro e PT.

Crise mundial da democracia

Se for pensar internacionalmente, nós temos uma crise na democracia. Está todo mundo aturdido, é Trump, é Brexit, é Hungria, é Polônia, movimentos aparecendo em tudo quanto é canto, um desequilíbrio muito grande. Acho que tem uma coisa que é geral que deu uma desbalanceada, que talvez tenha a ver com essa mudança de tecnologia, de fazer campanha e o ritmo das tecnologias e adaptação que precisa ter entre o modelo antigo de se conquistar voto e o modelo atual. Mudou e acho que está todo mundo meio baratinado. A forma como a opinião pública reage aos fatos, a velocidade agora é outra. O eleitor está muito mais volátil e uma parte do eleitorado está saindo da política totalmente. O turnout [comparecimento nas urnas] na Europa foi lá pra baixo, nos Estados Unidos foi lá para baixo, então, o centro moderado está saindo, os radicais ficam e a política ganha outra dimensão. Tem alguma loucura acontecendo. Nós não sabemos se isso vai se reequilibrar.

Salvação

O Bolsonaro foi candidato a presidente da Câmara dos Deputados há dois anos, sabe quantos votos ele teve? Quatro. Então, ele era um patinho feio e era desconsiderado, mesmo. Ele era um marginal que ninguém considerava como um player. O pessoal do mercado financeiro o adotou, muito provavelmente trouxe junto essas tecnologias de comunicação e ele foi feito. Uma parte do empresariado o elegeu como a salvação contra o PT.

Partido de Bolsonaro forte no Congresso

Ele ganhou um Congresso mais próximo para ele [elegeu 52 deputados, a segunda bancada da Câmara]. Mas boa parte desses caras não fizeram política, está chegando lá. Kim Kataguiri, que já acha que pode ser presidente do Congresso, é um cara sem senso. Ele tem lá um monte de gente que acha que vai resolver tudo no grito. Sabe-se lá, o [Alexandre] Frota... como vai se comportar? Uma incógnita. Em geral caras como esse desaparecem porque não sabem fazer política. E política é um saco.. Tem de se conversar o dia inteiro.

Política no WhatsApp X política real

No Congresso a política é outra coisa. Tem gente que quando vai lá se prova bom. Caso do Romário. Fez uma agenda legal. É um cara que se deu ao trabalho de aprender um novo business. Essa ideia de que político profissional é um mal... ainda bem que tem político profissional. Houve uma renovação grande, e criou-se um espaço vazio que ninguém sabem quem vai ocupar. E quem vai chegar à presidência do Senado? Da Câmara? Ninguém vai dar a presidência da Casa ao Kim Kataguiri [eleito deputado federal por São Paulo], aquilo é extremamente complexo. O que fez do Eduardo Cunha aquela pessoa imensamente poderosa? A capacidade de conhecer aquilo, como aquilo funciona. O cara era uma máquina. Sabe tudo, tinha controle sobre absolutamente tudo, com três celulares. Não é coisa para amador. Tem um voluntarismo bobo que tomou conta da juventude e empresários. De que tudo com boa vontade se resolve... as pessoas entram em conflito.

Maldição do impeachment

Foi um erro cavalar em todas as dimensões. Procurei alertar naquela época sobre com quem centro e a direita estava se aliando. Foram para Temer e Cunha. Eles só queriam salvar a própria pele. Pensou-se no dream team na economia e estaria tudo salvo. Você não faz a sociedade com o diabo e não paga um preço.Sociedade com o Bolsonaro você vai pagar um preço e é altíssimo. O preço com o PT é extremamente mais baixo. O PT tem uma reputação. Bolsonaro é um novato. É alguém que não se pode confiar. Quem acredita em racionalidade da informação, pega passado, balanço, futuro, como você pode pegar as informações dele, e dizer que é confiável? É um cara mentiroso, de maneira asquerosa e populista dizendo que adotou o mercado. Claramente para obter o poder. Daí criticam PT porque faz algumas coisas. [Bolsonaro] é um cara que começou a vida como terrorista durante a democracia. É esse cara que vão querer? Lideranças responsáveis não têm o direito de não se posicionar e deixar passar esta insanidade. O caso mais terrível é o nazismo. Pensava-se que [Hitler] era um tonto que a gente controla.

Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/10/politica/1539187153_593055.html
submitted by Br2the416 to brasil [link] [comments]


2017.11.29 20:20 tombombadil_uk Today I fucked up: a estranha sensação de reencontrar um amor do passado 12 anos depois / Parte 3

