Quantos anos é a juventude

Depressão agrava no final de semana!

2020.10.25 00:13 spidertb96 Depressão agrava no final de semana!

Eu convivo com a depressão a anos, e ela tem piorado, mas confeso q quando chega o fim de semana a coisa fica muito feia.
Semana passada fui para casa da minha tia na praia, não sai do ap dela, mas já foi muito melhor, tinha hora q a depre dava o ar, mas estava administrável.
Na minha casa é muito pior, eu fico só dentro do meu quarto, a ansiedade social acabou com minha vida, então não saio pq passo muito mal.
Eu fico triste na maioria do tempo, até quem mora comigo percebe, é como se ficar em casa lembrasse de todas as merdas da minha vida e o quanto sou fracassado. É horrível ser assim, minha vida é uma espiral de coisas ruins.
Eu não tenho paz na minha mente e não tenho mais vontade de viver. Sinto q estou ficando velho, e perdi minha juventude dentro de casa querendo morrer.
Eu só queria não ter essas merdas na cabeça, a vida já é dura quando se é normal, imagina pra quem tem de lidar com um inferno dentro da própria cabeça.
A instabilidade emocional é uma das piores coisas q um ser humano pode passar.
Sinto falta de ter paz, uma rotina normal, desafios, amigos, alegrias... mas ultimamente eu só luto contra o suicídio.
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2020.10.14 12:21 DonaBruxa_Deyse A Prostituta- Verídico

🕷🕸Relato recebido. Foi contado por uma mulher sobre seu contato com Setealém.🕸🕷
Eu sou Brasileira e morei em Milão/Itália entre os anos de 2003 à 2015.
Minha mãe tinha cidadania italiana, pois na sua juventude tinha sido modelo e morado na Itália. No seu tempo, chegou até a atuar em alguns filmes do de Sica. Mas minha mãe era fria, ruim, maldosa. Não dava a mínima pra mim. Ela era alcoólatra e me batia desde sempre.
Nunca conheci meu pai. Ela jamais citou seu nome. Sempre imaginei que fosse um italiano famoso e mantive a esperança de encontrá-lo. Minha avó era boa e me confortava após as surras. Contava que minha mãe nem sempre fora assim. Que era doce, meiga, sorridente. Mas que depois que voltou de vez da Itália pro Brasil, nunca mais fora a mesma. Tinha se transformado num monstro e que nem a reconhecia mais. Eu só pensava em fugir de casa. Minha avó morreu em 2002. Fiquei ainda mais sozinha.
Quando fui descoberta como modelo, não pensei duas vezes e fui embora. Minha mãe assinou os documentos e pela primeira vez na minha vida, parecia feliz por estar se livrando de mim.
Cheguei em Milão com 15 anos na esperança de seguir carreira como modelo. Sai do Brasil com um contrato assinado para desfiles de modas e realmente, desfilei por 2 anos. Porém, muitas meninas chegavam com o mesmo sonho, por ser um mercado com muita competição, os trabalhos foram diminuindo. Morava num apartamento perto de monte Napoleone e dividia com mais 5 garotas também modelos.
Comecei a trabalhar como vendedora pra uma loja de grife: Chanel. Mesmo recebendo comissão, era muito cara o estilo de vida que levava e tinha o sonho de ter sucesso na vida.
Uma das minhas colegas de apartamento, não escondia de nós que trabalhava como Ragazza imagine em danceterias e saia com clientes ricos depois dessas noitadas. Na verdade, ela era uma garota de programa e saia com a nata da sociedade milanesa.
Eu estava de saco cheio daquela vida e eu mesma pedi que ela me apresentasse para seu “chefe”. Era uma agência de “modelos”. Fiz fotos para um “book” que seria exibido para clientes que procuravam meninas com o meu perfil. O cachê para esses encontros partiam do valor de €1.500,00 por três horas de encontro. Esse valor livre em minhas mãos.
Nesse período em que trabalhei pra essa agência, sai com jogadores de futebol, políticos, artistas, sheikes árabes, milionários… Rolava sexo e muita droga. Eram homens generosíssimos e além do cachê pré combinado, ganhava gorjetas e muitos presentes. Nós não éramos obrigadas a usar, mas confesso que tornou-se um vício também. Numa sexta-feira, fomos chamadas para comparecer na agência.
Foi nos explicado que um cliente muito importante escolheria 7 garotas para um “evento”. Seria pago 17 mil euros para cada antecipadamente. As escolhidas seriam levadas por um motorista na data e horário combinado è trazidas de volta no fim do evento. Deveríamos assinar um termo de silêncio e que nada visto ou ouvido poderia ser divulgado. Meus olhos brilharam ao imaginar o valor que seria pago. Entrou então um avaliador. Ele estava ali para escolher as 7 meninas. Ele vestia terno caríssimo, sapatos que brilhavam, luvas pretas de couro, óculos escuros, mas eu pude sentir um desconforto toda vez que ele olhava para mim. Ele não falava nada. Parecia fraco, adoentado mesmo, pele amarelada. Todas as meninas vestiram biquínis, formamos uma fila e começamos a desfilar para ele. Ele apenas apontava o dedo para as que escolhia. Eu fui uma delas. Vibrei por dentro.
Houve uma segunda etapa da seleção, onde tínhamos que responder uma sequência de perguntas, que não faziam muito sentido naquele momento:
Você mora sozinha? Acredita em Deus e outros seres? Você tem medo do escuro? Transaria com um réptil? Qual período de tempo mais longo que aguentaria ficar sem beber água ou líquido? Acredita em orações ou rezas? Sabe dizer uma de cor nesse momento? Já ficou presa dentro de um quarto sozinha numa casa desconhecida? Você se considera uma pessoa capaz de guardar segredos? Se você desaparecesse, alguém sentiria sua falta?
Entre outras perguntas totalmente sem nexo....mas enfim, ricos são excêntricos, pensei!
Sai de la, com meus euros garantidos, porque no fim do processo, cada uma das 7 recebeu na conta o valor combinado. Deveríamos ir lindas e o tema da festa era “Mascarados”.
Sai da agência tão feliz. Resolvi comprar vestido, sapatos e bolsas novas. Comprei perfume e maquiagem. A festa seria na noite seguinte e meu motorista me buscaria as 19 horas em ponto.
No horário combinado, toda linda, eu aguardava no hall de entrada do prédio o tal motorista.
No termo que assinei dizia que não nos era permitido o uso/ portar nenhum aparelho fotográfico ou celular.
Então, parou um carro preto antigo, muito velho e desceu um homem tão estranho quanto o que me escolheu na seleção da agência.
Ainda assim de forma educada, sem olhar para mim, abriu e fechou a porta do carro.
Ele não trocou uma palavra comigo durante uma hora e meia até chegar ao local do evento.
Sabia que estávamos na região do lago de Como, mas nunca vira ali na Itália uma estrada tão deserta. Não cruzamos com nenhum Autogrill. Até chegarmos a um castelo antigo, que a primeira vista parecia abandonado. Estávamos no meio do nada e ali tinha um castelo! Ao adentrar no castelo, vi no meio do salão minhas 6 amigas. Estávamos lindas, ansiosas. Nos cumprimentávamos, quando ouvimos 7 rufadas de um tambor. Congelamos. Apareceu uma mulher vestida de preto e seu rosto escondia-se atrás de uma telinha do seu fascinator. Fez sinal para que a seguíssemos e fomos até outra sala ainda maior. Antes de entrarmos nessa segunda sala, a cada uma de nós foi perguntado ( pela senhora de preto): -Acredita na unidade daquele que é um só? Todas nós respondemos que sim ( nem sei dizer porque respondi que sim) e entramos no grande salão. Estava escuro e de repente, mais sete rufadas de tambor e a nossa frente, uma luz amarela acendeu. Era uma luz amarelada estranha, meio fraca, piscava e a nossa frente surgiam pessoas mais estranhas ainda. Ouvimos uma música que nos perturbava. Ficamos sem reação. Deveríamos dançar? Conversar? Sorrir?
Notei que aquelas pessoas pareciam pertencer a uma alta classe social porque por mais estranhas que fossem, havia muita pompa no modo delas vestirem-se e portarem-se. Repito que era tudo estranho e feio! Havia homens e mulheres e até crianças mascaradas naquela festa! Pessoas ricas com roupas tão surradas? Havia um cheiro muito forte no ar. Como se algo tivesse estragado ou em putrefação. A música era a mesma e eu já não entendia nada. Aos poucos, homens mascarados se aproximavam. Um deles, cambaleando chegou até mim, sorriu e NÃO TINHA DENTES. Me disse algo e seu hálito me atingiu... Inconscientemente, levei a não até a boca e nariz! Quase vomitei. Ainda assim, disfarcei e sorri. Quando ele encostou a mão gelada no meu antebraço, senti que cairia no chão.
Ele pressionou meu braço e me levou para dançar. Se é que aquilo seria dançar... davam uns pulos, tinham trejeitos e a falta de coordenação daquele povo poderia ser considerado patético!
Suportei por bem uns 10 minutos aquele bafo, mãos geladas sobre mim... Até que pedi algo para beber. Ele disse numa voz rouca mas fina, que não tínhamos permissão para beber nem comer.
Gente, que absurdo.
Porém, tinha levado meu pozinho mágico e seria obrigada a usá-lo para aguentar aquele show de horrores. Lembrando que já tinha embolsado meu dinheirinho, estava tudo Ok. Pedi para usar o banheiro e então a senhora de preto me levou. Iluminando o caminho com uma vela preta. O banheiro era a coisa mais NOJENTA que há vi na vida.
As privadas estavam todas sujas de m€£%¥. Tinha até vermes na água que fica parada no vaso. Pedaços de carne podres! Não tinha descarga. Ao tinha torneiras. Desisti de fazer xixi. Usei minha bolsa de apoio e fiz a maior carreira de minha vida. Quando voltei para o salão as pessoas tinham desaparecido. Só tinha uma mulher mascarada que me observava. Resolvi que deveria puxar assunto e caminhei na direção dela. Faltavam 5 passos e vi que uma senhora também de preto a arrastou. A mascarada gritou: - Eu sou você! ( disse meu nome!!!)Vá embora! Fuja daqui! Nós liberte desse inferno! Na confusão, sua máscara cai e pude ver seu rosto. Aquela mulher era idêntica a mim! Era eu num outro corpo. Nada pude fazer... A vi ser levada. Minhas colegas já tinham sumido e eu fiquei sozinha ali. Senti as mãos geladas no meu braço outra vez. Era aquele horrorizo novamente. O povo parecia ser muito ruim de festa. Ninguém falava, ninguém tia ou cantava, vão podíamos comer ou beber! Fui levada até um quarto . Passamos por corredores frios e escuros. Eu e ele! Meu coração batia forte... Não sabia se era a droga ou o medo. Comecei a escutar gritos ao passar por outros quartos. Chegamos ao “nosso” quarto! Era tão ridículo e feio quanto todo o resto até aquele momento.
Uma vela preta estava acesa. A única luz naquele quarto frio.
Tinha chegado a hora.. Teria que fazer jus ao dinheiro pago por aquela noite. Estava arrependida já!
Comecei a me despir, o homem, tirou a máscara e falou:
-NÃO OUSE!
Paralisei!
-Sente-se!
Ela falou comigo sem abrir a boca!
Sentei e ele me explicou:
-Eu sou seu irmão. Sou filho da mulher que gritou seu nome. Meu pai aprisionou ela aqui há anos. Ele é prefeito aqui. Você está num lugar que não existe. Aqui é o meio. Aqui é Sathlem ( algo assim)... Não sei escrever ou repetir. Prometi à ela que te libertaria. Suas amigas jamais voltarão. Já pertecem a esse lugar.
Quanto mais ele falava, mais lúcida eu ficava. Será que esse pozinho era tão forte assim? Só pensava nisso?!? Como eu poderia estar pensando nisso?Meu Deus, estou tendo uma overdose! Não é possível!
E o estranho concluiu meu PENSAMENTO: - Não, você não está alucinando ou alterada. Você foi despertada pelo UM SÓ! Não fale mais nada para não desperta-lo!
Comecei a chorar! Queria devolver o dinheiro! Queria ir embora.
Comecei a ouvir passos... Como se um gigante se aproximasse. O estranho fez sinal para eu calar a boca. Não era capaz de controlar meu choro. Até o estranho pressionar com o dedo um ponto na minha garganta! Doeu muito. Ouvi ele pedindo desculpas por fazer aquilo e perdi os sentidos.
Acordei na minha cama. Estava com o vestido e sapatos da festa.
Tinha um bilhete escrito na comoda do quarto escrito assim:
Senti tanto medo. Jurei que nunca mais beberia ou me drogaria na vida e pararia com aquele “trabalho” Realmente, nunca mais fiz nada daquilo.
Meu telefone tocou e era o agente. Precisava ir até a agência.
Fodeu, pensei! Fodeu, fodeu, fodeu!
Mas fui... Porque sabia que se vão fosse, eles viriam ate mim. Meio que você começa a fazer parte da máfia! Você tem que prestar contas!
Fui com o coração na mão! Bom, pensava a, gastei o dinheiro somente com o vestido, bolsa, sapatos e maquiagens. Não tinha gastado tanto e teria como cobrir os gastos e devolver os 17 mil.
Quando cheguei lá, o agente me tratou tão bem... Disse que eu tinha sido venerada e exaltada. Que tinha sido profissional e me destacado . Gostaram tanto de mim que pediram meus dados bancários porque me fariam um agrado!
Entendi que o agente tinha sido recompensado. Perguntei sobre minhas colegas e ele mudei de assunto: -Que colegas? De quem você está falando?
(NUNCA MAIS AS VI!) Não eram amigas. Nas as viagem festas e tal... Jamais as vi novamente.
Fui até um ATM e quando solicitei meu saldo, quase caí de costas! Havia sido depositado na minha conta alguns muitosssss 00000000000 de euros.
Com essa grana, mudei minha vidaComprei um apartamento e carro. Estudei. Conheci um grande amor. Tenho filhos. Moramos na Bélgica. Sou estilista de moda e tenho minha grife!
Tenho sonhos recorrentes com aquele lugar onde estive. Meu marido sempre comenta ter a sensação de estar sendo seguido ou observado. Diz ver carros estranhos parados na rua de casa. Comenta sobre carros estranhos! Digo que é apenas impressão dele!
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2020.10.13 06:42 Apprehensive-Ad-207 Consegui raciocinar que eu perdi para mim mesmo

Durante meus 16~20 anos tive um período bizarro de traumas e problemas absurdos (morte, doenças, abuso psicológico, desestruturação completa familiar, solidão). Fiz tudo de errado na vida. Quando adolescente, honestamente, eu não era burro e até era mais maduro pra minha idade, culturalmente e conscientemente. Porém de nada serviu. A depressão que tive e me culpo até hoje de não ter sido mais forte me destruiu. O compacto do jovem moderno de fobia social, ansiedade, baixa auto-estima e problemas familiares absurdistas pesou em mim de um modo que me deixou completamente biruta e retardado. Desconfio que eu sofra de transtorno bipolar quando analiso friamente certos eventos da minha vida.
Cheguei a trabalhar durante quase 2 anos -- meu primeiro dia de trabalho marcava minha vida volta a sociedade após 4 anos de reclusão, fobia social e depressão profunda -- não fui efetivado como aprendiz mesmo trabalhando e me dedicando muito, o que me desanimou. Nunca fiz faculdade por falta de dinheiro tanto pra pagar como me mudar pra outro lugar e até hoje me culpo por isso também. Vejo que todas as pessoas parece que conseguem algo e etc e eu estou na mesma 4 anos depois.
Nãou sou vitimista e não fico culpando as coisas e espero que algo aconteça, na verdade, sou bem ativo e dedicado, porém fico pensando muito nas coisas que me fazem mal e sei que não vou deixar de pensar em tudo que errei, tudo que perdi, todas as pessoas que perdi. Isso me deixa numa enorme inércia física e euforia mental. Como uma fase impossível de passar. Meus dias são sempre os mesmos. Mortos.
Penso em todas às vezes que eu tinha surtos e em como afastei as pessoas; já fazem quase dois anos e eu ainda penso todos os dias em como queria dizer a alguém em especial o que se passava comigo e porque eu agia daquela forma; como eu queria que tivesse sido diferente.
Queria ter perdido menos tempo com pessoas irreais, imersão virtual abrupta que me fez mal e me trouxe muita toxicidade; pessoas que conheci e me fizeram muito mal. Minha vida hoje ainda é difícil psicologicamente por efeitos do passado. Ainda tenho algumas dificuldades, embora não mais fobia social. Sinto que melhorei e aprendi com o passado, mas o efeito colateral de tudo me pesa brutalmente quanto tenho que enfrentar a realidade.
Hoje tenho 21 anos e passei a pandemia vendo vídeos de gringos viajando por países como Vietnã e Rússia. Meu sonho na verdade é ter um motor home; tentar focar nos estudos e passar na USP para poder ira pra São Paulo e conhecer novas pessoas. Deixar meu passado pra trás. Mas fico pensando que ainda vou ter mais um ano após esse e, se conseguir realizar o primeiro passo, já terei 23 anos. Estarei mais velho. Embora me chamem de garoto e achem que eu não tenha 18 anos, me sinto velho. Fico pensando no garoto que eu era: completamente iludido. Sei que não tenho culpa das coisas ruins que aconteceram comigo e sei que cada um tem seus problemas. Eu sempre estive sozinho, sempre. Nunca tive um familiar ou amigo para me auxiliar e acho que isso foi fundamental e a única coisa que posso culpar. Hoje, não tenho mais amigos além de alguns poucos que ainda converso virtualmente. Penso que minha juventude foi construida por arrependimentos e traumas. Será que há como ainda mudar?
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2020.10.10 06:01 umnickqualquer Dezembro de 97