Galera, finalmente postando a última parte da saga. Depois de pensar para caralho, resolvi falar com ela pelo Facebook e marcamos de nos encontrar num café pertinho da praça onde nos esbarramos. Para quem não conhece a história desde o começo:
Parte 1 - TL/DR: sou casado, reencontrei uma garota por quem eu era apaixonado há 12 anos e só nesse reencontro eu percebi como eu fui um imbecil com ela. Em resumo, nós éramos grandes amigos, eu fiquei com medo de me declarar, meti o pé do curso de inglês que fazíamos sem dar nenhuma explicação e desapareci completamente da vida dela.
Parte 2 - TL/DR: comecei a me perguntar se aquela garota que eu reencontrei realmente era ela, já que ela parecia tão mais velha. Depois de dezenas de tentativas, achei ela no Facebook e sim, realmente era ela. Descobri que um amigo meu já tinha saído com uma prima dela há muito tempo e soube que ela teve uma vida bem escrota, foi abandonada por um marido meio babaca e agora basicamente vivia só pelo filho na casa dos pais.
Parte 3 - Taí. Nos reencontramos. Foi uma experiência que eu não sei classificar. Foi feliz, foi triste. Foi amargo, foi doce. Foi impressionante. A gente chorou um pouco junto. Escrevi um pouco ontem à noite e terminei hoje de manhã.
Só queria agradecer a todos os conselhos e dicas que recebi aqui. Reencontrar alguém do passado é uma coisa que mexe muito com a gente, faz com que nosso coração se sinta naquela época novamente. Essas quase três semanas foram muito estranhas. Foi quase uma viagem no tempo por coisas que eu achava já ter esquecido completamente. Infelizmente não posso dividir muito disso com amigos próximos, então fica aqui o desabafo.
Esse último ficou mais longo do que eu esperava. Honestamente, a gente conversou tanto que acho que resumi até demais. Como da primeira vez, fiz em formato de conto. Novamente, obrigado a todo mundo que deu um help nessa história, que finalmente se fechou.
Era um café bonito. Novo da região, era um daqueles negócios em que você vê o coração de um sonho do dono. As mesas rústicas de madeira, as lâmpadas suspensas que desciam do teto em fios de prata, como teias de aranha tecidas por vagalumes. O quadro negro cuidadosamente preenchido com os preços e até desenhos estilizados de alguns pratos. No fundo, um jazz instrumental marcava presença de forma tênue. Também era um daqueles negócios que você sabe que não vai durar muito. Que você bate o olho e pensa: “com essa crise, é melhor eu dar um pulo lá antes que feche”.
Eu presto atenção a cada detalhe ao meu redor. À roupa preta das atendentes, ao supermercado do outro lado da rua que vejo pela vitrine. Aos clientes que entram e saem de uma loja das Casas Pedro. Eu não quero esquecer de absolutamente nada. Era um ritual meu que fiz pela primeira vez aos 14 anos. Sempre tive boa memória, mas naquela época eu me esforcei para colocá-la inteiramente em ação. Era um verão e eu estava prestes a reencontrar uma prima que, anos atrás, fora minha primeira paixão. Ela nos visitava de anos em anos e, três anos após trocarmos beijos juvenis debaixo do cobertor, ela havia acabado de chegar à casa dos meus avós, onde se hospedaria.
Naquela noite, eu não consegui dormir. Por volta das 4h da manhã, peguei meu cachorro e caminhei 15 minutos em meio à madrugada até a casa da minha avó. Não, não fui fazer nenhuma surpresa matinal ou pular a janela em segredo. Eu apenas fiquei do outro lado da rua e observei tudo ao meu redor. “Eu vou lembrar desse reencontro para o resto da minha vida”, pensei, do alto dos meus 14 anos. “Eu quero lembrar de cada detalhe”.
E até hoje eu lembro. Da rua cujo chão estava sendo asfaltado, mas onde metade da pista ainda exibia os bons e velhos paralelepípedos. Das plantas da minha avó balançando ao vento, o som singelo dos sinos que ela mantinha na varanda e davam àquilo tudo um clima quase de sonho. Do meu cachorro, fiel companheiro que viria a morrer dois anos depois, sentado ao meu lado com metade da língua para fora. Do frescor da madrugada que precedia o calor inclemente das manhãs do verão carioca.
Mas não é dessa memória - e nem dessa paixão - que eu falo no momento. Eu falo dela. Dela, que eu reencontrei depois de tanto tempo. Que eu julgava já ter esquecido. Que, apenas mais de dez anos depois, eu percebi que tinha sido um babaca ao desaparecer sem qualquer despedida. Mesmo que ela jamais tivesse segundas intenções comigo, mesmo que fosse apenas uma boa amiga, eu havia errado. E aquela era o dia de colocar aquilo, e talvez mais, a limpo.
Foram três semanas de tortura comigo mesmo. Desde que achara seu perfil no Facebook e ouvira de um amigo em comum notícias de uma vida triste, seu rosto não me saía da cabeça. Ao menos uma vez por dia, eu pagava uma visita ao seu perfil e mirava aqueles olhos. As fotos, quase todas ao lado da mãe e do filho pequeno, tinham um sorriso fugaz encimado por olhos dúbios, tristes. Eles lembravam-me de mim mesmo. “Você tem um olhar de filhote de cachorro triste, por isso consegue tudo que quer”. “Você parece feliz, mas sempre que para de falar por um tempo, parece ter uns olhos tão tristes”. “Essa cara de pobre-coitado-menino-sofredor é foda de resistir, dá vontade de levar para casa e dar um banho”. Eu já havia perdido a conta de quantas vezes ouvira aquilo das minhas ex-namoradas e ficantes da faculdade. Os dela não eram muito diferentes. Quando ela finalmente apareceu, com sete minutos de atraso, eu pude perceber.
Meu coração parou por uma fração de segundo e depois disparou, como se os sineiros de todas as catedrais que haviam dentro de mim tivessem enlouquecido. Era engraçado como algumas pessoas passavam vidas inteiras sem mudar o jeito de se vestir. Ela ainda parecia com aqueles sábados em que nós nos encontrávamos no curso de inglês: os tênis All-Star, a calça jeans clara, uma camiseta simples - de alcinha, branca e com corações negros estampados - e o cabelo com rigorosamente o mesmo corte. “Talvez por isso que foi tão fácil reconhecê-la, mesmo depois de todo esse tempo”, pensei. Ou talvez eu reconhecesse aquele rosto e aqueles olhos - antes tão vivos e alegres - em qualquer lugar. Eu jamais saberia.
Como qualquer par de amigos que não se vê há milênios, falamos de amenidades no começo. Casei, separei. Sou funcionária pública, ela dizia. O relato do meu amigo, eu descobria agora, não estava perfeitamente certo. Ela não havia se demitido do trabalho, apenas se licenciado por algum tempo. “Fui diagnosticada com depressão”, ela admite, sem muitas delongas ou o constrangimento que tanta gente tem sobre o tema. “Meu casamento estava indo muito mal e eu desabei. Mas agora tá tudo bem”. Não estava, não era necessário ser um especialista para notar aquela tristeza escondida no canto do olhar.
Falei da minha vida para ela também. Contei que a minha ex-namorada que ela conheceu não deu certo e que, naquela época de fim da adolescência e início da vida adulta, eu tinha muita vergonha de falar sobre o que eu passava. Ela praticava gaslighting comigo, tinha crises de ciúme incontroláveis, me fazia sentir um crápula por coisas que eu sequer havia feito. “Você parecia tão feliz com ela”. “Eu finjo bem”, admiti. “E eu tinha vergonha de mostrar para os outros o que passava. Homem dizendo que a mulher é abusiva? Eu não queria que ninguém soubesse”.
Após quase meia hora de amenidades, eu exponho o elefante na sala de estar. Na verdade, quem começa é ela. Quando a adicionei no Facebook, falei que tinha esbarrado com ela na rua e que ficara com vergonha de cumprimentá-la na hora. Mas que queria muito revê-la depois de tanto tempo, tomar um café, falar sobre a vida. “Por que você sumiu?”, ela pergunta, no meio de um daqueles silêncios que duram mais do que deveriam. Eu tremi por dentro, mas não havia como continuar escondendo.
No começo, falei o básico. Que era de família humilde, como ela bem lembrava, e que o parente que pagava meu curso havia descoberto um câncer. Poucos meses depois, eu perdi meu emprego. Tudo isso num intervalo curto, de três ou quatro meses e perto da virada do ano. “Me ligaram do curso e ofereceram um desconto. Eu era pobre, mas sempre fui orgulhoso. Naquela época, era mais ainda. Burrice minha. Se bobear, eles iam acabar me oferecendo uma bolsa”. “Eles iam”, ela responde. “O Francisco - dono do curso - era maluco por você. Você era um ótimo aluno”. Ela dá um gole no mate que pediu. Meu café esfria ao meu lado. “Mas por quê você não falou nada comigo?”, ela continua.
Eu sabia que estava num daqueles momentos em que poderia mudar radicalmente o dia. Porque eu poderia ter mentido. “Eu não falei porque fiquei com vergonha de ter perdido o emprego”. “Eu não falei porque eu estava muito triste: parente próximo com câncer, desempregado, meu relacionamento com uma pessoa abusiva”. Eram mentiras com um pouco de verdade, mas não revelavam o grande problema. Naquele fim de tarde, eu escolhi não mentir. Nem me esconder. E eu já tinha ensaiado essas palavras dezenas de vezes nas últimas semanas.
“Olha, eu não sei se dava para reparar na época ou não. Não sei era muito óbvio, sinceramente. Mas eu era completamente apaixonado por você naquele tempo. Eu passava a semana inteira pensando no dia em que a gente ia se encontrar, trocar uma ideia no curso, caminhar junto até a sua casa. E eu tinha uma vergonha absurda disso. Eu tinha namorada, você tinha namorado e estava para se casar. Então eu achava errado expor aquilo, ser claro. E eu achava que você não gostava de mim. Eu tinha auto-estima muito baixa e esse relacionamento com essa ex-namorada abusiva só piorou as coisas. Eu me sentia um lixo, então achava que você não ia ligar se eu sumisse. Que ninguém ia ligar se eu sumisse. E foi o que eu fiz. Mas, se você quer uma versão curta da resposta, é essa: eu era completamente apaixonado por você naquela época e quis sumir, sair correndo”.
Enquanto eu falava aquilo tudo, a boca dela se abriu em alguns momentos. Às vezes parecia surpresa, às vezes parecia que ela tentaria falar alguma coisa que se perdia no caminho. Eu fazia esforço para olhá-la nos olhos, mas era difícil. Mesmo depois de todos esses anos. Tentei dar a entender com o tom de cada palavra que aquilo era uma coisa do passado, que não me incomodava mais, que agora eu queria apenas revê-la e saber como andava a vida.