Mesmo já tendo corrido 20 anos, os detalhes continuam na minha mente: dezembro já estava quase na metade e aquela era a semana de recuperações finais do ano letivo. Eu não ia querer ser reprovado bem quando já estava terminando o 3o ano do 2o grau – era assim que a gente chamava na época – e só precisava daquele diploma pra poder seguir pra faculdade. É claro, isso se eu tivesse sido aprovado. Os resultados dos vestibulares só saiam em janeiro e entre a tensão de terminar a escola e a de finalmente começar História numa federal, eu ia administrando os meus 17 anos.
Pensando agora, enxergo que eu era um moleque bastante comum, mas não era assim que eu me vi na época. Meus CDs dos Racionais, biografia do Malcolm X e camisa dos Panteras Negras (que juntei dinheiro por meses pra comprar) se juntavam ao pequeno black que eu vinha cultivando pra criar algo que naquele tempo era uma mistura confusa de busca por identidade racial e afirmação juvenil. Tenta entender que eu estava entre a descoberta de Spike Lee e a de Frantz Fanon, sendo que o desbravamento de mim mesmo também não estava muito avançado. Esse ainda iria levar um tempo.
Acabada a recuperação, eu esperava na saída do corredor pro pátio olhando pra fora. Enquanto estava em sala de aula, a chuva que tinha ameaçado cair a tarde inteira começara a desabar com força e não parecia estar perto de acabar. De onde estava eu podia ver o temporal alagando tudo entre o pátio e a quadra de esportes perto do portão, enquanto alguns alunos tentavam fazer às pressas o caminho até a rua. Pode ser que eu não quisesse arriscar molhar os cadernos na mochila, ou talvez não quisesse chegar logo em casa pra ser bombardeado de perguntas sobre a prova, mas a questão é que resolvi esperar e enquanto aguardava recostado à parede, notei que o Wesley – que também estava na recuperação – havia chegado e feito o mesmo.
Era alguém interessante, o Wesley. Sua posição na classe me parece ambígua porque se hoje eu só consigo dividir a minha 3a série entre Comportados e Turma do Fundão, ele não era nenhum dos dois. Sem ser necessariamente calado, rebelde ou participativo, conseguiu atravessar aquele ano letivo até o fim, apesar do seu tamanho e aparência indicarem que já tinha sido reprovado uma ou duas vezes. Se ao longo daqueles meses a gente trocou três palavras eu não lembro – enquanto os meus chegados eram quase todos maconheiros fãs de Planet Hemp e headbangers fãs de Sepultura, os dele, por mais que tente me lembrar, eu não tenho certeza. Tanto podiam ser a turma inteira como ninguém, na verdade.
Aquela vigília pelo fim da chuva deve ter me entediado ou talvez eu tivesse me sentido constrangido de ficar apenas em silêncio a poucos metros dele, mas a questão é que, ainda olhando pra porta, falei:
– Parece que a gente vai ficar aqui até amanhã – também sem me encarar, ele disse:
– Por mim não tem problema.
Como não respondi, acho que ficamos em silêncio por mais ou menos um minuto, os únicos sons sendo o temporal caindo e os carros passando pela rua em frente. Sem nenhum aviso, as luzes do corredor e das salas vizinhas se apagaram e uma mistura de murmúrios e gracejos percorreu o prédio da escola enquanto todos davam pela falta de energia elétrica. Agora iluminado apenas pelo cinza embaçado daquela tarde de chuva, o próprio tempo parecia em espera.
– Você já passou na faculdade? – perguntou o Wesley.
– Não sei. Acho que sim, mas tem que esperar sair o resultado ano que vem – respondi, meio desconfortável por ele não ter continuado em silêncio – eu não tinha certeza suficiente pra dizer que achava que sim, mas aquele era sempre o jeito mais rápido de conduzir as conversas sobre vestibular.
- Tomara que o mundo não acabe antes de você se formar, igual todo mundo acha, né? – retrucou ele, com um tom mais leve do que o anterior – e você pode ir pra faculdade com esse cabelo? Eu costumava ser bem sensível a qualquer crítica em relação ao meu black. Tanto porque a maioria delas era escrota quanto porque não era fácil tratar dele e aquela era uma das poucas coisas de que gostava na minha aparência. “Vocês ainda vão ver presidentes com um maior que o meu”, costumava responder. Por algum motivo, no entanto, talvez o modo como a pergunta soou sem nenhuma maldade ou intenção de ofender, eu não me importei e apenas respondi:
- Claro que sim, lá não é o exercito – observando ele fazer um leve sinal de assentimento e sem saber como continuar aquela conversa, perguntei – o que você vai fazer agora?
- Ir pra casa, tirar um descanso e trabalhar de noite, por quê? – respondeu ele, parecendo surpreso que eu perguntasse.
- Não, tô falando agora depois de se formar. O que você vai fazer depois do 2o grau? – corrigi, por algum motivo desconfortável pela interpretação da minha pergunta.
- Ah – falou ele, se demorando como se tivesse que se lembrar de algo bem distante – eu quero arranjar alguma coisa com o diploma. Tentei o exercito ano passado, mas não entrei, fui dispensado. Agora com a escola completa deve dar pra conseguir alguma coisa boa e talvez eu faça curso técnico – completou. “Você também não sabe direito”, eu pensei. Hoje, penso que estranho seria se algum de nós dois naquela época tivéssemos certeza de alguma coisa.
– E por que você tinha certeza que eu tinha sido aprovado na faculdade? – perguntei, incerto sobre como prosseguir a conversa.
– E como não? Você é todo inteligente, todo engajado – respondeu ele, com um sorriso que eu não sabia se era irônico ou parceiro – peão de obra que você não ia virar. Me senti um pouco desconcertado, tanto por não imaginar que esse garoto com quem eu nunca tinha falado antes tinha uma imagem a meu respeito quanto por não estar nem de longe tão certo sobre o meu próprio futuro quanto ele. Pensei em alguma consideração elogiosa pra fazer, mas me toquei de que eu não o conhecia. Na verdade, aquela era a primeira vez em que eu realmente reparava nele. O corpo alto e magro que vestia o uniforme, a pele castanha quase no meu tom e o cabelo aparado rente ao couro cabeludo podiam pertencer a metade dos alunos daquela e de qualquer outra escola estadual do país. Esse foi o primeiro momento em que quis saber alguma coisa sobre o Wesley.
O que respondi a ele eu não me lembro, mas sei que nos sentamos no chão do corredor enquanto a chuva continuava caindo persistente lá fora e os poucos alunos que restavam no prédio saiam pela porta à nossa frente. Nós mais do que falamos, conversamos, e apesar dos detalhes terem sumido da memória, ficaram os temas. A escola que acabava; a família que pressionava; o que estava por vir, fosse o que fosse. Especulamos sobre o que a gente sabia e não sabia e naquele momento só não falei mais porque ainda havia coisas que eu não confessava nem a mim mesmo. Com sua voz um pouco mais juvenil do que seu tamanho sugeria, os pelos no queixo de alguém que se esquece por uns dias de aparar e uns olhos estreitos e reluzentes que devolviam ao mundo um reflexo mais brilhante do que a imagem que receberam – todos os pontos em que eu só reparava naquele momento – o Wesley parecia real, único. Não sei quanto tempo se passou, mas naquela hora só existiam o corredor escuro e aquele garoto pouco mais velho que eu – as preocupações não sei aonde tinham ido, talvez lá fora junto com a chuva.
Ainda estávamos conversando quando verifiquei a mochila pra ter certeza de que não tinha deixado nada em sala e me deparei com a sombrinha velha da minha mãe, que eu devia ter guardado dias atrás e esquecido ali. Surpreso por ter encontrado, falei:
– Olha só e eu esperando aqui – disse em tom casual, mas a verdade era que eu preferia não ter achado e pra esconder essa contrariedade, dele e de mim mesmo, me levantei, ainda que sem vontade de ir embora. Talvez fosse por não ter coragem de encarar o tempo forte bem à minha frente sozinho que ofereci:
– Quer carona? – ao que ele respondeu pegando a mochila e se levantando também.
Saímos para a chuva fria e, talvez por dividirmos uma sombrinha minúscula, estávamos com os braços nos ombros um do outro enquanto corríamos pelo pátio vazio – quem fez o gesto primeiro, não sei dizer. O temporal estava mais forte do que parecia do lado de dentro – Wesley e eu ficamos encharcados, as vistas turvas e nossas camisas ensopadas, grudando tanto na pele quanto uma na outra, enquanto corríamos ombro a ombro. Quando a tempestade finalmente venceu e rompeu as ligações da sombrinha, ficamos perdidos de vez, com a água e o vento vindo como uma surra por todos os lados. Vendo que era impossível tentar chegar ao portão daquele modo, corremos para a quadra de esportes, que era coberta e ficava entre o prédio principal, de onde tínhamos vindo, e saída da frente.
Foi um alivio voltar a ter um teto sobre a cabeça. Assim como o prédio principal, a quadra estava às escuras e sem mais ninguém além de nós. As roupas molhadas pareciam pesar 01 kg e enquanto eu enxugava o rosto com a camisa do uniforme – sem perceber a idiotice de tentar me secar com um pano molhado – Wesley passou os dedos de leve pela ponta do meu cabelo, abaixado pela chuva, e disse, divertido:
– Então é assim que fica quando molha.
Sei que respondi alguma coisa, não lembro o quê, e nós dois rimos. Ele estava tão encharcado quanto eu e apesar do comentário casual, percebi que tremia de frio e tinha a respiração pesada, com o peito subindo e descendo da corrida. Notei que eu também estava assim. Ficamos mais algum tempo em silêncio, enquanto a chuva não dava sinais de passar.
– É, acho que não vai acabar tão cedo. Valeu pela carona, eu vou daqui – disse o Wesley, com gotas d’água ainda escorrendo pelo rosto.
– Falou, boa sorte – respondi. Pensei em dizer “foi bom falar com você, que pena que a gente não se conheceu antes”, mas calei. Eu não sei que sinal o meu corpo transmitia naquele momento, pensei nisso por anos até decidir que não era importante. Quando o Wesley se aproximou de mim antes de sair da quadra, pensei por dois segundos que seria para um abraço de despedida, desejos de sorte na vida e tal, mas quando chegou perto do meu corpo, foram a minha boca que ele procurou.
A partir daí só posso explicar o que houve por sensações. O frio dos lábios dele; o calor bem-vindo do seu hálito, e junto com um sabor que parecia ser pasta de dente, o gosto de chuva como se eu estivesse beijando o próprio temporal. É estranho pensar o quanto tudo foi inesperado e ainda assim sem erros – perfeito. Não teve espaço pra estranhamento ou resistência da minha parte, só uma reciprocidade fortuita que parecia agir por conta própria. O ato era a última coisa que eu podia esperar naquela hora e ainda hoje um dos momentos mais inusitados da minha vida, mas ainda assim naquele minuto foi tão natural, tão correto para aquele eu adolescente, quanto o tempo forte que desaba numa tarde de dezembro.
Quando nossas bocas se afastaram, o Wesley foi até a borda da quadra, olhou pra fora por um segundo e então correu, desaparecendo na chuva. Só o que pensei naquele momento foi que devia ter dito tchau – talvez porque a gente não diga adeus quando tem 17 anos. Continuei onde estava e o fato de agora estar sozinho me pareceu o mais estranho do mundo. Eu não sei quanto tempo fiquei esperando estiar, mas quando isso aconteceu, saí rápido em direção ao portão como ele tinha feito. Mesmo caindo com menos intensidade, o temporal então me parecia pior, mais frio e impiedoso. Tudo o mais naquele fim de tarde hoje me parecem só flashes: o ponto lotado, o ônibus pra casa, chegar no quarto e por a mochila no chão. Não vi sinal do Wesley enquanto percorria aquele caminho e é óbvio que nunca soube dele desde então. Do mesmo jeito que não sabia antes daquele dia.
Talvez não fosse uma lembrança tão viva ainda hoje se não fossem os tempos de chuva desses 20 anos pra cá. Mesmo que eu esteja resguardado em casa vendo o temporal pela janela, sinto o sabor gelado nos lábios e a água escorrendo pelo queixo como se estivesse do lado de fora, desprotegido, feito um menino que se põe debaixo da tempestade com a boca aberta brincando de provar o gosto do céu – de juventude, de conversar sem pressa num corredor escuro enquanto o mundo espera lá fora.
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2020.10.09 18:29 sujeitoqualquer Vida assexual forçada

Relato de meus problemas de ordem mental e sexual desde a adolescência.
Passei minha adolescência 12-17 anos envolto por ansiedade social ou fobia social (não diagnosticada) e possivelmente estados depressivos (não clínicos, mas reação depressiva normal por não conseguir superar a fobia social). Aos 17 anos de idade tive um evento de forma brusca de depressão/despersonalização que durou mais ou menos 2 anos da minha vida, dos 17 aos 20. Me sentia alheio, não sentia nada, anedonia e apatia generalizada; incapacidade de sentir qualquer prazer ou interesse por qualquer atividade (antes ouvia música e sentia de forma intensa tudo que ouvia, mas depois disso foi como ouvir qualquer barulho, não fazia diferença). Tive inclusive impotência sexual.
Não foi apenas "não sentir", foi perder a capacidade de ação e decisão. Quando o emocional não aponta uma direção comportamental, tudo fica estagnado. Então, antes que alguém possa julgar que isso é "bom", a minha sensação era de estar anulado na própria vida. Preferiria sem dúvidas ter morrido a ter vivido todas essas coisas, principalmente naquela idade, fim da adolescência e início da vida adulta quando tantas coisas novas e boas poderiam acontecer e fazer eu melhorar da minha fobia/ansiedade social (Tinha começado a fazer um curso universitário, mas que acabei abandonando). Mas infelizmente tudo passou a ser ao longo desse período (17-20), senão até hoje, inconcebível. Acredito que possa ter algo a ver com a fobia social (que era um auto-diagnóstico), mas realmente não sei.
Dos 20-27 esse estado de despersonalização amenizou. Mas minha qualidade de vida nunca melhorou. Nunca fui capaz de desenvolver qualquer amizade, menos ainda qualquer tipo de relacionamento afetivo, menos ainda relaciomento sexual. Gostaria muito de ter vivido minha juventude mas era como se meu próprio corpo me sabotasse para que eu não pudesse viver.
Tentei viver com isso até hoje, ainda que com uma qualidade de vida a nível de sobrevivência, já que não tinha meios nem dinheiro para recorrer a médico até os 24 anos. Remédios antidepressivos foram por mim descartados no momento em que soube que um dos efeitos colaterais que eles causam é a apatia (problema em que luto em superar), impotência sexual (problema em que luto em superar), raciocínio lento e resposta sensorial a estímulos lenta (problema que luto em superar). Mas tentei fazer ainda assim, pela prescrição médica INDISCRIMINADA de medicamentos psiquiátricos, tentei usar 3 tipos de remédios por curtos períodos de tempo sem sentir nenhuma mudança positiva, apenas efeitos colaterais.
Me questiono se remédios psiquiátricos não fazem eu sentir minha libido alta e minha vontade de viver melhorada, então qual é a utilidade para mim? Acredito que pessoas com ansiedade generalizada e depressão severa precisem desses medicamentos. O que não é o meu caso. Não tenho crises, nem surtos. Tenho emprego e trabalho na medida do meu possível e na medida que a ansiedade social que ainda tenho me permite; me sinto muito melhor quanto a sensação de despersonalização, não tenho mais os sintomas que tive aos 17-18.
Sexualmente, aos 27 anos nunca tive uma relação sexual que pudesse sentir satisfação. Aos 24 anos, senti uma melhora no meu humor e tentei me relacionar com uma pessoa por durante um mês, tive várias oportunidades de praticar sexo, mas nunca consegui de forma satisfatória. Pude me testar quanto a isso. Tenho ereções, fracas, mas tenho insensibilidade no pênis e não consegui sentir prazer nenhum na penetração porque não conseguia ejacular. Com masturbação consigo ter ejaculação e algum prazer nas raras vezes em que me masturbo. Fui usuário de pornografia e masturbação da adolescência até agora, mas nunca fui compulsivo. Mas acredito que isso possa ter acentuado essa apatia pelo sexo real. Ainda que me masturbava poucas vezes entre os 17-27, nunca diariamente, e certamente menos que 4 vezes por mês quando muito. Parei de usar pornografia e masturbação por até 6 meses ou mais, várias vezes ao longo desses anos, e no momento não me toco já faz quase um mês e pretendo não me tocar o quanto for possível. Todas vezes em que me masturbei foi como uma forma de escape ao tédio, não sinto interesse real pelo sexo, mesmo com pornografia, sexo interpessoal para mim parece ser algo impossível agora.
Não sou assexual. A ideação e o desejo sexual forte que senti durante minha adolescência me fazem acreditar que não. Eu sinto alguma atração sexual, ainda que fraca, mas não da forma como sentia. Não sinto mais excitação no penis quando penso em sexo, nem sinto algo diferente no pênis quando vejo uma pessoa que desejo (ou desejaria) sexualmente, mas sinto em certa medida alguma atração ainda.
Poderia por outro lado trabalhar para eliminar totalmente meu interesse sexual (como os celibatários fazem), eliminar a possibilidade na minha vida de desenvolver qualquer tipo de relação íntima (sexual, amorosa, namoro, relação estável) com alguém e focar apenas em desenvolver amizades. Aceitar a solidão de viver sozinho e poder ter algum tipo de afeição amistoso apenas. Sem contato físico, sem experimentar abraços, beijos, sexo, e qualquer coisa que venha disso.
Ontem fui em um urologista, tentei relatar de forma breve meu caso aqui acima descrito, e a resposta que tive foi muito do que já vi pela internet, que poderia ser insegurança. Me foi receitado um remédio para impotência sexual (que acredito não resolver já que atua só no pênis, dando ereções artificiais, e não no problema em sentir libido, tesão.). E outro remédio antidepressivo, mesmo eu questionando se o próprio não acentuaria mais ainda os problemas que tenho.
Não sei o que faço. Passei a noite pensando em abraçar a vida celibatária forçada. Sei que sexo não é tudo, mas acredito que afeta muito a qualidade de vida, e é por meio de sexo que conseguiria desenvolver relacionamento amoroso, afetivo e ter uma relação íntima com alguém. Encontrar uma pessoa que aceite uma relação amoroso sem sexo é quase impossível, e ainda que poderia encontrar uma pessoa que dispense sexo mas que queira ter uma relação romântica, eu acredito que não conseguiria me sentir satisfeito em ter nunca relação sexual, até porque, como eu disse, não sou assexual, apenas perdi a capacidade de experimentar sexo.
Agradeço a atenção de quem leu até aqui.
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2020.10.09 17:19 sujeitoqualquer Vida celibatária forçada

Relato de meus problemas de ordem mental e sexual desde a adolescência. Texto longo.
Passei minha adolescência 12-17 anos envolto por ansiedade social ou fobia social (não diagnosticada) e possivelmente estados depressivos (não clínicos, mas reação depressiva normal por não conseguir superar a fobia social). Aos 17 anos de idade tive um evento de forma brusca de depressão/despersonalização que durou mais ou menos 2 anos da minha vida, dos 17 aos 20. Me sentia alheio, não sentia nada, anedonia e apatia generalizada; incapacidade de sentir qualquer prazer ou interesse por qualquer atividade (antes ouvia música e sentia de forma intensa tudo que ouvia, mas depois disso foi como ouvir qualquer barulho, não fazia diferença). Tive inclusive impotência sexual.
Não foi apenas "não sentir", foi perder a capacidade de ação e decisão. Quando o emocional não aponta uma direção comportamental, tudo fica estagnado. Então, antes que alguém possa julgar que isso é "bom", a minha sensação era de estar anulado na própria vida. Preferiria sem dúvidas ter morrido a ter vivido todas essas coisas, principalmente naquela idade, fim da adolescência e início da vida adulta quando tantas coisas novas e boas poderiam acontecer e fazer eu melhorar da minha fobia/ansiedade social (Tinha começado a fazer um curso universitário, mas que acabei abandonando). Mas infelizmente tudo passou a ser ao longo desse período (17-20), senão até hoje, inconcebível. Acredito que possa ter algo a ver com a fobia social (que era um auto-diagnóstico), mas realmente não sei.
Dos 20-27 esse estado de despersonalização amenizou. Mas minha qualidade de vida nunca melhorou. Nunca fui capaz de desenvolver qualquer amizade, menos ainda qualquer tipo de relacionamento afetivo, menos ainda relaciomento sexual. Gostaria muito de ter vivido minha juventude mas era como se meu próprio corpo me sabotasse para que eu não pudesse viver.
Tentei viver com isso até hoje, ainda que com uma qualidade de vida a nível de sobrevivência, já que não tinha meios nem dinheiro para recorrer a médico até os 24 anos. Remédios antidepressivos foram por mim descartados no momento em que soube que um dos efeitos colaterais que eles causam é a apatia (problema em que luto em superar), impotência sexual (problema em que luto em superar), raciocínio lento e resposta sensorial a estímulos lenta (problema que luto em superar). Mas tentei fazer ainda assim, pela prescrição médica INDISCRIMINADA de medicamentos psiquiátricos, tentei usar 3 tipos de remédios por curtos períodos de tempo sem sentir nenhuma mudança positiva, apenas efeitos colaterais.
Me questiono se remédios psiquiátricos não fazem eu sentir minha libido alta e minha vontade de viver melhorada, então qual é a utilidade para mim? Acredito que pessoas com ansiedade generalizada e depressão severa precisem desses medicamentos. O que não é o meu caso. Não tenho crises, nem surtos. Tenho emprego e trabalho na medida do meu possível e na medida que a ansiedade social que ainda tenho me permite; me sinto muito melhor quanto a sensação de despersonalização, não tenho mais os sintomas que tive aos 17-18.
Sexualmente, aos 27 anos nunca tive uma relação sexual que pudesse sentir satisfação. Aos 24 anos, senti uma melhora no meu humor e tentei me relacionar com uma pessoa por durante um mês, tive várias oportunidades de praticar sexo, mas nunca consegui de forma satisfatória. Pude me testar quanto a isso. Tenho ereções, fracas, mas tenho insensibilidade no pênis e não consegui sentir prazer nenhum na penetração porque não conseguia ejacular. Com masturbação consigo ter ejaculação e algum prazer nas raras vezes em que me masturbo. Fui usuário de pornografia e masturbação da adolescência até agora, mas nunca fui compulsivo. Mas acredito que isso possa ter acentuado essa apatia pelo sexo real. Ainda que me masturbava poucas vezes entre os 17-27, nunca diariamente, e certamente menos que 4 vezes por mês quando muito. Parei de usar pornografia e masturbação por até 6 meses ou mais, várias vezes ao longo desses anos, e no momento não me toco já faz quase um mês e pretendo não me tocar o quanto for possível. Todas vezes em que me masturbei foi como uma forma de escape ao tédio, não sinto interesse real pelo sexo, mesmo com pornografia, sexo interpessoal para mim parece ser algo impossível agora.
Não sou assexual. A ideação e o desejo sexual forte que senti durante minha adolescência me fazem acreditar que não. Eu sinto alguma atração sexual, ainda que fraca, mas não da forma como sentia. Não sinto mais excitação no penis quando penso em sexo, nem sinto algo diferente no pênis quando vejo uma pessoa que desejo (ou desejaria) sexualmente, mas sinto em certa medida alguma atração ainda.
Poderia por outro lado trabalhar para eliminar totalmente meu interesse sexual (como os celibatários fazem), eliminar a possibilidade na minha vida de desenvolver qualquer tipo de relação íntima (sexual, amorosa, namoro, relação estável) com alguém e focar apenas em desenvolver amizades. Aceitar a solidão de viver sozinho e poder ter algum tipo de afeição amistoso apenas. Sem contato físico, sem experimentar abraços, beijos, sexo, e qualquer coisa que venha disso.
Ontem fui em um urologista, tentei relatar de forma breve meu caso aqui acima descrito, e a resposta que tive foi muito do que já vi pela internet, que poderia ser insegurança. Me foi receitado um remédio para impotência sexual (que acredito não resolver já que atua só no pênis, dando ereções artificiais, e não no problema em sentir libido, tesão.). E outro remédio antidepressivo, mesmo eu questionando se o próprio não acentuaria mais ainda os problemas que tenho.
Não sei o que faço. Passei a noite pensando em abraçar a vida celibatária forçada. Sei que sexo não é tudo, mas acredito que afeta muito a qualidade de vida, e é por meio de sexo que conseguiria desenvolver relacionamento amoroso, afetivo e ter uma relação íntima com alguém. Encontrar uma pessoa que aceite uma relação amoroso sem sexo é quase impossível, e ainda que poderia encontrar uma pessoa que dispense sexo mas que queira ter uma relação romântica, eu acredito que não conseguiria me sentir satisfeito em ter nunca relação sexual, até porque, como eu disse, não sou assexual, apenas perdi a capacidade de experimentar sexo.
Agradeço a atenção de quem leu até aqui.
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2020.09.19 14:53 TezCalipoca A ignorância é uma bênção

A ignorância é uma bênção. Não sei se alguém já cunhou essa frase antes, mas cada vez mais consigo perceber o quão verossímil ela é.
Não me refiro a ignorância bruta, à forma humana agressiva e violenta, de tratar das coisas sem conhecimento. A ignorância de não saber o que aconteceu com o computador e tentar consertar através de golpes na máquina. A ignorância de um homem que é incapaz de compreender a liberdade e a independência de uma mulher e com isso, parte para agressões, como maneira de justificar a posição superior que supõe estar.
Falo de uma ignorância intelectual. De uma falta de interesse sobre o mundo. Até mesmo de uma falta de ambição. Uma despreocupação com o futuro, com o que se passa em Brasília, com qualquer outra coisa que não seja o agora. Grande parte da população brasileira (quiçá latino-americana) se encontra nesse âmbito da ignorância.
Essas pessoas não possuem grandes metas de vida. Normalmente, no caso masculino, a grande preocupação, o grande sonho, é possuir um carro. Não precisa ser um carro completo, não tem problema pagar 72 prestações de R$500,00. O importante é ter um carro para chamar de seu, que possa usar nos fins de semana, ou quando quiser “dar uma banda”, como se diz por esses rincões gauchescos.
Até mesmo o carro pode ser algo simples. Afinal, o Gol caixa de 1992 é estiloso. Esses homens, que denomino aqui como ignorantes (e veja bem, não me cancele antes de entender o significado e a razão pela qual uso dessa nomenclatura!) almejam, simplesmente, um carro. Trabalham suas oito horas por dia em fábricas, lojas, mecânicas, eventualmente escritórios, com seu salário em torno de R$1.700,00 por mês. Não precisam de mais do que isso. É o suficiente para pagar as prestações do financiamento, os boletos de água, luz, internet e da TV a cabo que não usa. Até consegue fazer sobrar um dinheiro para sair beber uma cerveja com os amigos no fim de semana, ou ir em uma “baladinha pegá as mina”. Ou para tornar esse texto mais próximo da minha realidade geográfica, “pra pegá muié”.
Qual é a meta desses homens, após conseguir seu carro? Investir em uma educação, para poder ter um emprego melhor e que lhe seja mais aprazível? Preparar-se para viajar para lugares diferentes do mundo? Abrir um empreendimento? Não. O homem ignorante não tem ambição, não tem a capacidade de planejar. Para ele, alcançado o seu sonho de ter um carro com 24 anos de idade, é hora de seguir com a vida.
Muitos passam mais alguns anos usando o salário para fazer investimentos. Mas não em ações, negócios ou educação. Investimento no carro. Rodas, som, estofamento de couro, qualquer coisa é suficiente para que o homem ignorante queira usar seu suado dinheiro para fazer seu Kadett 1988 ficar mais atraente, mais potente, mais bonito. Outros homens, porém, não sentem tanta atração assim pelo seu carro. Que fazem então com seu salário? Usam com sua namorada.
A namorada. A mulher. Todo homem ignorante quer ter uma companheira. Não significa que ele seja fiel a ela, ou que ele a ame de verdade. O mesmo talvez seja verdade para com a mulher. O homem ignorante quer uma mulher porque para ele, somente assim ele poderá ter uma família. Mas que tipo de mulher iria se interessar por esse tipo de homem?
A resposta é muito simples. A mulher ignorante. Assim como sua contraparte masculina, ela também não tem ambição, não tem metas, não tem planos. Findo o Ensino Médio, com sua gloriosa festa de formatura, momento mais alto de sua vida, onde está embebida do carinho (nem sempre verdadeiro) de suas amigas. Onde recebe elogios pelo simples fato de respirar. Onde sente que alcançou uma conquista deveras relevante – e que talvez realmente o seja, se considerarmos o contexto da mulher ignorante.
Após esse apogeu da sua juventude, a mulher ignorante segue o mesmo caminho do homem ignorante. Algum trabalho simples, com pouco esforço intelectual, em lojas, supermercados, eventualmente como secretárias ou recepcionistas. Ninguém quer lhe oferecer uma função melhor. Ela não quer uma função melhor.
Qual o sonho dessa mulher ignorante? Ao contrário do homem, não é algo que se materializa em um carro. É algo maior: uma família. Em cidades interioranas, a forte presença de ideários machistas ainda faz as mulheres sonharem em ter um casal de filhos e um marido, em um casamento onde dificilmente haverá amor. Mais justo dizer que há uma obrigação nesse casório. Não querem ter suas vidas, seus sonhos, seus projetos. Querem apenas um lar para cuidar.
É nesse momento que os dois ignorantes se encontram e assim, dão início a sua longeva vida como casal. Talvez se conheçam em uma festa genérica. Talvez se conheçam nas redes sociais, com uma conversa genérica. Talvez sejam apresentados por amigos em comum, também genéricos. Independente de tudo, os ignorantes se encontram e começam sua vida ignorante de maneira conjunta.
Aos poucos os filhos nascem. Normalmente os ignorantes querem um casal de crianças, para que o guri seja educado pelo pai e a guria pela mãe. Assim como seus progenitores, esses pequenos também serão ignorantes, também herdarão essa falta de ambição, de visão, de planejamento.
Mas não vamos nos adiantar. Antes, vamos analisar o casal ignorante. Muitas vezes as amarras machistas se mantem nesses casais, onde a mulher assume o papel de dona-de-casa, como isso função natural feminina. Mas existem casos – muito mais movidos pela necessidade material – onde ambos trabalham. De qualquer forma, a rotina da família é sempre a mesma. As crianças estudam, pai e mãe trabalham. Às vezes há a visita de familiares, primos e tios igualmente ignorantes. As férias, no máximo, consistem em viajar para uma praia. E durante todo o tempo, a família ignorante vai para a mesma praia e faz a mesma coisa. Sentam-se na areia olhando para o nada, bebendo cerveja e mexendo no celular. As crianças, como lhes é próprio da infância, aproveitam para brincar no mar. A imaginação faz com que qualquer grão de areia possa ser único e divertido à sua maneira.
Mas as crianças viram adolescentes. Adolescentes ignorantes. Não há um interesse em estudar, a maior preocupação são as fofocas dos amigos (e dos inimigos) e dar uns beijos, eventualmente. Pai e mãe não fazem essa cobrança dos estudos. Afinal, única coisa que importa é passar de ano. Para que exatamente, não se sabe, mas é importante.
Durante toda essa existência familiar, esse homem, essa mulher e essas crianças ignorantes não almejam nada que esteja fora do alcance. Talvez não saibam da possibilidade disso. São facilmente maleáveis pelos fluxos constantes da sociedade, em suas vertentes sociais e políticas. O pai não entende nada de economia, mas sempre dá sua opinião infundamentada sobre alguma coisa. Normalmente leva em conta o que alguém lhe disse em uma mesa de bar. A mãe, se quer se preocupa com esses assuntos. À mulher ignorante lhe interessa apenas a fofoca, a intriga, os assuntos mundanos próximos da sua realidade. O arroz está caro? Que pena, mas sabia que a tia da Neusa, que era casada com o Robson, agora se casou pela terceira vez, dessa vez com um paranaense?
E os adolescentes ignorantes? São esponjas de ondas políticas e sociais, nem sempre com boas intenções. Quantos por aí sequer abriram um livro na vida? Não possuem nenhum senso de cultura a não ser aquilo que a massa consome. Tom Jobim? Legião Urbana? Djavan? O que lhes interessa é o MC alguma coisa, a dupla sertaneja de nomes genéricos, no máximo alguma cantora pop de renome internacional, como uma Anitta.
Ainda assim, essas pessoas são felizes. A maior preocupação é o entretenimento. O homem ignorante só quer sair nos fins de semana com seus amigos beber cerveja, comer carne e assistir ao jogo de futebol. Mesmo depois de casado, sua maior preocupação continua sendo o futebol e uma eventual bebedeira com seus amigos. A mulher ignorante, mais limitada ainda, só se preocupa com a vida dos outros. Nada lhe deixa mais feliz do que se reunir com suas amigas para conversar sobre a vida das vizinhas. Não há satisfação maior na vida.
E aqui venho novamente dizer que a ignorância é uma bênção. Por quê?, talvez você me pergunte. Afinal, após toda essa crítica a esse lifestyle dos ignorantes, como posso afirmar que isso é uma bênção?
Certa manhã, estava eu, estudando, como tenho feito nos últimos meses. Após estudar o que havia planejado, decido ouvir um pouco de música. Minha criação não foi a mesma de uma pessoa ignorante. Desde criança, minha mãe sempre me incentivou a estudar. Quando eu tinha cinco anos, ela me comprou uma Revista Recreio. A partir daí, desenvolvi um grande interesse pela leitura, pelo conhecimento. Paleontologia, arqueologia, história, até mesmo a criação geológica do planeta, tudo isso me fascinava e me instigava a ir atrás de explicações, de respostas.
Mas estou divagando. Voltemos à música. Meu gosto musical, não sei como foi desenvolvido, mas é um tanto, digamos exótico. Sou um grande aficionado por estilos musicais que não são muito ouvidos pelos rincões do Rio Grande do Sul, onde vivi minha adolescência e meus primeiros anos como adulto. Tango, salsa, jazz, blues, bossa nova, só para mencionar alguns. É claro, não quero dizer que sou um erudito, até porque também gosto de ouvir estilos musicais mais populares.
O ponto que quero tratar aqui, é que nessa manhã, após os estudos, decido ouvir um tango, enquanto me arrumava para sair. A elegância e a qualidade musical me deixaram estupefato de maneira única e logo comecei a refletir sobre meu futuro e como adoraria, em alguns anos, visitar novamente Buenos Aires.
Logo que penso nisso, vejo o que tenho feito da minha vida. Quantas preocupações, ânsias, tormentos não tenho passado por conta do futuro? Em pensar se terei sucesso no que almejo? Não pretendo compartilhar meus sonhos, mas com certeza é algo muito mais grandioso (é claro que é relativo, mas me refiro no sentido de esforço) do que um simples carro.
Pensar em quanto eu e tantos outros, que estão fora dessa categoria de ignorantes, se preocupam com essas questões, me deixou reflexivo. Basta ver a quantidade de pessoas ansiosas no Brasil. Ansiosas por esses mesmos temores: será que terei sucesso? Será que conquistarei o que almejo? Será que vai dar tudo certo? Preocupações essas que os ignorantes não possuem. Afinal, a cerveja da sexta-feira é garantida.
É claro, os ignorantes ainda se preocupam em quem sabe perder o emprego. Mas normalmente, seus trabalhos não requerem muito esforço. Os ignorantes só querem receber o salário, sem se preocupar em buscar uma posição melhor, uma renda melhor.
Com isso concluo que a ignorância é uma bênção. A ignorância lhe permite ter uma vida feliz. Uma vida simples, sem variar muito, mas sem dúvida feliz. Uma vida protegida das hostilidades do mundo, uma vida abençoada, pela ignorância. Através desse véu que ilude e que engana, os ignorantes são satisfeitos.¹
¹É claro que existem inúmeras questões sociais em torno do que compõe os ignorantes. Educação fraca, ausência de ações sociais, pobreza, enfim. Mas o propósito desse devaneio, não é questionar esses problemas, ou sequer apontar as consequências dessa ignorância intelectual. É refletir sobre como a vida é simples para aqueles sem conhecimento. Se você considera como boa, ou ruim, depende de você.
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2020.08.21 22:15 angry_shoebill A Estrela - Arthur C. Clarke