O desabafo foi seguido de um silêncio que tornava-se mais pesado a cada segundo. Havia alguma coisa fervendo dentro dela, dava para ver. Foi aí que os olhos dela brilharam mais do deveriam, lacrimejando. Quando vejo aquilo, sinto que o mesmo vai acontecer comigo, mas me seguro. Ela vira o rosto e olha para além da vitrine, onde um ponto de ônibus está lotado com os clientes do supermercado e estudantes recém-saídos de suas escolas, o trânsito lento e infernal. A acústica é tão boa no bar que o caos de fim de tarde do outro lado do vidro parece uma televisão ligada no mudo. Quando ela me olha de volta, vejo que ela não faz qualquer esforço para esconder os olhos marejados.
“E você nunca me contou nada? Nem pensou em me contar?”.
Eu não sei quantos de vocês já ficaram sem notícias de um parente ou de alguém que você ama por muitos anos. Aconteceu comigo uma vez, com uma tia que desapareceu por quase 10 anos no exterior e reapareceu após ser mantida em cárcere privado por um namorado obsessivo. A sensação é estranha. É como descobrir que um livro que você tinha dado como encerrado tinha uma continuação secreta. As memórias de hoje se misturavam com as de 12 anos atrás, da última vez que li esse livro. Ela começou a contar tudo.
Ela, como eu já disse antes, era o meu ideal de felicidade. Casara cedo, tivera filho cedo, empregara-se no serviço público cedo. Era tudo com o que eu sonhava. Eu sempre quis constituir uma família, ter uma vida simples, ter um filho cedo para poder aproveitá-lo ao máximo. Mas a falta de dinheiro e a busca por uma parceira ideal sempre ficaram no caminho, assim como a carreira. O problema é que ela tinha uma vida muito diferente do que eu imaginava, muito mais parecida com a minha à época.
Acho que já deixei claro o quanto eu era apaixonado por ela no passado. Ela não era bonita nem feia, tinha o tipo de rosto que se perde na multidão sem ser notado. Filha de pai negro e mãe branca, era morena e tinha o cabelo liso levemente ondulado, quase até a cintura. Quando éramos adolescentes, ninguém a elegeria a mais bela da turma, mas dificilmente negariam que tinha seu charme. Eu a achava linda.
Mas ela, como eu, era o tipo de pessoa que tinha a auto-estima no fundo do poço. Como eu, também cresceu em um lar bem humilde. Também colecionou desilusões amorosas. E, como todo mundo já sabe, isso te transforma em um alvo perfeito para relacionamentos abusivos. O namorado dela, assim como a minha namorada à época, era muito bonito e manipulador. E ela achava que ele era a única pessoa que gostava dela, o único que lhe daria atenção. E isso fez com que, por anos, ela suportasse tudo que aconteceu entre eles. Traições, brigas, mentiras, chantagens, ameaças de abandono, ciúmes doentios. A história deles dois era tão parecida com a minha história com minha primeira namorada que eu fiquei assustado. Só que, diferente de nós, eles casaram. Eles colocaram um filho no mundo.
Ele só piorou com o nascimento da criança. Ele não era mau com o filho, ela dizia. Era um pai carinhoso, inclusive. Mas o pouco amor e bondade que ele tinha por ela transferiu-se todo para a criança. Vivia para o trabalho, para o filho e para os amigos.
“A gente chegou a ficar sem se falar por meses”.
“Morando na mesma casa e sem se falar?”.
“Sim. Nem bom dia. Nada. Eu me sentia um fantasma”.
Na contramão dele, ela dobrava-se para dentro de si própria. Abandonou a faculdade para cuidar do filho enquanto o marido formou-se com seu apoio fiel. Vivia para o filho e tinha seus problemas conjugais menosprezados pela família. “É coisa de garoto, ele vai melhorar”. “Homem quando acaba de ter filho é sempre assim”. “Vai passar”. Mas não passou, só piorou. As traições recorrentes evoluíram para uma equação desequilibrada de álcool e uma amante fixa no trabalho que ele sequer fazia questão de esconder. Ele anunciou que ia deixá-la, convenceu-a de que era um bom negócio vender o apartamento que eles haviam comprado. Racharam o dinheiro e ele foi viver a vida. Ela voltou a morar com a mãe, agora viúva.
O filho, nitidamente a coisa mais importante daquela mulher, tornou-se a única razão para viver. A pensão que a mãe recebia era baixa, o salário dela também não era bom. A pensão que o marido dava ajudava a manter uma vida extremamente funcional e sem luxos. As roupas eram das lojas mais baratas. Viagens não existiam. O único gasto relativamente alto era com uma escola particular de qualidade para o filho. O resto era sempre no básico.
Contei para ela sobre o meu sonho de casar cedo, de ter uma vida tranquila e estável. Falei que eu admirava muito a vida que ela escolheu no começo, que era a vida que eu queria ter vivido. A grama realmente é mais verde no jardim do vizinho, ao que parece.
“Mas a sua vida parecia tão tranquila, tão perfeita”.
“A minha?”.
“A sua namorada naquela época era uma menina tão bonita, eu lembro dela. Loira, bonita de corpo. Até lembro que ela fazia medicina e ainda era dançarina. Eu achava ela linda, perfeita. E você… você era sempre tão fofinho. Carinhoso e atencioso com todo mundo. Inteligente pra caralho, nem estudava e tinha as notas mais altas em tudo. Todo mundo gostava de você, todo mundo queria ser seu amigo e você nem se esforçava para isso”.
“Eu não lembro disso…”.
“Porque você não se achava bom. Você tinha 16, 17 anos e sentava para conversar de igual para igual sobre cinema e livro com uns professores de 40 e poucos anos. Você parecia fluente conversando com os professores em inglês e espanhol enquanto a gente tentava chegar perto disso. Passou no vestibular de primeira. Você não percebia, mas você era o queridinho de todo mundo. Você não era o garoto malhado bonitão, você era o garoto charmosinho e inteligente que todo mundo gostava. Eu gostava de você também. Gostava mesmo, de verdade. Eu tinha uma paixãozinha por você. Mas eu achava que eu não tinha a menor chance. Eu achava que eu merecia o meu namorado. Que eu era feia, ruim. Que ele estava certo em me falar aquelas coisas”.
“Eu era completamente apaixonado por você”, eu respondo. “Eu pensava em você todo dia”.
Engraçado como as pessoas se veem de maneira tão diferente. Eu me definia de três formas quando a conheci: eu sou gordo, eu sou feio, eu moro num dos bairros mais pobres e violentos da cidade. No dia seguinte, de manhã, eu olharia minhas fotos de 12, 14 anos atrás e me surpreenderia com quem eu via ali. Eu era bonito, só um pouco acima do peso. Com 16 anos, eu já era o barbado da turma antes de barba ser coisa hipster. Na foto do colégio, uma das últimas do terceiro ano, eu parecia tão dono de mim, tão no controle. Eu tinha aquela cara de inteligente e rebelde. Por dentro, eu era completamente diferente. Inseguro, assustado, sem auto-estima alguma e com uma namorada abusiva.
São sete e meia e a noite já começa a cair no horário de verão. Educadamente, uma das atendentes nos indica que a galeria onde o café funciona vai ser fechada em breve. Eu pago a conta e nós ficamos meio perdidos, sem saber o que fazer. Ela ainda tem os olhos inchados, eu também. Os funcionários da loja nos olham de forma surpreendentemente carinhosa, não sei o quanto eles escutaram do desabafo.
Saímos em silêncio do café, ela atendeu a uma ligação da mãe. Minha esposa estava fora do estado e só voltaria dali a alguns dias, então eu estava bem relaxado em relação às horas.
“Não sei se você precisa voltar para a casa por causa do Hugo, mas tem um bar aqui perto que é bem vazio a essa hora. A gente pode sentar pra conversar”, eu digo.
“A gente tem mais coisa para conversar?”. Ela pergunta sorrindo, não vejo nenhum traço de mágoa no seu rosto.
“Claro que tem. Doze anos não se resolvem em duas horas”.
Fomos para um bar pequeno ali perto, um que eu costumava frequentar nos tempos de faculdade. Nos tempos em que eu pensava nela e não me achava capaz de tê-la. Ele pouco havia mudado de 12 anos para cá: a mesma atmosfera que fazia dele aconchegante e levemente depressivo ao mesmo tempo. Era um bar das antigas, com azulejos portugueses azuis e poucos frequentadores. O atendimento era excelente e o preço razoável para a região, mas aquela estética de 40 anos atrás parecia espantar os frequentadores mais jovens. Os poucos que iam lá, no entanto, eram fiéis. Como eu fui no passado.
Nos sentamos no fundo do bar vazio em plena terça-feira e desnudamos nossas vidas um para o outro. “Eu quero saber quem você é”, eu comecei. “A gente falava sobre um monte de coisa, mas eu não sei nada sobre você. Sobre sua família. Sobre sua infância, quem você é. E você não sabe nada sobre mim”. Ela riu. “Você é maluco”. “Não, só quero te conhecer melhor. Compensar por ter sido um babaca há doze anos”.
A conversa foi agridoce. O que mais me assustava era como tínhamos origens semelhantes, desde a família até a criação. Os dois criados no subúrbio do Rio de Janeiro, os dois de famílias humildes que, por conta da pobreza e da necessidade de contar uns com os outros, permaneciam unidas. Primos de terceiro ou quarto grau criados próximos, filhos que casavam e formavam suas famílias nas casas dos pais. Assim como a minha família, a dela investiu tudo que tinha para que ela estudasse em um colégio particular até que eventualmente ela passou para uma escola pública de elite.
Nossas duas famílias tinham essa estranha tradição carioca que mistura catolicismo, umbanda e espiritismo, um sincretismo religioso que eu, como ateu, tenho dificuldade em entender - mesmo tendo crescido nesse meio. Assim como eu, achava-se feia, indesejada na adolescência. Isso fez com que rapidamente trocasse o mundo cor de rosa pelo rock e pelos livros. No meu caso, eu acrescentaria videogames e RPG, mas o resto não mudava muito.
“Na minha escola, tinha muita patricinha, muito playboy. Eu não aguentava eles. E eles sabiam que eu era pobre, então não se misturavam muito comigo”. Contei a minha versão para ela. “Eu gostava de ler, RPG e jogar videogame. Mas eu era muito pobre, fodido mesmo. E isso tudo era coisa de gente com grana na época, né? Então eu acabei ficando amigo dos nerds na época por conta dos gostos comuns. Eu tive sorte, demoraram a perceber que eu era pobre. Eu tenho toda a pinta de gente com grana, essa cara de europeu que engana. Quando perceberam que eu era duro, foi só no segundo grau. Ali eu já era um pouco mais cascudo, tinha bons amigos”. Ela não.