A Estrela (Arthur Charles Clarke)
Estamos a 3.000 anos-luz do Vaticano. Um dia, acreditei que o espaço não tinha poderes sobre a fé, assim como acreditava que os céus proclamariam a glória da obra de Deus. Agora, já vi essa obra e minha fé se encontra seriamente abalada. Olho para o crucifixo, suspenso na parede da cabine, acima do computador Mark VI, e pela primeira vez em minha vida me pergunto se não será um símbolo vazio.
Ainda não contei a ninguém, mas a verdade não pode ser escondida. Os fatos estão lá para todos lerem, registrados em quilômetros sem conta de fita magnética e nos milhares de fotografias que transportamos de volta à Terra. Outros cientistas poderão interpretá-las tão facilmente quanto eu, e não serei eu quem vai compactuar em ocultar a verdade, fato quase sempre responsável pela má fama da nossa ordem nos velhos dias.
A tripulação já se encontra suficientemente deprimida e não sei como eles aceitarão esta ironia final. Poucos dentre eles possuem qualquer tipo de fé religiosa e, no entanto, não encontrarão prazer em usar essa arma final em sua campanha contra mim. Aquela guerrinha particular, bem-humorada, mas de fundamental importância, que transcorreu durante todo o caminho desde a Terra. Eles achavam divertido ter um jesuíta como astrofísico-chefe: o Dr. Chandler, por exemplo, nunca se acostumou com isso (por que será que os médicos são tão ateus?). Algumas vezes ele me encontrava no convés de observação, onde as luzes eram sempre reduzidas, de modo a que as estrelas pudessem brilhar em toda a sua glória. Ficava ao meu lado na penumbra, olhando através da grande janela oval para os céus que se moviam lentamente à nossa volta, enquanto a nave girava, com a rotação residual, que nunca nos incomodaríamos em corrigir.
– Bem, padre – dizia ele, afinal -, parece prolongar-se para sempre, não? Talvez alguma coisa o tenha criado. Mas como pode acreditar que essa alguma coisa tenha um interesse especial por nós e nosso mundinho miserável, nunca poderei entender.
E a discussão começava enquanto, lá fora, estrelas e nebulosas giravam em seus arcos eternos e silenciosos, além do plástico claro e sem falhas da vigia de observação.
Acredito que, em grande parte, era a aparente incongruência de minha posição que fazia a tripulação achar a coisa tão divertida. Seria inútil eu chamar a atenção para os meus três artigos publicados no jornal de Astrofísica ou os cinco no Noticias Mensais da Real Sociedade Astronômica. Lembrava-lhes que a minha ordem era famosa há muito tempo por seus trabalhos científicos. Nós podemos ser poucos agora, mas desde o século XVIII temos feito contribuições à astronomia e à geografia que parecem fora de proporção com o número de nossos quadros. Será que meu relatório sobre a nebulosa Fênix vai pôr fim a nossos mil anos de história? Porá fim, receio, a muito mais que isso.
Não sei quem deu esse nome à nebulosa, que me parece muito inadequado. Se contém alguma profecia, é coisa que não será verificada durante vários bilhões de anos. Mesmo a palavra nebulosa é um engano: trata-se de um objeto muito menor do que aquelas estupendas nuvens de poeira – a matéria-prima das estrelas ainda por nascer – que se espalham ao longo da Via-Láctea. Na escala cósmica, de fato, a nebulosa Fênix é algo pequeno – uma tênue concha de gás envolvendo uma única estrela…
Ou o que sobrou de uma estrela …
O retrato de Loyola feito por Rubens parece zombar de mim, suspenso ali, acima dos registros do espectrofotômetro. O que tu terias feito, padre, com este conhecimento que veio às minhas mãos, tão longe do pequeno mundo que foi todo o universo que conheceste? Teria tua fé se erguido ante o desafio onde a minha falhou? Teu olhar se perde na distância, padre, mas eu viajei por uma distância além de qualquer uma que pudeste ter imaginado ao fundar a nossa ordem, há mil anos. Nenhuma outra nave de pesquisa esteve tão longe da Terra. Encontramo-nos nas fronteiras do universo explorado. Partimos para encontrar a nebulosa Fênix, tivemos sucesso e agora voltamos com o peso de nossos conhecimentos. Quisera eu poder erguer esse peso dos meus ombros, mas é em vão que te chamo através dos séculos e anos-luz que nos separam.
No livro que seguras, as palavras são nítidas:
AD MAIOREM DEI GLORIAM, diz a mensagem, mas é uma mensagem em que não mais posso crer. Poderias ainda acreditar nela se pudesses ver o que encontramos?
Nós sabíamos, é claro, o que era a nebulosa Fênix. Apenas em nossa galáxia, a cada ano, mais de 100 estrelas explodem, queimando durante algumas horas ou dias com milhares de vezes o seu brilho normal antes de mergulharem na morte e na obscuridade. Essas são as novas normais, desastres comuns no universo. Já gravei espectrogramas e curvas de luminosidade de dúzias delas, desde que comecei a trabalhar no observatório lunar.
Mas três ou quatro vezes a cada mil anos ocorre alguma coisa, ao lado da qual até mesmo uma nova empalidece na total insignificância.
Quando uma estrela se torna supernova, ela pode brilhar brevemente mais que todos os sóis reunidos na galáxia. Os astrônomos chineses observaram isso acontecer no ano 1054 d.C. sem conhecerem a razão do que viam. Cinco séculos depois, em 1572, uma super-‘ nova explodiu na constelação de Cassiopéia, tão brilhante que podia ser vista à luz do dia. E houve mais três durante os mil anos que se passaram desde.então.
Nossa missão era visitar o remanescente de semelhante catástrofe, tentando reconstruir os eventos que haviam conduzido a ela para, se possível, aprender sua causa. Entramos lentamente através das conchas concêntricas de gás que haviam sido lançadas para fora há seis mil anos e ainda se expandiam. Ainda estavam imensamente quentes, irradiando mesmo agora numa violenta luz violeta, mas eram demasiado tênues para nos causar qualquer dano. Quando uma estrela explode, suas camadas externas são impulsionadas para fora com tamanha velocidade que escapam completamente ao seu campo gravitacional.
Agora formavam essa concha oca, grande o suficiente para envolver mil sistemas solares. Em seu centro queimava o objeto pequeno e fantástico em que a estrela se tornara. Uma anã branca, menor do que a Terra e no entanto pesando um milhão de vezes mais.
As conchas de gás luminoso nos envolviam banindo a noite normal do espaço ínterestelar. Voávamos para o centro de uma bomba cósmica que detonara há milênios, e cujos fragmentos incandescentes ainda se expandiam. A imensa escala da explosão e o fato de que os resíduos já cobriam um volume de espaço com muitos bilhões de quilômetros de diâmetro roubavam à cena qualquer movimento visível. Levaria décadas para que a visão pudesse discernir qualquer movimento nesses tortuosos filamentos e redemoinhos de gás. E, no entanto, o sentimento de uma expansão turbulenta era irresistível.
Havíamos verificado nossa direção básica horas atrás e agora flutuávamos lentamente rumo à pequenina e fogosa estrela à nossa frente. Ela já fora um sol como o nosso, mas consumira em algumas horas toda a energia que a teria mantido brilhando por um milhão de anos. Agora se tornara avarenta e encolhida, reunindo seus recursos como se tentasse compensar os excessos de uma juventude perdulária.
Ninguém esperava seriamente que pudéssemos encontrar planetas. Se houvesse existido algum antes da explosão, teria sido cozido em sopros de vapor e sua substância dissolvida em meio aos resíduos da estrela. Ainda assim fizemos a busca automática, como sempre fazemos ao nos aproximarmos de um sol desconhecido. Dentro em pouco localizamos um mundo pequeno, circundando a estrela a imensa distância. Ele devia ter sido o Plutão desse desaparecido sistema solar, orbitando nas fronteiras da noite. Demasiado afastado do sol central para jamais ter conhecido a vida, sua distância salvara-o do destino que consumira todos os seus companheiros.
A passagem do fogo queimara suas rochas, dissolvendo o manto de gás congelado que devia cobri-lo nos dias anteriores ao desastre. Nós pousamos e descobrimos a Cripta.
Seus construtores se haviam assegurado de que isso ocorreria. O marco monolítico erguido acima da entrada não passava agora de um toco fundido, mas mesmo nossas fotos de longa distância já nos revelavam existir ali o trabalho de uma inteligência. Pouco depois detectamos o padrão de radioatividade, amplo como um continente, que fora embutido na rocha. Mesmo que o pilar acima da Cripta tivesse sido destruído, essa energia teria permanecido, um eterno e irremovível farol acenando para as estrelas. Nossa nave mergulhou como uma flecha em direção a esse gigantesco alvo.
O pilar devia ter uma altura de I,5 km quando foi construído. Agora parecia uma vela que se derretera até formar um monte de cera. Levamos uma semana para perfurar a rocha fundida, já que não tínhamos ferramentas adequadas para essa tarefa. Éramos astrônomos, não arqueólogos, mas podíamos improvisar. Nosso propósito original fora esquecido: esse monumento solitário, erguido com tamanho esforço à maior distância possível do sol condenado, só poderia ter um significado. Uma civilização que tinha consciência de seu fim próximo fizera ali seu último apelo à imortalidade.
Examinar todos os tesouros depositados na Cripta será trabalho para gerações. Eles tiveram muito tempo para se preparar, já que seu sol deve ter dado os primeiros avisos muitos anos antes da detonação final. Tudo o que desejavam preservar, todos os frutos de seu gênio, eles depositaram ali, naquele mundo distante, dias antes do fim, na esperança de que alguma outra raça os encontrasse, para que não fossem inteiramente esquecidos. Teríamos nos portado desse modo? Ou teríamos nos perdido em nossa própria autocomiseração, incapazes de pensar num futuro que nunca poderíamos ver ou compartilhar?
Se ao menos eles tivessem tido um pouco mais de tempo … Podiam viajar livremente entre os planetas de seu próprio sol, mas ainda não haviam aprendido a cruzar os golfos interestelares, e o sistema solar mais próximo encontrava-se a 100 anos-luz de distância. Mas mesmo que possuíssem o segredo do impulso transfinito, não mais que uns poucos milhões poderiam ter sido salvos. Talvez tenha sido melhor assim.
Mesmo que eles não fossem tão perturbadoramente humanos, como revelam suas esculturas, não poderíamos deixar de admirá-los e lamentar seu destino. Eles deixaram milhares de registros visuais, juntamente com minuciosas máquinas para projetá-los. Havia instruções ‘pictóricas, de modo que não fosse difícil aprender a sua linguagem escrita. Temos examinado muitas dessas gravações, trazendo de volta à vida, pela primeira vez em seis mil anos, todo o calor e a beleza de uma civilização que, em muitos aspectos, deve ter sido bem superior à nossa. Talvez eles tenham deixado apenas seu lado melhor, mas ninguém poderá condená-los por isso. Seus mundos, contudo, eram adoráveis e suas cidades, erguidas com uma graça que iguala qualquer coisa já feita pelo homem. Nós os observamos no trabalho e nas diversões, ouvimos sua linguagem musical soando através dos séculos. E uma cena permanece ante meus olhos. Um grupo de crianças numa praia de estranha areia azul, brincando nas ondas como as crianças brincam na Terra. Há uma fileira de árvores exóticas, que lembram chicotes, ao longo da praia, e algum animal muito grande aparece, atravessando os baixios, sem atrair atenção.
Mergulhando no mar, ainda cálido e generoso, vemos o sol que logo se tornaria traidor, apagando toda essa felicidade inocente.
Talvez se não estivéssemos tão longe de casa, e portanto tão vulneráveis à solidão, não ficássemos tão profundamente comovidos. Muitos de nós já observaram as ruínas de antigas civilizações em outros mundos, mas elas nunca nos afetaram tão profundamente. Essa tragédia era única. Uma coisa é uma raça falhar e morrer, como nações e culturas já o fizeram na Terra. Mas ser destruída tão completamente, em pleno ápice de seu desenvolvimento, sem deixar qualquer sobrevivente – como tal coisa poderia conciliar-se com a misericórdia divina?
Meus colegas já perguntaram isso e eu dei as respostas que pude. Talvez tivesses feito melhor, padre Loyola, mas nada encontrei no Exercitia Spiritualia que me ajudasse nessa tarefa. Eles não eram gente má: não sei que deuses adoravam, se é que adoravam algum. Mas tenho olhado para eles através do abismo dos séculos e vi a beleza que preservaram em seu último esforço sendo de novo trazida à luz de seu sol encolhido. Eles poderiam ter-nos ensinado tanto. Por que foram destruídos?
Conheço as respostas que meus colegas darão quando estiverem de volta à Terra. Dirão que o universo não possui propósito ou plano, e que de vez que 100 sóis explodem, a cada ano, em nossa galáxia, neste exato momento alguma raça está morrendo nas profundezas do espaço. Se essa raça fez o bem ou o mal durante sua existência, não faz qualquer diferença no final. Não há justiça divina porque não existe Deus.
É claro que o que vimos não prova nada disso. Qualquer um que assim afirme está sendo influenciado pela emoção, não pela lógica. Deus não necessita justificar suas ações perante o Homem. Ele, que construiu o universo, pode destruí-lo quando quiser. Constitui arrogância – perigosamente próxima da blasfêmia – pensar que podemos dizer o que Ele pode ou não fazer.
Isso eu teria aceito, não importando quão dolorosa fosse a perspectiva de mundos inteiros, juntamente com seus povos, sendo lançados em fornalhas. Mas chega um ponto em que até mesmo a mais profunda fé pode vacilar, e agora, quando olho para os cálculos colocados diante de mim, percebo que afinal cheguei a esse ponto.
Não podíamos dizer, antes de alcançar a nebulosa, há quanto tempo ocorrera a explosão. Agora, partindo da evidência astronômica e dos registros nas rochas daquele único planeta sobrevivente, fui capaz de datá-la com precisão. E sei em que ano a luz desse incêndio colossal chegou à Terra. Sei o quanto essa supernova, cujo cadáver agora se apaga atrás de nossa nave em aceleração, deve ter brilhado nos céus da Terra. Sei como deve ter fulgurado, baixa sobre o horizonte do leste, antes do nascer do Sol, como um farol na alvorada oriental.
Não pode haver mais dúvida. O mistério ancestral foi finalmente solucionado. E no entanto, ó Deus!, havia tantas estrelas que poderias ter usado. Qual a necessidade de lançar essas pessoas ao fogo para que o símbolo de sua morte pudesse brilhar acima de Belém?
Traduzido por Carlos Cardoso
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2020.08.17 00:00 sadnmadpigeon existencialismo aos 20 e tantos