Era tudo tão igual que, em dado momento, eu parei de falar que havia sido igualzinho comigo. Eu esperava ela terminar a parte dela. Falava a minha. E intercalávamos nossas histórias, os dois surpresos com as semelhanças. Provavelmente a grande diferença era a vida dela após ter o filho e abandonar a faculdade. Ela trabalhava em uma repartição pública onde tinha 20 anos a menos do que a segunda funcionária mais nova, se afastou dos amigos. Era estranho conversar com ela. Não usava redes sociais praticamente, apenas para trocar mensagens com parentes distantes e mostrar fotos do filho para eles. Não via séries, não tinha Netflix - só novelas. Não conhecia bandas novas, não era muito de ir ao cinema. Era uma sensação estranha, mas parecia que boa parte da vida dela tinha parado em 2006 ou 2005. Os hábitos dela e poucos hobbies pareciam os de uma pessoa de 50 e poucos anos.
Me doeu imaginar o que poderia ter sido, o que poderíamos ter feito juntos, como poderíamos ter sido bons um para o outro. Pensei na minha esposa, que tem um perfil familiar radicalmente diferente do meu. Ela vem de uma família de classe alta, só com engenheiros e funcionários públicos de elite. O mundo dela era muito diferente do meu, tão diferente que às vezes me assustava. Famílias que não se falavam e que, mesmo endinheiradas, brigavam por herança e cortavam laços de vida por conta de bens que eles não precisavam. Todos católicos ou evangélicos, sem exceção. No máximo um ou outro ateu escondido no armário, como eu.
Essa diferença nos causava estranhezas, pontos de atrito que me surpreendiam. Quando eu elogiava a decoração de uma festa, ela falava do preço e da empresa que a produziu. Ela sentia uma obrigação social em aparecer em eventos familiares ou do círculo social deles, de ser e parecer uma boa esposa. Eu só queria estar onde eu estava afim e quando eu estivesse afim, nunca vi a família como uma obrigação social. Eles discutiam herança entre irmãos com os pais bem vivos, nós nos preocupávamos em fazer companhia à minha mãe quando meu pai morreu. Já era meio subentendido que abriríamos mão de qualquer coisa e deixaríamos tudo para minha mãe, tendo direito ou não.
Havia uma preocupação com patrimônio, normais sociais e aparências que, por muitas vezes, me assustavam. Muitas vezes ela parecia desgastada ou enojada com isso também, mas fazia porque alguém na família tinha que fazer, porque era tradição, porque sempre foi assim. Eu assistia àquilo atônito, impressionado como uma família tão numerosa quanto a minha - com literalmente dezenas de primos e tios até de terceiro grau que moravam em um mesmo bairro - era tão mais simples e unida do que uma dúzia de endinheirados que pareciam brigar por coisas fúteis.
Ela, que estava ali do meu lado, não. Tudo que ela me contava soava como uma cópia fiel da minha família, apenas em escala ligeiramente menor. Pensei em como as coisas seriam simples ao lado dela, despreocupadas, tranqulas. Que eu não passaria a vida sendo julgado pela família da minha companheira como o ex-pobre com pinta de hipster que conseguiu ganhar algum dinheiro, mas não tem muita classe nem é muito cristão, como nos últimos anos.
As palavras que saíram da boca dela depois de uns dois ou três copos de cerveja poderiam muito bem ter sido lidas do meu pensamento. “Você acha que a gente teria sido um bom casal? Que a gente ia se dar bem?”.
“Não tem como saber”, eu respondi. “Mas a gente pode imaginar”. E a gente começou a brincadeira mais dolorosa da noite, imaginando como seria se tivéssemos ficado juntos 12 anos atrás.
“Eu jogava videogame para caralho, você ia se irritar. E eu ia te pentelhar para jogar comigo”, eu comecei.
“Eu gostava de videogame, só não jogava muito. Eu ia te arrastar para show da Avril Lavigne e da Pitty, você não ia gostar”.
Eu sorri. “Eu não tenho nada contra as duas”.
“Britney e Justin Timberlake também”.
“Porra, aí você já tá forçando a barra, amor tem limite”.
Falamos sobre meus primeiros estágios, sobre como eu era maluco e fazia dois estágios e faculdade ao mesmo tempo. Saía de casa às cinco da manhã e voltava às onze da noite. Tudo para conseguir ter uma grana legal, já que na minha área os estágios eram ridiculamente baixos. Ela falava sobre a rotina de estudos para concurso, sobre como foi difícil conciliar a faculdade - que ela eventualmente abandonou por causa do filho - com o recém-conquistado emprego público. Eu falava do meu início de carreira, que foi bem melhor do que eu jamais imaginara, como subi rapidamente. Como eu achava estranho ganhar a grana que eu ganhava - que não era nada extravagante, garanto - mas meus hábitos simples faziam com que eu mal gastasse metade do salário. Ela falava da depressão que tomou conta dela ao perceber que estava num emprego extremamente burocrático e ineficaz, deixando-a incapaz de buscar outras alternativas. Falamos sobre a morte dos nossos pais, que parecem ter conspirado para falecer no mesmo ano.
Em algum momento, a cabeça dela repousou no meu ombro. Eu não soube o que fazer. Pensava apenas na minha esposa, em jamais ter traído ela nem nenhuma outra mulher. Foi aí que eu percebi que ela chorava e, novamente, eu chorei também.
“É engraçado a gente ter saudade de algo que a gente não teve”, eu disse, lembrando de um livro que eu li há muito tempo.
“Acho que a gente seria um casal do caralho”, ela disse, com um inesperado sorriso entre as lágrimas.
“Ou talvez a gente se detestasse e desse tudo errado, a gente nunca vai saber”.
“A gente nunca vai saber”, eu repeti, mentalmente. Como um vírus, a ideia se espalhou dentro de mim rapidamente. “Eu posso fazer uma diferença na vida dessa mulher, na vida do filho dela, na própria família dela. Eu posso ter uma vida mais tranquila ao lado dela, sem essas picuinhas de família rica. Minha esposa pode encontrar um homem muito melhor para ela. Um cara rico, cristão e que tenha a classe e pose que a família dela tanto quer. Isso pode acabar bem para todo mundo”.
Mas não podia. Lá no fundo, eu sabia que não podia. Eu tinha quase uma década de história com minha esposa. Eu tinha um casamento plenamente feliz atrapalhado por alguns poucos problemas familiares e inseguranças minhas. Tínhamos uma química ótima, gostos parecidos para livros e filmes, nos dávamos bem na cama. Valia a pena jogar aquele relacionamento tão bom e funcional - algo que me parece cada vez mais raro hoje em dia - por uma aventura fugaz? Um remorso do passado? Em um relacionamento com uma estranha que eu estava voltando a conhecer havia algumas horas?
“Você nem a conhece”, dizia a cabeça. “Ela é igual a você”, dizia o coração.
No fim das contas, eu segui a cabeça. Conversamos até quase dez da noite. Pegamos um Uber e fiz questão de deixá-la em casa, um prédio pequeno em um bairro abandonado do subúrbio. Quando o carro parou, ela se demorou um pouco do meu lado e, por impulso, eu segurei a mão dela. Ela me encarou assustada e ansiosa. Eu pensei em beijá-la, em ligar o foda-se e jogar tudo para o alto ali mesmo. Mas eu só desci do carro com ela na rua deserta e caminhamos juntos para dentro do prédio, sem saber exatamente o que a gente estava fazendo. Pedi para o motorista me esperar e disse que depois acertava uma compensação com ele.
“Eu vi o seu Facebook. Você é casado com uma mulher linda. E inteligente. Você não vai me trocar por ela. Nem eu quero acabar com o seu casamento”.
“Você acha ela linda e inteligente?”.
“Você sabe que ela é”.
E então eu desabafei. Falei que passei as últimas semanas reavaliando meu casamento e meu futuro, encarando a foto dela no Facebook de tempos em tempos. Que meu coração quase parou quando encontrei-a pela primeira vez. Que eu gostava de tudo nela. Da dedicação como mãe, da simplicidade, dessa aura de pessoa correta que ela exalava sem fazer esforço, desse espírito suburbano e familiar que ela tinha. Dos olhos dela, tão animados no passado e tão tristes agora. De como eu estava me segurando para não beijá-la naquele dia todo.
“Você é linda. Eu sei que você se acha feia, eu sei que você acha que ninguém vai se interessar por você. Mas você é uma mulher foda, e nem preciso subir para saber que você é uma mãe foda, uma filha foda. Não deixa a vida passar. Eu tenho certeza que tem mais gente que, igual a mim, já percebeu isso em você e não sabe como falar. Não faz de novo a mesma coisa que a gente fez lá atrás. Eu só queria que você soubesse disso porque eu acho que você merece ser muito mais feliz do que você é agora. E você não tem ideia de como você me deixou maluco esses dias todos. Eu sou bem casado com uma mulher linda sim, mas só de encontrar você eu tive vontade de jogar tudo para o alto”.
Foi um monólogo mais longo do que eu esperava. De novo, ela chorou. Dessa vez, eu contive as lágrimas. O abraço que partiu dela foi um dos melhores e mais tristes que já ganhei na minha vida. Havia ali uma história de amor não vivida, saudades de uma história que jamais colocamos no papel, de um mundo que nunca existiu. Ela me apertou forte e eu sentia minhas mãos tremerem.
Encostamos as laterais do rosto um do outro, aquele prenúncio de um beijo adiado. E que tive que usar todo auto-controle do mundo para manter adiado. Me afastei, olhei nos olhos dela, sorri e fui embora. Quando o Uber saiu, ela ainda estava parada na portaria e minhas mãos ainda tremiam.
Eu não sei se essa história acaba aqui ou não. Mas eu tenho quase certeza que sim. Algum dia eu vou contar tudo isso para a minha esposa, mas vou esperar esse sentimento morrer primeiro. Eu conheço ela o suficiente para saber que, em um bom momento, ela não ficaria triste com essa história. Eu até consigo imaginar a reação dela, repetindo a frase que ela me diz desde que a gente casou. “Eu te conheço. Você não vai me trair com alguma gostosona oferecida por aí. Se alguma coisa acontecer, você vai se apaixonar por alguém. Eu te conheço, você é romântico. Mas a gente se resolve”.
Quando cheguei na minha casa vazia, sentei e escrevi quase tudo isso de uma tacada só. Sem revisão, sem pensar muito. Eu acho que eu poderia escrever dezenas de páginas sobre os detalhes da conversa, mas isso aqui já está longo demais. Antes de dormir, eu vejo que tenho uma mensagem no Whatsapp.
“Foi muito bom encontrar você”.
Toda aquela tentação de falar algo mais grita dentro de mim, se debate.
“Foi bom te ver também :) “.
Por via das dúvidas, coloquei o celular em modo avião e suspirei. “Eu tô feliz ou triste?”, me perguntei. Parece uma pergunta simples e relativamente objetiva, mas eu não soube responder. Eu custei a dormir, com medo de sonhar com ela. Quando eu acordo no dia seguinte e me preparo para ir ao trabalho, a impressão que eu tenho é de que tudo foi um sonho. Vê-la, reencontrá-la, chorar, abraçá-la.
E, como quando a gente acorda de um sonho triste, eu volto a viver minha vida normal para esquecer. Hoje tem reunião com cliente. À noite, preciso pegar minha esposa no aeroporto.
submitted by tombombadil_uk to brasil [link] [comments]


2016.05.12 19:54 marcusbright Uma odisseia - Como consegui bolsas de estudo para os EUA, França & Austrália. Texto longo.

RESUMO:
Nasci em São Luís do Maranhão, e sempre quis trabalhar com cinema. Em 2010 consegui uma bolsa de estudos 100% para estudar em uma das 10 melhores escolas de cinema dos EUA. Em 2014 retornei para o Brasil, e voltarei para os EUA em Agosto para cursar Mestrado na mesma universidade, também com bolsa integral. Desta vez o plano é ficar por lá e conseguir residência fixa.
 
Sempre que falo que estudei nos EUA recebo as mesmas perguntas. Deixo aqui um apanhado das minhas experiências nos últimos 10 anos em relação à estudar fora. Já existem vários guias onlines sobre o assunto, mas são quase todos genéricos e não abordam as questões específicas. Por isso, vou ser bem detalhista neste relato, que deve fica bem longo.
Além do mais, muitas vezes a conversa online se resume em “Casei com uma Americana” ou “Tenho cidadania europeia.” O que, sejamos sinceros, não ajuda muito quem não tem essas coisas. O meu caminho foi o do estudo, e é um caminho que, em teoria, todos podem seguir.
 
Esse relato é específico para O MEU CASO. Você pode conseguir uma bolsa de um jeito COMPLETAMENTE DIFERENTE, que desconheço. Posto minha experiência aqui para servir como REFERÊNCIA de como foi que funcionou pra mim e como foi minha vida durante o processo. Também dividi o texto em seções para facilitar a leitura de quem procurar um assunto específico.
 
MEU BACKGROUND
Sou de família classe média, filho de dois professores. Então, até mesmo por influência dos meus pais, sempre tive um foco muito grande na minha educação. Sempre fui nerd. Gostava de ler e passava horas na Wikipédia caçando links e definições. Credito à essa curiosidade e vontade de ir atrás de informação todo o sucesso que tive na vida. Creio inclusive ser um perfil bem comum aqui no Reddit, visto que têm uma predominância muito grande de pessoas autodidatas, especialmente programadores, e pessoas que geralmente procuram se manter bem informadas.
Se você for rico, pra ser sincero, ir pra fora não é um problema. Existem mil maneiras. Entrar numa universidade qualquer lá fora não é difícil (com exceção das top, claro).
O difícil é pagar.
 
MINHA DECISÃO
Sempre quis fazer cinema. Sempre mesmo. Não tenho memória de nenhum momento na minha vida em que este não fosse meu sonho. Mas foi quando eu tinha uns 10 anos que concretizei meu objetivo: “Quero ser diretor de cinema”. Assistindo entrevistas com meus diretores favoritos na época, ficou claro que todos eles tinham feito curso superior na área. Nos anos seguintes, começei a ficar mais consciente dos cursos de cinema no Brasil, e os que mais me chamaram atenção foram os da USP e da FAAP, considerados os melhores do país. Mas algumas coisas me incomodavam no geral:
 
  1. Os cursos brasileiros eram em grande parte extremamente teóricos. Amo teoria, mas acredito que ela deve informar a prática e vice-versa.
  2. No Brasil, cinema tende a ser uma concentração nos cursos de Comunicação. Lá fora são cursos específicos de Cinema.
  3. Equipamento e instalações defasados.
  4. A indústria cinematográfica no Brasil não era praticamente nada comparada à de outros países.
  5. Aquele povo chato de humanas (sou de esquerda, mas pfv né?)
 
E, claro, eram todos cursos muito longe de São Luís, MA. Pensei: “Porra, São Paulo e Los Angeles são ambos longe pra cacete, vou tentar ir pra LA logo.”
 
ENSINO MÉDIO
Durante o EM, começei a focar minhas atenções acadêmicas no cinema. Começei a comprar livros e estudar muito a respeito de roteiro, decupagem, fotografia, edição, em fim, a me aprofundar no assunto.
Na escola, convenci minha professora de Redação a me deixar escrever roteiros de curtas ao invés daquelas redações insossas. Para minha surpresa, ela concordou.
Eu era muito caseiro e apegado à família. Quando expressei vontade de estudar fora, ambos meus pais acharam que eu devia fazer um intercâmbio de curta-duração antes, pra crescer um pouco e aprender a me virar sozinho.
No começo a gente ficou meio receoso do investimento, mas acabou que não foi tão caro e meus pais tinham um dinheiro guardado. Acabei concordando e fui parar no Kansas por um ano letivo.
Não tinha nada pra fazer no Kansas em termos de cinema. Mas fui bem na escola, e me dediquei muito à História Americana . Também participei de muitas atividades extracurriculares. Participei do clube de competição de trivia, robótica, estudos avançados, etc.
Também fiz o SAT e o ACT, que são os ENEMs americanos (ambos se focam em matemática e inglês) usados para ingressar nas faculdades. Fui medíocre em ambos. Fiquei no nível da média nacional.
Terminei o ensino médio no Kansas e voltei pro Brasil em 2008 com um diploma americano.
 
O PROCESSO
“E agora?”
Foi essa a pergunta que eu fiz. Estava de volta no Brasil, formado no Ensino Médio. Como chegar nos EUA?
 
OS OBSTÁCULOS
Comecei a entrar em sites de universidades americanas e me familiarizar com os termos, processos de admissão, assim como procurar as melhores escolas de cinema. Queria ter feito isso antes. Era tudo muito confuso. Termos como admissions, financial aid, scholarships, fellowships, tuition and fees, eram completamente estrangeiros pra mim.
 
Mas logo ficou claro que eu tinha dois obstáculos à superar:
 
  1. Ser aceito em uma boa escola de cinema.
  2. Pagar uma boa escola de cinema. A anuidade das grandes universidades giravam em torno de 40.000 dólares. O salário dos meus pais não chega nem perto disso, nem o que eu ganhava como freelancer. Eu precisava de uma bolsa 100% da anuidade, e as despesas pessoais (moradia, alimentação, transporte) a gente podia economizar durante um ano pra pagar.
 
Para deixar claro: o preço é esse mesmo, e hoje está até mais alto. E isso não é só pra estrangeiro não. Americanos também pagam essa soma ridícula. A diferença é que eles recebem bolsas do governo federal e podem tirar empréstimo estudantis com os bancos. Não é raro para os Americanos se formarem com dezenas (até centenas!) de milhares de dólares em dívida. De fato, essa é uma pauta cada vez mais quente, e muitos estão preocupados com essa bolha de empréstimos estudantil.
 
Nós, brazucas, não podemos receber auxilio federal e também não podemos tirar empréstimos nos bancos lá (a não ser que você tenha um fiador que seja cidadão Americano).
 
Eu não tinha nenhum fiador, e nem queria passar décadas da minha vida em dívida, então sobraram 2 opções:
 
  1. Conseguir uma bolsa 100% da própria universidade
  2. Conseguir uma bolsa 100% de instituições privadas.
 
CONSEGUIR BOLSA DA PRÓPRIA UNIVERSIDADE
Que eu saiba, todas as universidades americanas oferecem bolsas de estudos. Mas são majoritariamente bolsas parciais. Bolsas de 2, 5, 10 mil dólares. Bolsas integrais são o santo-graal das bolsas de estudos.
E aqui começa o primeiro empecilho sério pros brazucas.
Para ser considerado para bolsas de estudo, você precisa ser aceito na universidade.
Para ser aceito na universidade, você precisa provar que pode pagar por ela.
É isso aí, catch-22 total.
Você precisa provar pra escola que tem grana no banco suficiente pra te sustentar durante o primeiro ano de estudos (anuidade, estadia, alimentação, saúde). Isso é um requerimento do Departamento de Estado Americano. Só assim a escola pode te aceitar e emitir o I-20, documento que você leva na embaixada pra tirar o visto de estudante.
Já ouvi falar de gente que pede pra parente rico enviar um extrato bancário e coisas do tipo, só pra ser aceito e ser considerado pra bolsa. Eu não conhecia ninguém rico, e nem tenho a cara-de-pau de pedir algo assim.
 
Apenas 5 universidades são exceção. Atualmente estas aceitam qualquer estudante estrangeiro e se comprometem de cara a cobrir todos os gastos necessário para os estudos.
 
  1. Amherst College
  2. Harvard University
  3. Massachusetts Institute of Technology
  4. Princeton University
  5. Yale University
 
Estas são as cinco universidades que são need-blind e full-need para estrangeiros.
 
*Need-blind: não pedem prova de que você pode pagar.
*Full-need: se comprometem a cobrir toda sua necessidade financeira.
 
Infelizmente nenhuma destas universidades têm curso de Cinema. Então nem considerei.
 
CONSEGUIR BOLSA DE INSTITUIÇÃO PRIVADA
Se você não conseguir ser aceito com bolsa diretamente na universidade, a solução é ir procurar em instituições privadas.
Existem várias instituições com programa de bolsas. Desde empresas que financiam a educação para seus empregados e filhos de empregados, até fundações filantrópicas.
 
Aqui no Brasil, acho que a mais famosa é o Programa de Bolsas da Fundação Estudar: https://bolsas.estudar.org.b
 
O processo é muito chato e têm várias etapas. Entrevista por Skype, Entrevista em pessoa, Dinamicas de grupo (argh!), etc. É uma putaria sem fim. Sem contar que é tudo feito no eixo RJ-SP, ou seja, eu teria que pegar um vôo pra SP pra participar de cada etapa (que ocorrem ao longo de vários meses). Mas o que mais me irritou foi que não divulgavam os valores da bolsa. Podia ser integral, podia ser parcial. Mesmo que eu fizesse todas as etapas e ainda fosse um dos contemplados, ainda podia acabar com uma bolsa de só 20%. Ainda teria que arcar com o resto. Sem chance. Se você mora nessa região e não precisa se locomover muito para participar das etapas de seleção, pode ser uma boa. Eu nem tentei.
 
Outras fontes para encontrar bolsas são a Universia: http://bolsas.universia.com.b
O Rotary também oferece bolsas, mas não conheço detalhes: http://www.bolsas.academicis.org/2014/03/rotary-internacional-oferece-bolsas-de.html
 
E, finalmente, descobri o Programa de Bolsas do IBEU/IIE: http://portal.ibeu.org.bsou-ibeu/estude-nos-eua/ibeuiie/
 
O programa contemplava alunos de todas as áreas, guiava os alunos por todo o processo de admissão nas universidades, e articulava bolsas com as próprias escolas (hoje o site diz que são só bolsas parciais, mas tenho a impressão que é só para não dar falsas esperanças…)
O processo todo podia ser feito à distância, e eu só precisaria ir pro RJ para uma entrevista caso fosse um dos finalistas.
 