sempre fui fascinado por luzinhas de natal, cheiro de pinheiro de plástico e da madeira do violão que tenho desde os 8 anos de idade. e por enquanto, não faço ideia do porquê de ter começado o tópico dessa forma.
sinto que estou deixando escorrer entre os dedos a melhor fase da minha vida. a fase que você sente uma ardência no peito, que te impulsiona a se jogar e abraçar um turbilhão de sentimentos e sensações e paisagens mutáveis a cada segundo. essa incandescência toda da juventude está sendo levada e lavada pela correnteza diária da troca da luz dos astros, isso dentro de um quarto.
vendo o mundo em chamas, encontrei certo conforto enquanto todos estão paralisados de medo. pode ser um sentimento egoísta, mas eu precisava desse momento mais do que nunca pra entender tudo além e também ser entendido. antes eu observava o mundo girando através da janela da sala, totalmente voraz. Era uma flecha em chamas direto no peito. agora, pela janela, vejo os rostos petrificados assistindo um enorme cometa azul que se aproxima em câmera lenta da Terra. o sentido da vida, de movimento, nunca efervesceu tanto quanto agora. Sentido humano, empático. O movimento ardente que corre em nossas veias, o medo pulsando como lava em nossos peitos. Movimento esse que nos faz repensar todas nossas questões de cuidado e equilíbrio.
controle, força, equilíbrio, movimento, rigidez - vida se realizando em forma de trapézio
sempre fui fascinado por luzinhas de natal, cheiro de pinheiro de plástico e da madeira do violão que tenho desde os 8 anos de idade. ainda não sei faço ideia do porquê de ter começado o tópico dessa forma, mas me fez pensar sobre questões de apego e nostalgia. de apego ao subjetivo e ao abstrato, como uma forma poética e de conforto pra construir uma realidade que se discorre em slow-motion, ponto
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2020.07.31 13:37 LiarsEverywhere Torcedores de diferentes regiões... Como estão os times da B?

Vendo a classificação da Ponte ontem, percebi o quanto a Série B este ano está imprevisível. É difícil fazer prognósticos. Não apenas recebemos poucas informações de alguns times, mas a pandemia bagunçou tudo. Antes da parada, a Ponte era dada como provável rebaixada... Agora está na semi do Paulistão eliminando um gigante.
Vou dar meus pitacos de passada de olho na tabela, mas a ideia é quem acompanha mais de perto esses clubes corrigir meus erros.
Os times de Santa Catarina (Chape, Figueira e Avaí), que costumam ser candidatos ao acesso, estão todos mal.
Do interior de São Paulo, não vem nenhum fora do padrão com foi o Bragantino ano passado. A Ponte surge como possível surpresa por conta do início ruim no Paulista e posterior reviravolta, mas Oeste caiu pra A2, Guarani e Botafogo não assustam.
Do Nordeste, o Vitória é sempre uma possibilidade. Foi até bem na Lampions (apesar da eliminação de cara no mata mata pro finalista Ceará). Mas está mal no estadual. O Náutico, outro time que sempre pode incomodar, não faz grande temporada. CSA e CRB não assustam. Sampaio Corrêa saiu na fase preliminar da Copa do Nordeste pro Confiança, que é a grande surpresa. Fez boa Copa e deu trabalho pro Bahia na Semi.
Do RS, Esportivo Brasil e Juventude não se destacaram no estadual. Mesma coisa do Paraná no PR. Operário foi um pouco melhor na fase de grupos, mas rodou de cara no mata mata pro Cianorte. Não assustam.
Cuiabá é incógnita pra mim.
MG vem forte. Cruzeiro deve melhorar bastante com o Enderson, apesar dos -6, e considero o América do Lisca favorito ao título.
No geral, me parece que o nível não está dos melhores. Regiões tradicionais na B não apresentam favoritos ou nem estão na briga (Goiás).
Quem acho que pode brigar pelo G4: América, Cruzeiro, Confiança, Ponte, Vitória. Talvez algum time de SC ou do PR melhore o desempenho em relação ao estadual.
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2020.07.28 22:32 MoneyBasic Como fazer um amigo?

Fugindo de todo e qualquer clichê de adolescente no ensino médio sem nenhum amigo, como uma pessoa pode criar algum tipo de relacionamento que possa evoluir para uma amizade. A sensação de ser tão descartável e irrelevante tem me rondado a cabeça por diversos dias, afinal, estou no auge da minha juventude (19 anos) e não consigo fazer uma lista com mais de 3 amigos. Gostaria de alguma opinião externa quanto a isso. Passo um bom tempo na internet descobrindo coisas que são interessantes, porém sinto que vou explodir por não ter com quem falar essas coisas. E vocês, como constroem seus relacionamentos?
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2020.07.16 16:52 fobygrassman HAPPN PARA CASADOS

HAPPN PARA CASADOS App para infidelidade casada e encontros discretos. Curta um caso agora!
Happn App para Casado. Infidelidade simplificada De uma dona de casa traidora real
DESCUBRA O APLICATIVO TRAIÇÃO MELHOR QUE A FELICIDADE Hoje em dia, com o Happn e outros aplicativos de namoro sendo usados, as mulheres estão mais abertas a encontrar parceiros on-line e a ter relacionamentos casuais e uma noite só ”
Mas e se você for casado ou noivo?
Você ainda pode usar o Happn?
A RESPOSTA É NÃO. Não use o aplicativo Happn se você é casado, você será pego 100%
Se você deseja que o Happn já esteja lá antes de se casar, leia isso! Porque existe um aplicativo Happn anônimo projetado para pessoas casadas. Happn requer seu perfil no Facebook. A Happn usa seu perfil pessoal do Facebook para criar seu perfil na Happn !! A Happn USA SEU NOME E IDADE NO FACEBOOK! Além disso, o Happn é tão amplamente usado, mesmo que você decida se inscrever na sua conta do Facebook, seria apenas uma questão de tempo até que um dos amigos solteiros de sua esposa o veja no Happn e o expulse. Você não pode carregar fotos discretas no Happn e espera se envolver com nenhuma mulher, porque existem milhões de homens com fotos de rosto inteiro com as quais você está competindo. Então, isso significa que, se você é casado ou noivo, não pode usar o happn app? Felizmente, existe um "Happn casado" e é assim que funciona
ASHLEY MADISON É UM PEDIDO PARA TRAIDORES CASADOS QUE FUNCIONAM EXATAMENTE COMO A HAPPN APP. Ashley Madison foi criada exclusivamente para traidores. Uma grande porcentagem de usuários é casada e há "destruição mutuamente garantida". Ou seja, se alguém o vê no Ashley Madison (Happn por trapaça), ele não o denuncia, pois precisaria explicar por que ele estava no site. Ashley Madison funciona perfeitamente no seu telefone da mesma maneira que a Happn. Você pode ver os usuários próximos a você ajustando o raio da pesquisa. O Happn para casais tem recursos adicionais que o Happn não possui, criados para mantê-lo 100% seguro e discreto. Ashley madison permite que você se inscreva sem verificação de e-mail, o que significa que você pode dizer que outra pessoa usou seu e-mail e que você não tinha ideia. A Happn obriga a usar seu perfil do Facebook com seu nome real e idade no seu perfil. Ashley Madison possui um assistente de foto que permite colocar uma máscara no rosto ou desfocar a imagem para que você não possa ser identificado. Os usuários de Ashley madison são muito mais compreensivos quando você tem apenas fotos discretas disponíveis. Se você tentasse isso no seu Happn, obteria zero correspondências. Ashley Madison também oferece uma galeria privada onde você pode armazenar suas fotos e conceder e revogar o acesso aos usuários a qualquer momento. No Happn, todas as suas fotos podem ser visualizadas ... por qualquer pessoa ... a qualquer momento! Ashley Madison tem um site para dispositivos móveis muito rápido, para que você não precise baixar um aplicativo para o seu telefone. Isso é especialmente útil para pessoas cujos parceiros geralmente têm acesso ao telefone. O Happn é apenas um aplicativo que você precisa baixar para o seu telefone. Ashley Madison é 100% grátis para mulheres, o que garante uma base de usuários feminina ativa e envolvente. Happn cobra homens e mulheres.
Se você quer toda a diversão e emoção de Happn, mas é casado ou tem um relacionamento, você definitivamente deveria tentar Happn for Married: Ashley Madison.
O QUE É A GERAÇÃO "HAPPN"? Devido a aplicativos como o Happn e outros, as mulheres são mais promíscuas do que nunca.
Antes do Happn, apenas um dos meus amigos usava qualquer site de namoro. Ela só saiu em 3 encontros ao longo de 2 anos. Mas desde que Happn, todas as minhas amigas têm um perfil e o estão usando ativamente! Graças à Happn, as mulheres agora estão confortáveis ​​e com experiência em namoro online e abertas a conhecer homens online. O namoro on-line agora é a maneira número 1 pelas mulheres encontrar homens para encontros.
EXPIRADO EM SEXO CASUAL Eu tive muitos encontros no Happn e aplicativos semelhantes, e todos os meus amigos também. Depois de ter seu primeiro encontro casual e perceber que uma noite divertida, apaixonada e emocionante é apenas um aplicativo, você não será privado.
A "GERAÇÃO HAPPN" É AGORA A FAIXA ETÁRIA DOS RECÉM-CASADOS. As mulheres que usaram o Happn entre 20 e 30 anos de idade estão casadas há anos e “o período da lua de mel está acabado. Eles estão ficando insatisfeitos e querem um caso. Muitos de meus amigos que usaram o Happn estão agora, casados, noivos ou em relacionamentos de longo prazo; Adeus Happn diversão e Olá compromissos de longo prazo.
ELES SÃO NOSTÁLGICOS POR SUA JUVENTUDE SEXY Agora sou um dos meus únicos amigos que ainda são solteiros e posso honestamente admitir que meus amigos casados ​​(especialmente aqueles que estão casados ​​há muito tempo) sempre me dizem como tenho sorte e o quanto eles sentem falta da diversão de encontros on-line. Happn para casados
A LUA DE MEL ACABOU Depois de um tempo casado, o sexo e a paixão desaparecem. Todos os meus amigos dizem que sentem falta da validação e do entusiasmo que têm de combinar caras atraentes. O Happn não é mais uma opção Todos os meus amigos casados ​​dizem que adorariam usar os aplicativos de namoro novamente. No entanto, se o fizessem, seus maridos descobririam muito rapidamente. A Happn e outras aplicações usam o facebook para gerar seu perfil. Happn mostra amigos em comum, seu nome, idade. Sites como ashley madisn estão vendo um grande aumento de usuários e um grande aumento de mulheres. Os aplicativos de conexão Happn e similares se tornaram um campo de treinamento para mulheres. Eles são treinados na arte do sexo casual e do namoro on-line e procuram ter encontros infiéis agora!
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2020.07.16 16:26 fobygrassman ENCONTRE COROAS CASADAS HOJE

ENCONTRE COROAS CASADAS HOJE Conheça coroas, MILF's, e Mulheres Maduras brasileiras reais em menos de 2 horas, garantido!
Como Pegar Uma Coroa no Brasil Escrito por uma coroa verdadeira casadas
Quero namorar com uma coroa casada! Como eu namoro com uma coroa? Quais são os melhores sites de namoro de coroas? MILFs e coroas são a mesma coisa?
Não sei dizer quantas vezes já ouvi esta pergunta como especialista em namoro.
Originalmente minha resposta foi simples, pesquise no google sites de namoro de coroas e se compromete com um casal que você goste.
No entanto, há um grande problema com sites de namoro de coroas que afirmam ser focado em torno de mulheres maduras, MILFs, e coroas que estão buscando um homem mais jovem (referido como um "boytoy" ou "filhote".....
Eles não funcionam! E aqui estão 4 razões para isso: Não se preocupe, eu também lhe direi a melhor maneira de garantir um encontro com uma coroa casada ;)
  1. Não há coroas suficientes para dar conta Isto sobre isso, pumas são uma das categorias mais populares de pornografia. Em 2018 foi mostrado que "milf" foi a terceira coisa mais procurada em sites pornográficos. Cada jovem tem uma fantasia de mulher mais velha, mas quantas mulheres mais velhas você acha que estão assistindo a esses vídeos?
  2. A competição é grande! Para cada 1 coroa há 10-20 homens jovens tentando chamar sua atenção. Suas caixas de entrada estão cheias de mensagens não lidas. Minha tia é uma coroa autoproclamada, ela se inscreveu para um site de namoro de coroas uma vez, depois de obter +100 mensagens em seu primeiro dia ela nunca voltou. Então, se você é um cara jovem à procura de uma coroa você vai encontrar alguma competição séria. Pegando sua atenção é quase impossível e mesmo se você conseguir não há nenhuma garantia que ela vai estar interessada.
  3. Coroas não precisam do site Como eu mencionei antes, coroas são muito procuradas. Elas podem gritar pela janela e conseguir uma fila de caras. As coroas são mais propensas a namorar ou dormir com alguém que elas conhecem pessoalmente, elas são da antiga assim. Então, boa sorte competindo com o seu piscineiro, jardineiro, ou filho de amigos enquanto você é apenas um cara da internet
  4. Você precisa estar entre 24-29 para ter uma chance Já existe uma quantidade gigantesca de competição, mas a situação piora. Se você não está entre 24-29 você está em uma desvantagem séria. Uma pesquisa recente de coroas determinou que a idade ideal para um boytoy é 26 anos e a faixa etária média que elas poderiam até mesmo CONSIDERAR está entre 24-29. Há obviamente umas exceções mas são uma porcentagem pequena de um grupo já pequeno.
Disse a verdade sobre sites de encontros de coroas, mas provavelmente ainda está perguntando; OK, eu concordo que os sites de namoro de coroas são um desperdício de tempo, mas o que eu faço em vez disso?
Bem, você está com sorte porque há um pequeno truque muitas vezes negligenciado para aqueles que procuram coroas, sites de infidelidade! Isso mesmo, sites de traição são ótimos para encontrar coroas.
Estão aqui 6 razões porque os sites de traição ganham de sites de coroas para encontrar mulheres maduras:
  1. A grande maioria das mulheres lá são casadas, o que significa que a idade média é de cerca de 37-38 anos, a idade de coroa ideal!
  2. Você está competindo com caras mais velhos Esta é uma vantagem em tantas maneiras. Em primeiro lugar, você vai se destacar de todos os outros caras devido à sua juventude e condicionamento físico. Imagine uma coroa gostosa procurando através de homens perto dela e vendo foto após foto de caras velhos, fora de forma. Homens como seus maridos, que não as satisfazem.... Aí eles vêm através de seu perfil! Você é jovem, você está em forma (especialmente em comparação), e você está confiante. As chances de ela escrever a você é muito maior do que as chances de uma MILF se quer RESPONDER a você em um site de coroa.
  3. Elas não estão à procura de relacionamentos Elas estão em um site de traiçao de casado por isso está muito implícito que elas querem discrição e um relacionamento principalmente sexual. Isto significa que além da primeira ou segunda reunião você é basicamente o seu peguete.
  4. Você pode se destacar com uma foto de perfil! Em sites de traição a maioria dos usuários não tem uma imagem de perfil público de seu rosto. O que é típico é uma foto de corpo como seu retrato público do perfil e então fotos reveladoras em sua galeria privada. Podem compartilhar e revogar o acesso a esta galeria com sua própria discrição com quem quer que elas querem. Entretanto já que você provávelmente solteiro você pode criar um perfil com uma foto pública que inclua sua cara. Isso vai fazer você se destacar 100x vezes mais. As chances são que as mensagens virão antes mesmo de você precisar se apresentar.
  5. Elas etsão solitárias e insatisfeitas com seus maridos. Elas estão em site de infidelidade porque carece atenção de seus maridos. Normalmente, o marido começa a tratá-las como mãe/esposa e já não como um ser sexual. Esta é a sua oportunidade de dizer que elas ainda são sexy e ainda muito desejáveis e acredite que elas precisam/querem ouvir isso desesperadamente.
  6. Elas estão prontas para explorar sexualmente. Estas mulheres estão casadas há anos e o pouco sexo que têm com os seus maridos tornou-se mecânico e "baunilha". Elas estão prontos para apimentar as coisas e são maduras o suficiente para tentar novas experiências sexuais como: BDSM, ménage à trois, dominatrix, etc.
Ok, agora você provavelmente está pensando, "OK, você me convenceu de que os sites de infidelidade são 100x melhores para pegar coroas, mas como eu faço para realmente encontrar uma coroa?" Não se preocupe, siga estas 7 dicas e você vai aumentar drasticamente suas chances de encontrar uma coroa ou MILF em um site de casos.
7 Dicas Para Pegar Coroas Nota: algumas destas dicas são para o uso em sites de traição e algumas são dicas gerais
  1. Mencione a discrição no seu perfil e na sua primeira mensagem. Estas coroas são casados e estão à procura de parceiros casados porque isso garante que ambas as partes serão o mais discreto possível. Assumindo que você não é casado ou comprometido elas vão precisar de segurança de que você é discreto e confiável imediatamente. Considere escrever algo em seu perfil que diz:
"A discreção é muito importante para mim. Eu estou procurando somente parceiras discretas que são mutuamente respeitosas". 2. Mostra que não vai pôr em risco o seu casamento A outra preocupação que as coroas casadas que procuram homens têm é que você homens mais jovens são rápidos para se apaixonar e podem representar uma ameaça ao seu casamento no futuro. Elas não querem estar em uma posição onde você está exigindo que elas se divorciem de seu marido para que ambos possam estar juntos. Elas estão em sites de traição porque elas NÃO querem se divorciar. Assim o que eu recomendo é pôr algo assim no seu perfil e/ou primeira mensagem:
"Não olhando para mudar seu status ou meu, apenas olhando para ver se eu posso encontrar uma boa conexão com limites claramente definidos". 3. Você está disponível! Uma das coisas mais difíceis de se ter um caso é a disponibilidade. Se ambas as partes estão em relacionamentos é muito, muito difícil encontrar um momento em que AMBOS podem fugir de seus cônjuges sem levantar suspeitas. Mesmo quando você concorda sobre um tempo e um lugar, algo pode surgir e um de vocês pode não ser capaz de ir. A boa notícia é que você pode trabalhar em torno de sua programação. Este é um grande bônus então deixe que ela saiba disso! Ela pode nem mesmo perceber o quanto problema programação é se esta é a sua primeira vez traindo. Diga que já que você é solteiro você pode encontrá-la sempre e onde é melhor para ela.
  1. Mostre a ela que você respeita limites. Na verdade, diga a ela que você está ansioso para ouvi-los. Novamente, coroas casadas precisam de discrição e a melhor maneira de ser discreto é estabelecer limites. Pergunte a ela se há alguma regra de discrição que ela precise que você siga. Muitas vezes, são coisas como "não me escreva entre 18h e 23h", "use palavras em código para que se alguém ver as mensagens parecerão inocentes" etc. Tudo isso permite que ela saiba que você está falando sério sobre sua discrição.
  2. Elogie ela! As coroas estão em sites de infidelidade porque seus maridos não as tratam mais como mulheres atraentes e desejáveis. Se elas têm filhos, mesmo que sejam MILFs, é provável que seus maridos as vejam como mães mais do que amantes agora. Elas estão desesperadas por validação que ainda são sensuais e desejáveis e, vindo de um homem mais jovem, isso significa ainda mais!
  3. Acho que você é jovem demais para mim / não é jovem demais para mim? Espere que essa pergunta surja muito. Não se preocupe - este é um bom sinal! Se ela está dizendo / perguntando isso é porque ela está lhe dando a oportunidade de refutar. Se ela realmente se sentisse assim, não responderia a você. Mas agora você está em uma posição crítica; como você responde a isso determinará se você consegue um encontro / relacionamento. Lembre-se de que ela não está falando sério, está testando você. Prepare uma resposta bem pensada a isso com antecedência. Eu acho que este é um bom começo:
“Você realmente se sente assim ;)?” Esta é uma maneira divertida de ir direto ao ponto" "Eu realmente não vejo as coisas dessa maneira. Estou procurando por características como maturidade, confiança, discrição e abertura. Mulheres mais maduras têm mais desses traços e você é incrivelmente sexy." 7. Elas vão pensar que você é imaturo. Imediatamente elas assumirão que você é jovem, excitado e imaturo. Você precisa refutar isso imediatamente. Inicie suas mensagens o mais maduro e profissional possível. Releia suas mensagens e verifique se a ortografia e gramática são 100%. À medida que a conversa continua, você pode se tornar cada vez mais brincalhão, mas a primeira impressão dela precisa ser que você é maduro e inteligente, e não um garoto idiota.
Então aí está, minha opinião extensa e bem pesquisada sobre: Por que sites de coroa não funcionam Onde você pode encontrar coroas REAIS Como você pode maximizar suas chances de entrar em um relacionamento causal com uma coroa Se você leu este artigo e realmente implementar essas dicas, estará dez passos à frente da concorrência e estará no caminho de namorar coroas, MILFs e mulheres maduras.
Ah, e antes que eu esqueça, a pergunta "MILFs e coroas são a mesma coisa?"
A resposta é não. MILF: MILF significa ‘Mãe que eu gostaria de comer’ em inglês. São mulheres com filhos que você acha sexy, só isso.
Coroas (ou cougars em inglês): as coroas são mais velhas, atraentes, mulheres que estão "rondando" explicitamente por homens mais jovens!
O Brasil é um país de trair coroas casadas! Uma em cada dez mulheres casadas encontrou alguém mais de 10 anos mais novo! 8% das mulheres têm encontros casuais com homens muito mais jovens. A maior diferença de idade média entre coroas casadas e amantes é de cinco a dez anos 57% dos homens tiveram um caso com uma coroa casada O estudo constatou que oito por cento das mulheres casadas tiveram um caso com um homem mais jovem Mulheres maduras também são muito atraentes para homens casados. 61% dos homens casados ​​no Brasil têm um caso extraconjugal com uma mulher mais velha. 25% dos homens casados ​​namoraram uma mulher entre cinco e dez anos mais velha. O apetite sexual das mulheres aumenta com a idade, enquanto os homens tendem a atingir o pico em seus vinte e poucos anos. Isso poderia explicar a tendência crescente de coroas casadas em busca de homens. Casados ​​com homens podem ver um declínio escasso no desejo sexual e coroas casadas, eles estão ficando cada vez mais frustrados. Eles agora optam por conhecer um cara que é mais jovem, simplesmente porque sua libido é mais semelhante.
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2020.07.06 00:45 dukaymon Ou os dois são loucos ou nenhum é.

Dia 1: Mário pega no carro e foge, saindo do concelho.
Dia 2 a dia 10: após abandonar o carro num parque de estacionamento a 230 km de casa, Mário esconde-se num pinhal e aí fica até acabaram as poucas latas de comida que trazia na mochila.
Dia 11 a dia 33: alimentado-se de frutas e vegetais que vai roubando de campos agrícolas e sem nunca ficar no mesmo sítio mais do que um dia, Mário encontra-se já a 300 km de casa, perto da fronteira.
Dia 33 a dia 77: sem se atrever a aproximar-se da civilização, por medo que o reconheçam (e não só), no meio do mato Mário encontra refúgio num casebre abandonado, envolto em silvas e arbustos, que funcionam como camuflagem, impedindo que mesmo o transeunte mais atento pudesse vislumbrar o edifício aí escondido. Na praia deserta que fica a 500 metros do local, Mário obtém o alimento que precisa e bebe a água da chuva que se acumula num pequeno tanque decrépito atrás do casebre.
Dia 78: Mário tenta pôr fim a tudo.

"Desculpem-me o mal que vos causei", lia-se na carta, "mas quero que saibam que, tal como rio rebenta o dique e inunda os campos em seu redor, se vocês sofrem por minha culpa, é porque não consegui conter em mim tanto sofrimento."
Dobrou a folha ao meio e deixou-a sobre um banco. Uma lágrima tinha esborratado o texto, deixando uma das palavras totalmente ilegível e, de forma parcial, a palavra que lhe antecedia e a palavra seguinte, mas ele nem reparou. Também não interessava, provavelmente ninguém iria descobrir aquela carta.
Levantou-se, saiu do casebre e caminhou nervosamente até à arriba de onde decidira que haveria de ser conduzido pela gravidade até ao abismo álgido e salgado que o tinha vindo a seduzir sempre um pouco mais de cada vez que o contemplara.
Era um dia ventoso e borralhento, mais ventoso ainda à beira mar, no cimo da falésia. Lá em baixo o mar castigava as rochas impassíveis que outrora haviam estado cobertas por um amplo lençol de areia.
Mário olha para baixo e murmura sofridamente:
-Como é possível que isto já tenha sido uma praia, e eu tenha sido tão feliz nela!
E não contém as lágrimas quando à mente lhe vêm as imagens dos longos e soalheiros dias de verão passados naquele lugar com os amigos, na adolescência.
Vinte anos separavam essas memórias do presente, vinte anos que, a bem dizer, pareciam cem ou mesmo vinte anos vividos por uma pessoa diferente, de tão antipodal era o seu estado de alma na altura em que decide suicidar-se, face à alegria, a energia e o fulgor do seu espírito na juventude.
Mário tentava sempre, quando ainda fazia um esforço para não desistir de viver, impedir-se de recordar esses bons momentos do passado, por saber que lhe agravavam a dor do presente. "O mau não parece tão mau a quem nunca conheceu o bom. Tomara que nunca tivesse experimentado a felicidade!", pensava ele.
Mas agora que está prestes a acabar tudo, que mal advinha de deleitar-se uma última vez com o sol e o calor desses Verões longínquos? A dor terminaria em breve.
- Seja esta a minha última refeição de condenado, um festim para as sensações! - disse ele.
A sua mente é então invadida por todas essas boas recordações que tanto procurara reprimir: as gargalhadas de fazer doer a barriga, os planos e objectivos idílicos para o futuro, a descoberta do prazer da sexualidade, as fogueiras acendidas pouco antes do Sol mergulhar no mar, com o intuito de obrigarem a praia a dar palco à sua puberdade até durante a noite.
Mário trauteia uma música da adolescência, de um desses Verões insuportavelmente felizes, e conforta-se com acreditar que dentro dos vãos e grutas daquela defunta praia ainda é possível ouvir o eco da sua melodia.
No alto do precipício o vento fustiga-o, e ele, de olhos fechados, imagina-o como sendo os seus amigos a saltarem para cima dele em jeito de brincadeira.
Esteve assim largos minutos, a colher quanta felicidade podia colher de um campo de alegrias já ceifado há muito. Até que a noção do presente retorna, para converter essa alegria em suplício: a realidade desesperante que põe fim à miragem de um oásis.
A chuva começava a cair tímida e lentamente, mas era perceptível que se estava a tornar ligeiramente mais forte a cada minuto que passava. Mas o vento, pelo contrário, seguia o sentido oposto ao crescendo da chuva.
-Ah, sim, o último banho do meu último dia de praia - diz Mário sarcasticamente, no seu habitual exercício de auto-comiseração, levantando a cabeça para encarar a chuva.
- Basta! - resmungou ele, cheio de repulsa de si mesmo, por não conseguir deixar de tratar com sarcasmo nem mesmo aquele que era o momento mais sério da sua vida.
Dito isto, baixa a cabeça, fita o abismo, vendo o mar que parecia aumentar de fúria, ofendido com a indiferença dos rochedos, e, sem ponderar um segundo, por medo que a coragem lhe viesse a faltar, dá aquele que pretende que seja o último mergulho da sua vida.
Mantém os olhos fechados e sente nos ouvidos o assobio do ar, que sobrepõe-se ao som da ira do oceano. E assim vai descendo, até que, de súbito, vê as memórias da sua vida, que naquele derradeiro momento parecem-lhe mais vívidas do que alguma vez pareceram, darem lugar a memórias estranhas e alheias a tudo o que vivera, e mas mais bizarro ainda: vê-as, não da sua perspectiva, mas da perspectiva de outra pessoa, que ele não fazia ideia de quem era.
Assustado, abre os olhos de repente e vê o mar a uns quantos metros de distância. Depois disso não se lembra de mais nada.

Quando acordou, Mário deparou-se com uma enfermeira que, empunhando uma seringa, tentava encontrar uma veia no seu braço. Ao vê-lo acordar, a enfermeira apressa-se a chamar um médico.
- O que é que aconteceu? - pergunta Mário, desorientado, ao médico que lhe auscultava o peito.
-Não se lembra do que aconteceu? - pergunta o médico. - O senhor atirou-se de uma falésia. Por sorte, ou mesmo por milagre, caiu numa zona em que a água tinha profundidade suficiente para que não tivesse morte imediata nas rochas. O hospital irá contactar a sua mulher e o o seu filho para informá-los que o senhor já se encontra consciente.
-Desculpe!? Mulher e filho? Eu sou solteiro e vivo com os meus pais! Enganou-se no paciente.
O médico, surpreendido, observa a sua ficha clínica e pergunta-lhe:
- Você não se chama Mário Costa Figueiredo?
-Sim - respondeu Mário.
-Então não há nenhum engano!
-Não, desculpe, há de certeza um equívoco... - retorna Mário, irritado e, ao tentar levantar os braços em protesto, repara que um deles estava algemado à cama.
- Ah, sim já me lembro, apanharam-me finalmente! Mas eu não tenho família nenhuma! Nem sou responsável pelo crime que me atribuem!
O médico calou-se, na dúvida entre estar perante um legítimo caso de amnésia ou um criminoso a mentir para tentar passar a ideia de que estava inocente.
Disse: "eu volto já" e afastou-se.
Os dois polícias que estavam de vigia à porta da sala onde Mário estava internado entraram assim que o médico avisou-os que ele tinha acordado e, a alguma distância, fitaram-no com cara de poucos amigos e trocaram entre si palavras que Mário não conseguia ouvir.
Provavelmente insultos, pensou Mário.
E pela razão certa, mas não contra a pessoa certa. Mário era suspeito de matar uma mulher grávida. O crime fora gravado e a cara dele tinha aparecido na televisão, mas não era ele.
Porém, o facto de se ter posto em fuga não fizera nenhum favor à sua reputação de auto-proclamado inocente, embora se ele próprio se tinha visto em vídeo a cometer aquele crime hediondo, seria impossível parecer mais culpado mesmo que tivesse ficado placidamente sentado no sofá à espera que a polícia arrombasse a porta de sua casa para o prender.
Setenta e oito dias em fuga andou Mário, até ser encontrado inconsciente na praia, após a tentativa falhada de suicido.
Mas porque fugiu Mário? E porque se tentou matar? As respostas, que parecem óbvias - não ser injustamente condenado por homicídio e estar cansado de viver como um pária fugitivo - não satisfazem totalmente as perguntas. Se esses foram factores a ter em conta, havia contudo algo de mais profundo, mais inquietante e mais assustador - ele fê-lo porque, no seu íntimo, sentia-se de alguma maneira culpado pelo crime que não cometeu.
Um Mário completamente seguro da sua inocência talvez não fugisse se o acusassem de um crime cometido por outrem. E decerto que jamais aceitaria carregar a culpa alheia por um crime, mesmo que todas as testemunhas jurassem pelos parentes defuntos que o tinham visto a disparar a arma. Nem mesmo que ele se tivesse visto a matar a vítima, como de facto viu. Nem mesmo que a sua vida dependesse disso. Mário estava inocente e sabia-o com toda a certeza, mas sabia também, com equivalente grau de certeza, que era (um pouco) culpado.