Ótimo. Me inscrevi.
 
Precisei enviar uma série de redações (essays) e testes acadêmicos. Listo abaixo cada dos itens.
 
  1. Study Objective: Esta é a sua Carta de Intenção. Você precisa delinear os seus objetivos acadêmicos. Qual curso quer fazer? Qual especialização? Por quê? Como você vai colocar esse conhecimento em prática na sua carreira? Você têm experiência relevante na área? Explique.
  2. Biographical Essay: Basicamente a história da tua vida. Onde você nasceu, seus pais, família, figuras que te influenciaram, eventos que marcaram sua vida e o tornaram a pessoa que você é hoje.
  3. Personal Essay: Essa é uma carta pessoal. O objetivo é mostrar para o comitê de seleção quem você é como pessoal, não aluno. Você pode falar de uma experiência importante na sua vida, um risco alto que você tomou, alguma questão local, nacional ou internacional que seja de grande importância para você; algum filme, livro ou obra de arte que deixou uma profunda marca em você, ou algum tópico de sua escolha.
  4. Cartas de recomendação: 3 cartas de professores, chefes de trabalho ou colegas de profissão.
  5. TOEFL: O teste de inglês usado para entrar em todas universidades americanas. Meu inglês já era fluente, mas precisei pegar um vôo para Belém para fazer a prova (não era realizada em São Luís).
  6. SAT: Esta prova eu já tinha feito no Kansas. Eu não tinha ido bem, mas não tinha grana pra fazer de novo. Custa caro. Então usei a minha nota baixa mesmo.
  7. 3 SAT SUBJECTs: Esta são provas complementares do SAT que se focam em diferentes disciplinas. Você precisa fazer 3 disciplinas. Tive que ir pra Brasília fazer estas... Escolhi fazer as provas de História Americana (achei que impressionaria o comitê), Biologia (meus pais são professores de biologia. Então foi sussa) e Espanhol (nunca tive aula de Espanhol. Mas depois de fazer um simulado percebi como a prova era fácil. Quase fechei. E fiquei parecendo trilíngue).
 
Depois de meses de ansiedade, recebi o e-mail comunicando que eu era um finalista e estava convocado para a entrevista no RJ.
 
Compareci à entrevista, super nervoso. Me perguntaram sobre várias coisas que mencionei nas redações, e no final me informaram que eu tinha feito tudo completamente errado na Personal Essay. Era pra escrever uma coisa pessoal mesmo, tipo, algo que você escreveria num diário ou uma carta para um amigo. Eu tinha escrito um ensaio sobre o status do cinema como literatura do séc XX… Eles me explicaram como era pra fazer e mandar de novo (e fizeram questão de dizer que acharam o ensaio muito interessante).
Na saida, retardado como sou, nervoso pra cacete, digo “Tchau. Boa Noite.” Era 1h da tarde.
 
Semana seguinte recebo a lista dos 15 selecionados, e vejo meu nome na lista. Aí começa o processo de seleção de universidade.
 
ESCOLHENDO A UNIVERSIDADE
O IBEU, que trabalha como representante do IIE (Institute of International Education), pede uma lista das universidades em que eu quero tentar ingressar. Eu, claro, dou a lista das melhores escolhas de cinema que conhecia. UCLA, USC, NYU e Columbia.
O IIE olha as minhas escolhas, olha as minhas notas, redações, testes, etc. e dá um parecer, tipo: “A USC é muito mesquinha com bolsas, e suas notas não são boas o suficiente. Ou, a NYU não dá bolsa nenhuma.”
 
Ao final, disseram basicamente que eu não tinha chances em nenhuma dessas escolas. Fiquei bem chateado. Mas eles ofereçeram uma lista de escolas mais de acordo com meu perfil, onde eu tinha mais chances de ser aceito com bolsa. Uma dessas escolas era a Chapman University, e procurando online logo descobri ser uma das 10 melhores dos EUA.
 
Acabei tentando minha sorte na Chapman e algumas outras de menos calibre. Acho que ao todo tentei em 6 universidades.
Fui aceito em 5 universidades, e recebi oferta de bolsas nas 5. Duas destas cinco eram 100% da anuidade. E uma destas era a Chapman. De longe a melhor escola na minha lista.
Foi assim que fui estudar cinema nos EUA em 2010. Ao todo, levei dois anos entre terminar o Ensino Médio e começar o Superior. Nesses dois anos, não tentei entrar numa escola brasileira e nem arranjei emprego fixo. Trabalhei em projetos pessoais e freelancer, fazendo curtas, escrevendo roteiros, editando projetos, construindo portfolio.
 
Reconheço que fui incrivelmente abençoado por pais que deixaram o filho passar DOIS ANOS seguindo um sonho impossível, e sei que nem todos têm esse privilégio. Se você ainda está cursando o EM, recomendo tentar já. O ciclo de admissões para as universidades Americanas leva o ano inteiro.
 
A FRANÇA ENTRA NA HISTÓRIA
Em 2010 começei meus estudos na Califórnia. Assim que cheguei na escola, percebi que ela tinha um programa de estudos no exterior muito forte. Cerca de metade dos alunos passavam pelo menos um semestre no exterior.
Conferindo a lista de programas e escolas parceiras, vi que a Chapman tinha parceria com uma escola em Cannes, na França. Um semestre, culminando com um estágio no Festival de Cannes. E o melhor, a minha bolsa da Chapman era transferível para a escola na França. Eu só precisava pagar a passagem aérea.
 
Conversei com meus professores e orientadores e tracei todas as disciplinas que eu cursaria em cada semestre ao longo de 4 anos. Queria garantir que passar um semestre no exterior não atrasaria minha graduação. Isso é importantíssimo, já que as bolsas Americanas são renováveis por no máximo 4 anos.
Planejei com 1 ano e meio de antecedência. Comecei a fazer aulas de Francês na própria Chapman (essas aulas contavam como optativas), e em 2012 fui pra Cannes falando um Francês intermediário-baixo. Passei 6 meses estudando um intensivo da língua, história da arte francesa, e viajando pela Europa.
 
DE VOLTA PARA OS EUA E PREPARAÇÃO PARA MESTRADO
Em Agosto de 2012 estava de volta na Califórnia.
À essa altura eu já estava pensando no que fazer após a graduação, já que o visto ia expirar e eu queria continuar nos EUA.
Não é fácil. Após a graduação você pode passar 1 ano numa autorização de trabalho provisória chamada OPT (Optional Practical Training). Basicamente, vc se forma e tem um ano pra adquirir experiencia de trabalho antes do seu visto expirar (2 anos em caso de ser aluno STEM).
Depois disso, pra continuar com visto de trabalho, vc precisa ter uma empresa disposta a te patrocinar e te contratar em tempo integral. É um processo caro e chato, então a empresa tem que gostar muito de você pra passar por isso. Cinema é uma área de freelancers. Então a possibilidade de conseguir uma empresa disposta a te contratar num salário fixo, em tempo integral, é muito baixa.
 
Ficou claro, por diversas razões, que é muito mais fácil conseguir isso se você tem um Mestrado, e ru já queria fazer Mestrado mesmo. Minha educação sempre foi motivo de orgulho e prazer, então um Mestrado sempre foi certeza.
 
Decidi: “Vou fazer Mestrado.”
À essa altura, eu precisava declarar uma concentração no curso de Bacharel. Uma especialidade (roteiro, fotografia, etc.) Era muito importante me formar em algo que serviria como BASE para desenvolver trabalhos numa pós. Isso é importantíssimos pros Americano. Se você quer fazer pós em Direito, por exemplo, faça graduação em Relações Internacionais, ou História, ou Literatura. Também era importante ser algo que eu pudesse usar para pagar as contas, fazer meus próprios filmes. Enfim, ser auto-suficiente.
 
Declarei meu Bacharel em Animação e Efeitos Visuais, com esperança de fazer Mestrado em Direção e Roteiro Cinematográfico.
A partir de então, eu fiz TUDO que pudesse para me tornar um bom candidato para curso de Mestrado. As famosas atividades extracurriculares. Escrevi críticas de filmes para o jornal da escola. Trabalhei como Supervisor de Efeitos Visuais em vários projetos de amigos (um inclusive venceu um BAFTA). Me inscrevi em um programa educacional da Chapman que me permitiu escrever um roteiro de longa metragem sob a mentoria de uma produtora vencedora do Oscar. Fiz disciplinas optativas em Lógica, Filosofia, História, Teoria do Cinema, Inglês, enfim, tudo tudo tudo. Fui tesoureiro de um clube acadêmico e ajudei a organizar eventos.
 
A FULBRIGHT
Em 2014 retornei ao Brasil. Foi uma decisão dificílima de fazer, e muitas vezes achei ter cometido um erro terrível. Qualquer pessoa com bom senso teria ficado nos EUA com o OPT e ralado para encontrar um emprego qualquer e torcer pra conseguir um visto. Eu nunca gostei de torcer pra nada, sempre minimizar o acaso. Achei que tinha mais chances de conseguir uma bolsa pra Mestrado do Brasil do que um trabalho nos EUA.
A minha grande esperança era a Bolsa Fulbright: http://fulbright.org.bbolsas-para-brasileiros/
Pra quem não sabe, o Programa Fulbright é o mais prestigioso programa de bolsas dos Estados Unidos. Eles dão bolsas para Americanos estudarem fora e para estrangeiros estudarem nos EUA. 54 bolsistas chegaram a ganhar o Prêmio Nobel. 82 chegaram a levar o Pulitzer.
A Fulbright têm um programa específicos para Brasileiros que querem cursar Mestrado em Cinema nos EUA. O processo é praticamente idêntico ao do IBEU (ambos são coordenados pelo IIE). Esse programa era meu alvo.
E o melhor, a Fulbright oferecia, em conjunto com a CAPES, além da anuidade: seguro saúde, transporte aéreo e bolsa manutenção. É o sonho.
Então enviei minha inscrição pra Fulbright.
 
Não passei nem para as etapas finais. Fui eliminado quase de cara.
 
Passei duas semanas deprimido. “Voltei pro Brasil só pra conseguir essa bolsa e falhei.” Encarei a realidade. Tinha perdido minha chance de ficar nos EUA. De volta à estaca zero. Me mudei para São Paulo pra tentar tocar a vida como animador ou algo da área.
Ao mesmo tempo, comecei a procurar programa de bolsas para terminar meus estudos em outros países. Depois de ver a qualidade do ensino lá fora, não queria mesmo estudar cinema no Brasil.
 
PRÊMIOS CHEVENING, ENDEAVOUR & ORANGE TULIP
Como os EUA têm a Fulbright e o Brasil tem a CAPES, imaginei que outros países deviam ter orgãos similares. Fui procurar e descobri que o Reino Unido tem o Chevening Award, a Austrália têm o Endeavour Award, e a Holanda têm o Orange Tulip.
Todos são basicamente a mesma coisa. O mesmo tipo de processo. Bolsas de Pós para facilitar o enriquecimento mútuo entre ambas nações.
 
O Chevening Award requer uma experiencia prévia muito grande na área de trabalho, e eu era apenas um recém-formado. Como a Fulbright, cobre praticamente tudo, incluindo ajuda de custo para materiais acadêmicos, custo da tese de mestrado, taxa do visto e alojamento, entre outros. http://www.chevening.org/brazil
 
O Orange Tulip é um pouco mais limitado. Criado em 2012, o programa oferece bolsas com valores fixos para cursos e disciplinas pré-aprovados. https://www.nesobrazil.org/bolsas-de-estudo/orange-tulip-scholarship
 
O Endeavour Award é diferente. Aceita alunos de todas as áreas. Alunos de curso profissionalizante recebem 50% da anuidade. Alunos de curso de Mestrado ou Doutorado recebem 100% da anuidade. Todos recebem passagem aérea, ajuda de custo de alojamento, bolsa manutenção (3.000 dólares por mês), seguro saúde e seguro viagem. https://internationaleducation.gov.au/Endeavour%20program/Scholarships-and-Fellowships/Pages/default.aspx
 
Mandei minha inscrição para a Endeavour, listando todas aquelas atividades extracurriculares que realizei, meus projetos, honras, prêmios, etc. Qualquer crédito que eu tivesse. E comecei a rezar.
5 meses depois recebo a notícia: Consegui a bolsa de 50% para um curso profissionalizante.
 
UM PRÊMIO MUDA TUDO
Pouco antes de receber a notícia da Endeavour, recebi outra notícia boa: O filme que fiz como TCC no curso na Chapman havia vencido um prêmio importantíssimo. Com esse prêmio, a Chapman me ofereceu outra bolsa integral para voltar e realizar meu Mestrado lá.
 
E isso me forçou a fazer certas escolhas difíceis. Agora eu precisava escolher entre voltar pros EUA, prum curso ótimo, mas custo de vida alto, ou pra Austrália, prum curso relativamente fraco, mas com bastante ajuda de custo.
 
Eu não queria voltar pra Chapman pro meu Mestrado. Até por pura questão de experiência, eu queria explorar um ambiente novo.
Mas…. beggars can’t be choosers. Além do mais, eu já tinha uma base na Chapman, de amigos, professores, administradores, reitores, que seriam uma imensa ajuda na hora de conseguir um emprego e conseguir um visto ou green card.
 
Por isso, rejeitei a oferta da Endeavour e aceitei a da Chapman.
Volto pra lá em Agosto pra começar meu Mestrado em Direção Cinematográfica.
 
E é isso.
 
CONCLUSÃO
Ufa! Não achei que fosse ser tão longo.
Ao longo desses anos, 3 coisas foram essenciais e me permitiram aproveitar as oportunidades quando estas apareciam.
 
  1. Planejar a longo prazo
  2. Apoio dos pais para me concentrar 100% nesses objetivos. Tive o luxo de não ter outras preocupações.
  3. Uma sede de informação. Foram muitos, muitos e-mails, sites e ligações telefônicas pra conseguir toda essa informação.
 
É possível que algumas coisas não estejam tão claras no texto quanto estavam na minha cabeça. Vou deixar o post aqui e continuar respondendo caso haja mais duvidas. Qualquer coisa edito o post pra atualizar.
submitted by marcusbright to foradecasa [link] [comments]


2015.09.09 21:05 veribaka [Blog] Os sete ingredientes mortais de Rui (Eu visto de vermelho e branco)