Mas os problemas de Mário não começaram com o homicídio.
Um estranho acontecimento ocorrido vinte anos antes, fora o que dera início à inexorável descida de Mário ao abismo.
Mário sempre jurou que pouco tempo antes do acidente que o tinha deixado desfigurado, tivera uma premonição. Um sentimento repugnante, um misto de desespero e medo avassalador, acompanhado por um arrepio na espinha, que sentira ao ver um relâmpago cair no sítio onde meses mais tarde seria atropelado por um carro.
Estropiado e desfigurado, não foi mais capaz de arranjar emprego e muito menos manter uma vida amorosa com uma mulher. Tinha passado os últimos vinte anos da sua vida a viver em casa dos pais, dependente destes, sem quase nunca sair à rua. Um adulto que nunca experimentara ser adulto, alguém que ia envelhecendo mas cuja vida parara para sempre na adolescência.
Sem coragem para matar-se, a única coisa que desejava, dia a pós dia, era a morte.


As provas não deixavam margem para dúvida: as impressões digitais recolhidas no local do crime eram dele, bem como ADN. Se ele não era culpado deste crime, as prisões estavam cheias de inocentes.
E no entanto não era culpado, asseverava ele com toda a convicção e honestidade possíveis de se encontrar num inocente injustamente acusado.
Mário foi condenado à pena máxima. A "sua" mulher esteve presente no julgamento, chorosa, desolada, horrorizada. E na cara de Mário era patente a incredulidade de um viajante do tempo que encontra no futuro um mundo tecnologicamente impossível de conceber na sua era. Estarei louco?, pensou ele. E foi nisso que preferiu acreditar, confrontado com a sua "nova" realidade. Mas não cometi aquele crime, posso estar louco mas não sou assassino!
A mulher visitou-o relutantemente apenas uma vez na prisão. Quando, durante essa visita, ele lhe disse que nunca a tinha visto na vida e que não tinha filho algum, nem com ela nem com ninguém, ela sentiu alívio por ter sido ele a pôr fim a tudo. Se fosse eu a rejeitá-lo, ele ainda me mandava matar!, pensou ela à saída da prisão.Mário depressa se aclimatou à vida de recluso, que ele não considerava pior que a vida miserável que tinha levado durante os últimos vinte anos, enclausurado em casa dos pais. Ao fim do primeiro ano, Mário decide escrever um livro, uma espécie de biografia "barra" apologia da sua inocência.
Falou da premonição, do acidente meses mais tarde, da visão que teve quando se tentou matar; tentou demonstrar o seu álibi para a momento do crime e falou das suas famílias: a verdadeira, os pais, dos quais nunca mais teve notícia e nunca mais não foi capaz de encontrar, como se nunca tivessem existido (a casa onde viviam também não existia), e da nova família e nova vida que o universo lhe atribui depois de se ter atirado da falésia.

O manuscrito chamou a atenção do psiquiatra que acompanhava Mário. O psiquiatra tinha diagnosticado Mário com amnésia retrógrada e classificara as memórias anteriores ao acidente de confabulações.
O psiquiatra tinha um amigo, Alexandre, um sujeito lunático mas interessante, que tinha interesse no ocultismo, em particular na parapsicologia. O psiquiatra, Carlos de seu nome, que gostava de ficar a ouvir o seu amigo e antigo colega de faculdade a debitar disparates fantasiosos mas originais quando se encontravam aos domingos à tarde, na casa deste último, sempre com um leve sorriso de troça na cara, sem, contudo, ser desrespeitoso e sem que Alexandre levasse a mal, decidiu mostrar-lhe uma cópia do manuscrito, com a autorização de Mário.
Numa terça-feira de manhã, no caminho para o trabalho, Carlos parou na casa do seu amigo e entregou-lhe o manuscrito, na expectativa de ouvir Alexandre discorrer sobre o assunto no domingo seguinte.
- Olha o que um recluso lá da prisão escreveu. Diverte-te.
E saiu um pouco apressado, pois já ia atrasado.
Domingo chegou, e, para quebrar o hábito, era Alexandre que batia à porta de Carlos logo após o almoço e não o inverso, como sempre sucedera. Estava nervoso e efusivo, como um adolescente prestes a perder a virgindade.
- Tenho de falar com esse tipo. A que horas podem os prisioneiros receber visitas? - perguntou Alexandre.
Carlos tentou demovê-lo, pois não lhe agradava a ideia que um doente mental como Mário, e ainda por cima um paciente seu, fosse influenciado por um excêntrico como Alexandre, por mais bem-intencionado que fosse. Discutiram e foram-se zangando gradualmente mais com o decorrer da discussão. No fim, para não arruinar aquela amizade que ambos prezavam, Carlos concedeu que Alexandre visitasse Mário, até porque não havia maneira legal de o impedir.

O dia em que Mário e Alexandre se conheceram chegou, e, assim que Mário o viu, pensou tratar-se de algum daqueles "novos" parentes ou amigos da sua realidade pós tentativa de suicídio.
- Ah, sim, você é o tal amigo do psiquiatra - disse Mário, aliviado por não ser nada daquilo que esperara.
Alexandre disse que lera o livro e Mário interrompeu-o:
-Deve pensar que eu sou maluco ou mentiroso, não é? - acrescentou ele.
Houve uma pausa e Alexandre, num tom sério, respondeu:
- Não, não acho...
Os olhos de Mário acenderam-se e, após alguns uns segundos, perguntou:
Quer dizer que você... acredita?
Uma pausa, mais longa que a anterior, separou a pergunta de Mário da resposta de Alexandre. Alexandre aproximou a cara do vidro e, como que reconfortando um amigo em sofrimento, diz com voz baixa mas firme:
- Acredito.
Mário pergunta imediatamente, incrédulo e extático:
-Acredita que eu sou inocente ou no resto? Ou em tudo?
Alexandre diz:
-Acredito que teve de facto aquilo a que chama de "premonição". Acredito que viu o que viu quando se atirou para o mar e, embora não descarte a hipótese de amnésia, creio que é possível que esteja a ser sincero quando diz que a sua família não é de facto a sua família. Quanto ao crime, devo ser a única pessoa no mundo que não está convicto da sua culpabilidade.
Mário não sabia o que achar. A realidade para ele não fazia sentido. Se ele próprio vira-se a cometer o crime e sentia-se um pouco culpado por isso, embora soubesse que não o cometera, e se havia provas irrefutáveis que apontavam para si, como é que era possível que alguém duvidasse disso, ainda para mais um total desconhecido como Alexandre? Uma realidade em que Mário era casado e tinha um filho, era uma realidade em que também podia existir alguém como Alexandre. Mas provavelmente estava louco, como preferia acreditar.
Quase a chorar, Mário pergunta:
-O que o leva acreditar em mim?
Alexandre diz:
-Conhece o conceito de doppelganger?
- Sósias? Sim - respondeu Mário.
-Certo - retorquiu Alexandre-, mas não me refiro somente a pessoas apenas com similaridades físicas com outras pessoas sem parentesco. Falo de uma relação entre dois ou mais indivíduos que vai além do que é meramente o aspecto físico, a uma relação de transcendência psicológica, uma ligação talvez metafísica entre mentes.
-Desculpe, mas não acredito nessas coisas - retrucou Mário. - E não vejo o que tem isso a ver com o meu caso. Está a querer dizer que foi um sósia meu que cometeu o crime?
-Não acredita, mas no entanto jura que a sua família foi trocada, que não cometeu o crime apesar das evidências e que viu a vida de outra pessoa à frente quando tentou matar-se. Se não acredita, então só podemos concluir que é louco, certo? E para além disso, é você que afirma ter tido uma "premonição". Ora, não acredita em si próprio? Loucura por certo...

Mário, sentiu-se tocado. Nunca revelara a ninguém que achava que talvez estivesse louco. Mas que outra explicação haveria?
-Não me diga que o meu sósia também tem o meu ADN e as minhas impressões digitais? - disse Mário, um pouco desdenhoso. - E quando eu falei de premonição, se você leu mesmo livro, decerto se lembrará que não invoquei explicações paranormais. Eu senti que algo de mau ia acontecer, e aconteceu. Foi apenas isso, um sentimento. Se eu "adivinhei" o futuro ou se foi um sinal "dos Céus" abstenho-me de especular.
Pense nisto - disse Alexandre-, tal como duas pessoas diferentes, sem qualquer contacto entre si, podem acertar nos números da lotaria, também é possível, mas extremamente improvável, que duas pessoas tenham o mesmo ADN. A probabilidade é tão baixa que no mundo você não encontrará ninguém geneticamente igual a si, mas se a população mundial fosse suficientemente numerosa, seria possível encontrar; e quanto mais numerosa fosse, mais probabilidade haveria. Seriam seus "gémeos" idênticos, apesar de não serem filhos dos mesmos pais... - Mário ia dizer algo, mas Alexandre aumentou e apressou a voz de modo a impedido de exprimir-se. - Quanto à premonição, se você pressentiu algo de mau que iria acontecer meses depois, então é óbvio que temos de recorrer a explicações não usuais para isso, pois prever o futuro não é considerado possível pela ortodoxia científica. Dou-lhe o seguinte exemplo como forma de fazê-lo perceber melhor onde quero chegar:
"Há várias décadas, na Austrália, um homem, incapaz de adormecer, decide ir à varanda para apanhar ar. No momento em que vê a lua cheia sente uma repulsa macabra inexplicável, como nunca tinha sentido, um mal-estar físico como se tivesse ingerido algum veneno. Era perto da meia-noite. No dia seguinte, a polícia bate à sua porta e informa-o que a sua filha fora assassinada. O médico legista determinou que ela tinha sido morta por volta da meia-noite.
"Não havia maneira do pai saber que a filha estava a ser assassinada a dezenas de km de distância, no entanto esse acontecimento foi sentido por ele de algum modo, a não ser que acreditemos que se tratou de uma coincidência.
"Isto costuma acontecer também com gémeos idênticos, em que um deles é sensível ao que se passa com o outro."
-Continuo sem perceber o que tem isso a ver comigo - disse Mário.
-Da mesma forma que a mente consegue sentir a dor ou alegria de alguém que nos é biologicamente próximo, ou mesmo idêntico, você, como confessou no seu livro, talvez sente-se um pouco culpado pelo crime porque aquele poderia ser o seu irmão gémeo ou algum "clone" sem relação a si, como referi há pouco. Esta - um irmão gémeo - seria a explicação mais simples, e portanto mais plausível, para o sucedido. Mas como acreditar nisto se você próprio confessou o crime na sua carta de despedida? E se eu acreditasse nisto não estaria aqui.
Mário ficou atónito:
-Desculpe?
Alexandre, que não estava surpreendido com a surpresa de Mário, não que achasse que ele estava amnésico ou a fingir, diz:
-Sim, após acordar no hospital você revelou o seu esconderijo à polícia e lá encontraram a sua carta, na qual desculpava-se pelo sofrimento causado à sua mulher e filho e confessava o homicídio da sua amante grávida. .
-Não, lamento, isso não aconteceu. Eu escrevi uma carta, sim. Mas como tem você conhecimento disso? - pergunta Mário. Que um estranho tivesse conhecimento de uma carta que nem a polícia que investigou o crime e perseguiu Mário durante quase três meses conhecia, seria motivo de estupefacção e medo para qualquer pessoa, mas em Mário, que já passara e continuava a passar por coisas mais bizarras, isso não causou tanto espanto como deveria. Mário acrescenta:
-Mas não escrevi isso que diz. E para além disso, a polícia, que eu saiba, nunca encontrou a carta porque eu, com vergonha, nunca mencionei o esconderijo. Não queria que a minha carta de despedida fosse descoberta tendo eu sobrevivido, seria vergonhoso demais. Mas em nenhum parágrafo da carta admiti o crime, pois não o cometi. Apenas pedia desculpa aos meus pais pelo sofrimento que lhes causei, motivado pelo sofrimento que eu sentia.
-Lembre-se, eu acredito que esteja a ser sincero quando diz o que diz. E que essa sinceridade não advém das confabulações em que um amnésico acredita, mas correspondem aos factos.
"Eis o que eu acho: você não matou aquela mulher. Mas você também matou-a. E as suas duas famílias são ambas suas mas não ao mesmo tempo. E as memórias que viu na mente são suas e e não são suas, pois foram e não foram vividas por si.
"Aquela sua premonição, tida no momento de uma descarga de energia - o relâmpago - foi a recolecção, por parte da sua mente, da informação de um evento que tinha acontecido no futuro, mas um futuro doutro universo, futuro esse que, em relação à linha temporal do nosso universo, seria um acontecimento do passado. Doutro modo, você não poderia ter tido a premonição, pois a causa (o acidente) teve de anteceder o efeito (a premonição do acidente) para que aquele pudesse ser previsto. Como, de acordo com as leis da física, as causas nunca antecedem os efeitos, o acidente teve de ocorrer primeiro noutro universo para que o conhecimento dele neste universo pudesse anteceder o seu acontecimento neste universo. É esta, a meu ver, a explicação para o fenómeno vulgarmente denominado «premonição»: a falsa «previsão» do futuro que não é mais que a lembrança, neste universo, de um evento já ocorrido noutro universo e que irá também ocorrer neste. E falo da verdadeira premonição, não da ilusão de premonição que advém das naturais falhas e vieses cognitivos da mente humana."
-Agora você já está a abusar- disse Mário. - Ou você é mais louco do que eu ou está a fazer pouco de mim.
Alexandre esboçou um sorriso, mas logo ficou sério:
- Não, repare, o que eu lhe estou a tentar dizer é que acredito que cada um de nós tem pelo menos um outro "eu", e talvez uma infinidade de "eus", que existem simultaneamente connosco, mas não aqui. O que acontece, na minha opinião, é que, por razões que ainda não vislumbro, às vezes esse(s) diferente(s) universo(s), ou partes dele(s), como você, ou eu, ou uma cadeira, ou uma árvore, ou um simples átomo, cruza(m)-se com o nosso, da mesma maneira que duas linhas de pesca se emaranham ao cruzarem-se, ou como dois fios de electricidade, que correm paralelos de um poste ao outro, tocam-se quando há vento. E ao fazerem-no podem trocar matéria, energia e informação. As memórias que você viu, e que se calhar irá ver com mais frequência, ou nunca mais, são as memórias do seu outro "eu" de um universo paralelo, com o qual você trocou informação. A "nova" vida que todos dizem ser sua após a queda no mar, talvez não seja mais que a "sua" vida de um universo paralelo. Talvez você não seja deste universo, ou talvez sejamos nós, e quando digo nós refiro-me à totalidade do que existe neste universo, que estejamos a mais; se calhar este universo, ao emaranhar-se com outro, foi esvaziado do seu conteúdo original, excepto você, e preenchido com o conteúdo desse outro universo. E agora você, neste seu universo, paga pelo crime que o seu outro eu cometeu naquele nosso universo. E o seu outro eu deve andar por lá livre como um passarinho. Que bela forma de escapar à justiça, não acha?
"E às vezes, creio que acontece o seguinte: quando dois universos se «cruzam» apenas um deles recebe matéria ou energia do outro. É esta, a meu ver, a origem de alguns doppelgangers. Que podem ser de pessoas, animais, plantas ou coisas inanimadas.
"É natural que se sinta culpado do crime, foi você que o cometeu. Se um pai é capaz de sentir uma filha a ser assassinada e um gémeo a dor de outro gémeo, como não havia você de sentir o que você próprio fez?"
Mário abanou a cabeça como quem está farto de ouvir baboseiras e levantou-se da cadeira.
-A visita acabou - disse ele ao guarda. E foi reconduzido à sua cela.
Devo estar louco, de facto. E se calhar até cometi o crime e não me lembro. Se calhar estão todos certos. Mas aquele tipo também não devia andar à solta, pensou Mário. E talvez estivesse certo também.
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2020.05.09 03:01 altovaliriano Petyr Baelish é o herói trágico de ASOIAF