Era uma vez…
Um pasteleiro de seu nome Jorge, conhecido como o melhor pasteleiro na zona na arte de fazer pastéis de nata. Aqueles pastéis de nata tipicamente portugueses, que encantavam qualquer um que tivesse a oportunidade de os apreciar. A história do Jorge é algo caricata, ele foi subindo na vida a pulso, de empresa em empresa, até que surgiu a oportunidade de integrar a maior pastelaria de Portugal.
A pastelaria era a mais conceituada e reconhecida em Portugal (doravante pastelaria B) e tinha uma imagem muito positiva além fronteiras, devido a mais de 100 anos de história e de sucessos alcançados ao longo da sua vida, no entanto encontrava-se numa situação algo moribunda, à deriva e sem conseguir alcançar nos anos precedentes todo aquele sucesso que lhe era reconhecido. Andava a perder prémios, prestígio e reconhecimento para uma outra empresa situada mais a norte (doravante pastelaria P), que aliava qualidade a uma postura menos correta no nicho de mercado em que se encontra, algo que as autoridades competentes deixaram passar em branco (e amarelo, e mulato, e etc.), porque as suas pastelarias se faziam acompanhar de um café com leite e uma frutinha da época, capaz de fazer qualquer um atingir momentos de puro prazer.
Com a chegada do Jorge à pastelaria B, esta sofreu um safanão tal que começou novamente a voltar a encantar os seus clientes, a ganhar prémios e a mostrar o porquê de ser a mais conceituada e o porquê de merecer ser a maior e melhor pastelaria do país! Com altos e baixos entre 2009 e 2015, altura em que Jorge esteve à frente da pastelaria B alcançado alguns êxitos devido aos seus pastéis de nata maravilhosos, a pastelaria conseguiu colocar-se como a maior potência doceira nacional e o futuro prometia alguma estabilidade e confiança. Entre este período existiram algumas crises entre Jorge e a entidade patronal, que acabou por lhe dar a mão e manter no cargo mesmo contra a vontade de grande parte dos clientes que demonstravam algum descontentamento devido à qualidade dos seus croissants ter vindo a decair e a desiludir, batendo no fundo em 2013. A partir daí assentaram os pés no chão e até 2015 foi um regabofe de prémios e prestígio alcançados, que Jorge voltou ao trono com os seus pastéis de nata, altura em que… Foi vê-lo partir naquela estrada.
A empresa rival da área metropolitana de Lisboa (doravante pastelaria S) decidiu ir atrás do Jorge, e num golpe de charme conseguiu contratá-lo com um chorudo ordenado, deixando ao mesmo tempo a pastelaria B ferida no orgulho. Há lá coisa mais gostosa que conseguir uma estrela para a empresa, ao mesmo tempo que se enfraquece a empresa rival! Os pastéis do Jorge também são gostosos, mas isto é um gostoso daqueles que acontece muito raramente quando há um eclipse solar, e a empresa S bem que precisava de um ânimo renovado, depois de anos e anos na penumbra e na sombra das principais doçarias nacionais B e P. O Jorge também não fica isento de culpas, demonstrando toda uma falta de humildade e respeito perante quem lhe deu muito mais a ganhar que a perder, defeitos que lhe tinham sido apontados ao longo dos anos, sendo também por aí que os seus pastéis de nata serviam algumas vezes para um brilharete interno, mas além fronteiras acabavam por ser esmagados e fazer má figura. O seu ego era enorme mas os factos não o justificavam, e Jorge nunca viu isso dessa forma nem aceitaria algo nesses termos. Para si mesmo, ele era o maior e melhor pasteleiro de Portugal (até que o mundialmente reconhecido e emigrado José).
Passado todo este episódio e assente a maior poeira, o grande líder da empresa B, Luís, procura desesperadamente um substituto para Jorge. A clientela levou uma facada no coração ao perder o seu pasteleiro de renome nacional a seu lado já há alguns anos, e chorava pelos pastéis de nata maravilhosos que nos últimos anos tinham voltado em força às mesas da pastelaria B. Era Jorge ou o caos, nas fileiras da pastelaria B. Sem meias medidas e numa postura cuja intenção de Luís seria demonstrar que Jorge alcançou o sucesso devido à empresa e não o contrário, ele tomou uma decisão da sua (quase) inteira responsabilidade. Fazendo orelhas moucas a tudo e todos que o rodeavam, escolheu para substituto de Jorge um homem que trabalhava numa empresa mais a norte, em Guimarães, chamado Rui.
Rui é um pasteleiro mais novo e com menos experiência, tinha ganho algum bom nome devido ao trabalho feito na empresa de Guimarães, onde com poucos recursos tinha conseguido manter alguma qualidade no trabalho apresentado. A sua maior virtude tinha sido a aposta com sucesso em ingredientes caseiros, que mais tarde dariam um belo retorno financeiro à empresa. Contrariamente aos pastéis de nata que o Jorge confecionava, Rui habitualmente era especialista na arte dos croissants, algo mais internacional e requintado, utilizado na maior parte das grandes pastelarias europeias e mundiais. Já tinha trabalhado numa das sub empresas da pastelaria B, era conhecido e homem da confiança do patrão Luís, e foi em si que recaiu a escolha para assumir o cargo. Os clientes e associados da pastelaria B não ficaram muito satisfeitos com a escolha, na sua maioria, porque não lhe viam o perfil e a qualidade necessária para manter a batuta, e consequentemente o Luís perdeu alguma (muito pouca, diga-se) falange de apoio.
Eu, como cliente associado que sou da pastelaria B, confesso que fiquei contente quando na altura foi comunicado oficialmente este facto. Era um dos dois pasteleiros da minha preferência, juntamente com outro de seu nome Marco, que rumou à Grécia. Defendo que a pastelaria nacional está boa e recomenda-se, estes dois nomes estavam disponíveis e julgo que dariam conta do recado se lhes fosse dada essa oportunidade. Estava confiante que a mudança para os croissants seria o rumo certo por ser o meu alinhamento pasteleiro preferido, e via qualidades na confeção do Rui.
Poucos meses se passaram, o Rui fez o seu estágio na América, começou a trabalhar a doer, e eu sinceramente estou com algum receio neste momento. Acredito que pode dar certo, lá no fundo acredito, mas já acreditei muito mais. O que se tem visto nos últimos tempos a sair da mui nobre pastelaria B, não faz jus ao nome que acarreta. Os doces têm sido bons q.b. à rasquinha, já perdemos um dos prémios de início do ano e logo para o Jorge e a empresa S que bateu cá forte no orgulho. Seguem-se aqueles que para mim são os sete ingredientes mortais para o que aconteceu, acontece e infelizmente acho que acontecerá no mundo da empresa B:
1 O estágio de Rui foi muito mal planeado, prejudicando seriamente o seu início a doer na pastelaria B. Sendo um pasteleiro novo na empresa, sem conhecer os seus colaboradores, começando um trabalho do zero, exigia-se que o estágio se pautasse por outros fatores. Sim, porque o fator em causa escolhido pelo patrão da empresa foi puramente económico quando se exigiam outros, nomeadamente o processo de dificuldade gradual, a proximidade e reconhecimento das suas próprias infraestruturas e ingredientes disponíveis, os testes de 3 em 3 dias.
2 A desconfiança dos clientes e associados da empresa B. Por vezes diz-se que é por dentro que uma casa cai, e foi um pouco o que aconteceu com Rui. Desde início que uma grande parte dos clientes não concordaram com a escolha do novo pasteleiro, não lhe reconheciam a qualidade necessária para levar a pastelaria pelo caminho da fama e do sucesso. O problema é que por todo o lado se começou a transmitir este sentimento (fóruns, blogues, televisão, nos cafés, etc) propagando-se e conquistando os mais incertos e até os que confiavam na escolha. Não raras vezes foram as circunstâncias em que se chegou mesmo a colocar o Rui como alvo de chacota e de ridicularização em praça pública com o intuito de levar a sua ideia avante, criando instabilidade não só desnecessária como digo mesmo estupidamente prejudicial. E prejudicial não é problema para muitos, que preferem mesmo que tudo corra mal na pastelaria B para mais tarde poderem dizer “eu tinha razão, eu avisei, eu bem sabia”.
3 A pressão da chegada de Rui à pastelaria B em nada se compara à pressão que Jorge encontrou aquando da sua chegada. É algo natural, e parece-me que é por aqui que o pecado mortal anterior tem origem. Quando Jorge chegou à pastelaria B para assumir o cargo de pasteleiro, a empresa encontrava-se numa situação de depressão, instabilidade e quase de acomodação a um segundo plano. Portanto, tudo o que Jorge pudesse fazer de positivo seria um sucesso, caso não conseguisse nada por aí além basicamente era mais do mesmo e continuar-se-ia na mesma senda. É algo que Rui não tem a seu favor, a margem de manobra. Este chega à pastelaria B após esta vir de um período positivo em termos de prémios e reconhecimento, de estreita relação com os seus clientes, de um mar de rosas à tona da água. Qualquer passo dado em falso por parte do Rui, é logo colocado como uma questão de vida ou de morte. As coisas ou correm bem, ou correm bem, porque nos últimos dois anos correram bem. E Rui tem de saber lidar com esta pressão enorme que lhe recai sobre os ombros, não tem alternativa.
4 A pastelaria B era reconhecida pela especialidade do Jorge, os pastéis de nata. Estes pastéis de nata conjugavam ali uma mescla de 4 natas, 2 camadas de massa folhada, 3 ovos e 1 pitada de canela. Depois há sempre aqueles segredos que são alma do negócio e que caracterizam cada um dos bons pasteleiros, a sua imagem de marca. Ora, Rui não é especialista nesta arte, é especialista nos internacionais croissants, vistos nas melhores e campeãs pastelarias alemã, inglesa, espanhola, francesa, etc, onde se cozinham e namoram entre si 4 camadas de massa folhada, 3 pitadas de farinha e 3 retoques de gila, ovo, chocolate, é ao gosto. Um dos principais problemas reside aqui, pois Rui não foi suficientemente corajoso para cortar com o passado. Neste momento a pastelaria B não vê servir aos seus clientes o bom croissant com que ele foi evoluindo ao longo dos anos e que ele melhor domina. Não, Rui optou por ceder à pressão e quis tentar continuar a produzir os pastéis de nata que existiam antigamente, quis manter o paradigma já existente, correndo o risco de não ter o conhecimento e a experiência necessárias para a confeção do mesmo.
5 Os ingredientes não se fundem de forma coesa e natural. Em virtude do que foi dito anteriormente. Quando os pastéis de nata de Rui chegam à mesa nos dias de hoje, não se denota um fio de sabor fluido e natural. Não se exige numa fase inicial um paladar esmagador e de levar aos céus os maiores críticos, mas pelo menos que demonstre alguma qualidade no controlo e no assumir de estatuto que tem necessariamente de lhe ser reconhecido. Não é com um pastel de nata confecionado aos trambolhões de início ao fim que se vai conseguir levar a nau a bom cais. Ou melhora muito a forma como todo um pastel de nata é elaborado do início ao fim como um todo, ou terá sérios problemas. Ou então começa novamente do zero e num ato racional e de coragem e pulso firme, assume que é bom a fazer croissants e é por aí que deve apostar. Já vai tarde, diga-se, porque deveria ter sido a sua postura desde início, é nisso que ele é bom, é nisso que tem de apostar, é na qualidade e no imediato que lhe vão recair as exigências e os fatores que lhe podem fazer alcançar o sucesso. Porque a pastelaria B ou começa em breve a apresentar qualidade aos seus clientes, ou corre o sério risco de entrar numa nova crise.
6 Dispõe de muitos ingredientes de qualidade mediana. Sejamos francos, para não correr o risco de ser desonesto, no último ano de Jorge também já se denotou uma clara quebra de qualidade no que aos ingredientes diz respeito, ainda que ele tenha conseguido disfarçar esse facto e tenha conseguido alcançar alguns prémios. No entanto a toada mantém-se. A pastelaria B está muito longe de apresentar hoje em dia a qualidade de ingredientes que apresentou durante o passado recente, ainda mais que no ano passado. E fazer um brilharete com ovos puros do campo de reconhecida qualidade, não é a mesma coisa que com ovos de aviário. Culpa de quem deixou a empresa B chegar a este ponto, de quem gere os stocks, de quem olha para os recursos e assume que está bom como está.
7 As condições orçamentais oferecidas são menores. Sim, sei que o Rui não está a conseguir manter a bitola nos pastéis de nata. Mas também não é menos verdade que naquela casa já houveram melhores condições para se fazer algo melhor, através de ingredientes de qualidade reconhecida, como eu disse anteriormente. Com a diferença que quando não os havia, compravam-se nem que fosse em cima do prazo de validade, e com Rui isso não aconteceu. O patrão cortou-lhe e de que maneira o orçamento disponível para abastecer o armazém de ingredientes de qualidade inegável. Parece até que longe vão os tempos recentes em que haviam ingredientes sérvios, brasileiros, argentinos, espanhóis de qualidade inegável, alguns até que não passaram muitas vezes de reserva no decorrer do ano. Hoje em dia existem ingredientes de primeira linha a serem utilizados constantemente que nem se aproximam da qualidade de alguns desses que por vezes eram meras reservas de ocasião. Capacidade para melhorar, não existiu. Outrora eram compradas verdadeiras especiarias a peso do ouro, hoje é vê-las a virem pesadas como o ouro.
Veremos o que acontece no futuro. Eu já confiei mais que a minha estimada pastelaria B tinha feito uma boa escolha, e que o homem escolhido tinha capacidade para o cargo. Continuo a ir lá tomar o pequeno-almoço diariamente, mas ainda denoto muita falta de açúcar para me adoçar o paladar ao meu gosto.
Texto escrito por anónimo, editor do blog.
Artigo completo.
submitted by veribaka to benfica [link] [comments]