Texto em inglês: shorturl.at/htxCS
Autor: u/BeautifulMania
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Permita-me começar do começo.
Petyr Baelish nasceu em 268 dC, tendo 27 anos no início da A Guerra dos Tronos.
Seu pai lutou ao lado de Hoster Tully na guerra dos Reis das Nove Moedas, e a amizade deles deu a Petyr a chance de ser promovido por uma grande casa depois que ele nasceu.
A lembrança mais antiga que vemos de Petyr é quando as jovens Catelyn e Lysa lhe serviram tortas de lama, as quais ele comeu tanto que ficou doente por uma semana. Isso mostra o quão jovem ele era quando foi enviado para Correrrio, e é muito provável que suas primeiras lembranças conscientes tenham ocorrido em Correrrio.
Ele era jovem demais para perceber as diferenças entre ele e seus irmãos de criação e entender algo de hierarquia social. Ele cresceu ao lado de Cat, Lysa e Edmure como iguais.
Os Tully eram sua família e Correrrio era sua casa.
Vemos o quão influente a criação foi no relacionamento de Ned e Robert. Eles estavam mais próximos um do outro do que seus irmãos verdadeiros, e os dois encaravam Jon Arryn como pai.
Hoster era uma figura paterna para Petyr, e ele foi criado pelas palavras Família, Dever e Honra. Ele cresceu em um castelo idealizado, sonhando com cavaleiros das canções e amor verdadeiro, muito parecido com Sansa.
Até Peixe Negro era como um tio:
E no entanto, durante todos os anos de infância e juventude, foi Brynden, o Peixe Negro, que os filhos de Hoster procuraram com suas lágrimas e suas histórias, quando o pai estava muito ocupado ou a mãe doente demais. Catelyn, Lysa, Edmure… e, sim, até mesmo Petyr Baelish, o protegido do pai deles… Escutara-os a todos pacientemente, tal como a escutava agora, rindo de seus triunfos e solidarizando-se com seus infantis infortúnios.
(AGOT, Catelyn VI)
Quando ele e os Tully ficaram mais velhos, no entanto, as diferenças entre acabaram sendo evidentes.
Petyr, que veio do menor dos Dedos do Vale, ganhou o apelido de Mindinho, um lembrete constante de suas origens humildes, propriedades pobres e nascimento baixo.
No entanto, ele aspirava ser um Tully, como foi criado para ser. Ele era idealista e amoroso, e, apesar do apelido, acreditava que poderia superar seu baixo nascimento. Não era como se ele tivesse escolhido nascer filho de um senhor pobre. O que tornava um homem melhor do que outro, simplesmente por nascer de uma casa diferente? Aos seus olhos, nada.
Eventualmente, à medida que as crianças cresceram, as coisas começaram a mudar. Ele, Cat e Lysa brincavam de beijar, como crianças curiosas costumam fazer, e Petyr acabou desenvolvendo sentimentos por sua irmã adotiva, Catelyn Tully.
Ele se apaixonou por ela e, mais tarde, quando os senhores Bracken e Blackwood vieram visitar Correrrio, ele e Cat passaram a noite dançando. Petyr e Edmure ficaram bêbados naquela mesma noite e ele tentou beijar Cat. Quando ela rejeitou seus avanços, vemos como ele ficou arrasado aqui:
e Petyr tentou beijar a sua mãe, mas ela o afastou. Riu dele. Ele pareceu tão magoado que eu achei que o meu coração fosse estourar, e depois bebeu até perder os sentidos em cima da mesa. Tio Brynden levou-o para a cama antes que meu pai o encontrasse naquele estado.
(ASOS, Sansa VII)
Foi quando ele foi estuprado por sua outra irmã adotiva, Lysa Tully. Ele foi arrastado para a cama, bêbado demais para andar, muito menos para dar consentimento. Lysa então entrou em seu quarto e o confortou. Um jovem Petyr, em sua confusão bêbada, acreditava que ela era Cat e confessou seu amor por ela.
Lysa acabou engravidando desse encontro, algo que abordarei um pouco mais adiante.
Alguns meses depois, quando Petyr tinha apenas 14 anos, ele descobriu que Cat se casaria com Brandon Stark, de 20 anos.
Agora, tente imaginar as coisas da perspectiva de Petyr. Ele ama Catelyn, e devido ao seu encontro bêbado com Lysa, crendo que ela era Cat, acreditava que ela também o ama. Agora aqui vem este homem mais velho do Norte selvagem, conhecido como o lobo selvagem de sangue quente, para roubar Cat contra sua vontade. Foi um casamento arranjado, e até sabemos que Catelyn não amava Brandon, mas estava simplesmente cumprindo seu dever.
Bem, Petyr foi criado pelas palavras Família, Dever e Honra. A família vem antes do dever, e Cat não era apenas sua família, mas a família que ele acreditava erroneamente que o amava como ele a amava. Ele acreditava que tirara a virgindade de Cat e, portanto, tinha que proteger sua honra.
Então, ele fez o que achava certo e desafiou Brandon - apesar da grande diferença de idade e da capacidade física - a um duelo tanto por Cat, quanto por ele mesmo.
Antes do duelo, Petyr pediu a Cat seu favor, ainda acreditando que ela o amava. Como sabemos, ela o recusou e deu a Brandon, pois era seu dever. E Edmure, o garoto com quem havia sido criado como irmão, se ofereceu para ser o escudeiro de Brandon. Dois de seus familiares mais próximos, a quem ele amava, escolheram um estranho a ele, e ainda assim ele lutou.
Aquela luta terminara quase tão depressa como começara. Brandon era um homem-feito, e empurrou Mindinho ao longo de toda a muralha e pela escada da água abaixo, fazendo chover aço sobre ele a cada passo, até deixá-lo cambaleando e sangrando de uma dúzia de ferimentos. “Renda-se!”, ele gritou, mais de uma vez, mas Petyr limitara-se a balançar a cabeça e continuou lutando, carrancudo. Quando o rio já lhes batia nos tornozelos, Brandon finalmente acabou com a luta, com um golpe brutal dado por trás que cortou a malha e o couro de Petyr e se enterrou na carne mole sob suas costelas, tão profundamente que Catelyn teve certeza de que a ferida era mortal. Ele a olhara ao cair e murmurara “Cat”, enquanto o sangue vermelho vivo brotava por entre os dedos recobertos de cota de malha. Catelyn julgara que tivesse esquecido aquilo.
(AGOT, Catelyn VII)
Apesar de ter sido espancado quase até a morte, Petyr nunca desistiu de tentar salvar a mulher que amava. Ele era idealista e sonhador, novamente, exatamente como Sansa.
Esse duelo foi a última vez que ele viu o rosto de Cat (até o começo da história dos livros). Ele enviou uma carta para ela depois, mas ela apenas a queimou sem ler.
Ele ficou tão machucado que não podia andar nem montar a cavalo, e, mesmo assim, o homem que ele via como pai o expulsou de sua casa em uma ninhada liteira antes mesmo de estar completamente curado.
Mas o duelo foi realmente a razão disso?
Gostaria de passar a vida naquela costa desolada, rodeada de mulheres porcas e cocozinhos de ovelha? Era isso que meu pai queria para Petyr. Todo mundo pensou que foi por causa daquele estúpido duelo com Brandon Stark, mas não é verdade.
(ASOS, Sansa VII)
Hoster descobriu a gravidez e providenciou o aborto da criança.
O pai disse que eu devia agradecer aos deuses por um senhor tão grande como Jon Arryn estar disposto a me aceitar manchada, mas eu sabia que era só por causa das espadas. Tinha de me casar com Jon, senão meu pai iria me expulsar como fez com o irmão, mas era a Petyr que eu estava destinada. Estou lhe contando isso tudo para que compreenda como nos amamos um ao outro, quanto tempo sofremos e sonhamos um com o outro. Fizemos juntos um bebê, um precioso bebezinho. – Lysa encostou as mãos na barriga, como se a criança ainda estivesse ali. – Quando o roubaram de mim, prometi a mim mesma que nunca deixaria que voltasse a acontecer.
(ASOS, Sansa VII)
Petyr perdeu sua família e sua casa por engravidar Lysa, depois que ela o estuprou.
De uma só vez, enquanto estava à beira da morte, Petyr perdeu a mulher que amava, sua irmã adotiva, seu tio adotivo, foi traído por seu irmão adotivo, foi expulso de sua casa pelo homem que via como pai. Ele perdeu tudo o que já havia conhecido ou amado. E por que? Por tentar fazer o que ele achava certo e por seguir os ideais com os quais foi criado como Tully.
Todo mundo acredita que seus problemas decorrem de seu amor não correspondido a Cat, mas é muito mais profundo do que isso. Ele perdeu tudo e foi banido do único lugar ao qual sentia que pertencia.
Essa perda devastadora do mundo acaba transformando o Petyr idealista em Mindinho, mas Mindinho é uma máscara necessária.
Petyr Baelish é um herói. Sua história é o conto clássico do oprimido lutando contra a elite corrupta. Um garoto pobre e humilde, pequeno em estatura e desprezado a vida inteira. O amor de sua vida foi arracando dele contra seus desejos por um homem mais poderoso e rico. Um homem que pertencia a uma casa selvagem do norte que detém o domínio de mais de dois terços de Westeros.
Depois que ele testemunha a natureza feia da cultura Westerosi e o sistema que a governa, o jovem Petyr Baelish decide minar e destruir o sistema social distorcido que favorece o nascimento e a crueldade acima do mérito e da bondade.
Através de muito trabalho e planejamento cuidadoso, ele sobe a escada social passo a passo, enfrentando uma elite de classes mais altas muito mais afortunada do que ele.
Uma verdadeira réplica de Davi vs. Golias.
Petyr Baelish, como o clássico herói dos contos de fadas, acaba por acabar com o malvado rei Joffrey.
O próprio Joffrey é uma pura manifestação de quão falho é realmente o sistema Westerosi. Ele representa tudo o que Petyr Baelish despreza. Ele era uma criança cruel e incompetente, mas foi colocado no comando de todo o reino simplesmente por ser seu "direito de nascença".
Enquanto haja um sistema que permita que isso aconteça, o reino nunca poderá realmente prosperar. Um líder deve ser alguém que conquiste sua posição, não alguém que simplesmente tenha o direito a ela.
E assim todo o sistema deve ser destruído e reconstruído.
Esse fardo é pesado, mas alguém precisa dar um passo à frente e suportá-lo. Alguém tem que mudar a maneira como as coisas são, porque simplesmente não podem continuar como estão. Será difícil, haverá sacrifício, inocentes sofrerão no processo, e o homem que carrega esse fardo pode ter que abrir mão de sua própria alma para seguir em frente, mas esse é o preço de um mundo melhor, e Petyr Baelish está pagando. Para todos nós.
Petyr Baelish é o Proxeneta Que Foi Prometido e o verdadeiro herói de As Crônicas de Gelo e Fogo.
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2020.04.27 10:52 mptrzz Quero que meus pais se divorciem.

Mal posso imaginar a dor que muita gente passa por consequência de divórcio. Mas minha mãe merece uma vida MUITO melhor.
Vamos do começo... Tenho 24 anos e ainda moro com meus pais. Acredito que é porque desperdicei boa parte da minha juventude (em que eu poderia ter investido no meu futuro) com festas, rolês, maconha e álcool.
Aliás, meus pais são alcoólatras. Não aquele estereótipo de dar barraco todo dia, dormir na sarjeta, etc. Mas ainda muito tóxico. Certeza que isso me influenciou a entrar cedo no alcoolismo. E parei de beber após tentar me suicidar com um coma alcoólico em 2016.
Após isso, conheci minha atual namorada e coloquei minha vida nos trilhos. Isso me deu extrema clareza e hoje vejo tudo que há de errado.
Meus pais e eu nunca dialogamos bem, sempre cada um no seu mundinho particular. Mas isso piorou muito quando entre 2014-2015 minha mãe decidiu cuidar (na maioria das vezes sozinha) dos meus avós (pais dela) devido a doenças degenerativas.
O baque de assistir meus avós adoecendo somado a vida nada saudável que eu vivia foi o que acarretou a minha depressão. Mas o que eu sofria por empatia, meu pai sofria por egoísmo.
Meu pai sempre quer que ele seja a prioridade, se impõe como chefe/lídesuperior, mas quem trabalha e paga as contas é minha mãe que, por outro lado é extremamente passiva. Mesmo ela ralando pra lidar com os cuidados dos meus avós simultaneamente com o emprego, ainda se sentia na obrigação de lidar com a carência do meu pai.
Durante esse período doloroso que passou com o falecimento dos meus avós (agora entre 2019-2020), meu pai só deu trabalho. Minha mãe justificativa o alcoolismo dela com a necessidade de um tempo pra relaxar, mas ele não precisava de justificativa, passava dos limites todos os dias. Tanto que quase morreu de diabetes por tanto beber. Mas não aprendeu a lição, pois continua passando dos limites.
Durante esse período, ele teve diversos episódios de agressividade, mas sem agressão física e só durante a bebedeira porque ele é um covarde bundão.
Minha mãe é tão passiva e se encontra num relacionamento tão abusivo que em um desses episódios ela começou a chorar implorando pra mim que eu não chamasse a polícia pra ele pois ela tem medo do que "os outros" (seja lá quem são) vão pensar.
Hoje em dia com a quarentena ela tá passando mais tempo com ele do que jamais passou. E ela transparece muito fácil o quanto está detestando. Mas jamais admite.
Foda, né? Minha mãe é uma mulher incrível, inteligente, linda, trabalhadora, carinhosa, mas muito passiva. Eu converso com ela, tento introduzir ela ao feminismo, tento fazer ela enxergar que ela merece uma vida MUITO melhor, mas ela insiste em fingir que tá tudo bem.
É errado desejar tanto assim que ela se divorcie dele? Sei que é meu pai e que no fundo ele me ama do seu jeito, apesar de tudo. E que, no geral, ele tem problemas psicológicos tratáveis. Mas eu já perdi a esperança de que algum dia ele busque ajuda ou se cuide. Porém, na minha mãe tenho toda a esperança do mundo e torço e luto todo dia por uma vida melhor pra ela.
Alguma sugestão de como alcançar isso? Qual a sua opinião?
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2020.04.21 03:59 CasaGolden Hodor Cavalo – Eddard XV, A Guerra dos Tronos

O Rei morreu e a Mão foi enterrada
Após fracassar no plano de tomar a regência pra si e convocar Stannis Baratheon para tomar seu lugar como novo Rei, Ned Stark foi jogado nas celas negras da Fortaleza Vermelha, terceiro piso do subsolo do castelo de Maegor. Na total escuridão, não lhe dão comida, balde para as necessidades da natureza, leite de papoula para dor e muito menos cuidam dos curativos da perna quebrada. O velho lobo pragueja a todos que contribuíram para a sua desgraça, mas acima de tudo, ele culpa a si mesmo.
“Maldizia-os a todos: Mindinho, Janos Slynt e seus homens, a rainha, o Regicida, Pycelle, Varys e Sor Barristan, até Lorde Renly, do próprio sangue de Robert, que fugira quando era mais necessário. Mas, no fim das contas, culpava-se a si mesmo.
– Estúpido – gritou para a escuridão –, três vezes maldito, cego e estúpido. (Eddard XV, AGOT)
Quando todos os risos morreram
Começando a perder a sanidade, memórias vívidas de seu passado jovem retornam. Ele lembra de Robert quanto este estava na flor da juventude e a quem amava como um irmão. Recorda do grande Torneio de Harrenhal que foi realizado no Ano da Falsa Primavera quando Jaime Lannister, o Jovem Leão, se juntou a Guarda Real; se lembra quando o príncipe Rhaegar Targaryen, campeão nas justas, depositou a guirlanda de Rainha do Amor e da Beleza no colo de Lyanna Stark, humilhando sua esposa Elia Martell e causando choque em todos os presentes.
Ned Stark estendeu a mão para agarrar a coroa de flores, mas sob as pétalas azul-claras estavam escondidos espinhos. Sentiu-os penetrar-lhe a pele, aguçados e cruéis, viu o lento fio de sangue correr por seus dedos e acordou, tremendo, na escuridão.
Prometa-me, Ned, sussurrara a irmã de sua cama de sangue. Ela adorava o odor de rosas de inverno.
– Que os deuses me salvem – chorou Ned. – Estou enlouquecendo.
Os deuses não se dignaram a responder. (Eddard XV, AGOT)
Castelos de Esperança
Ned Stark fica imaginando as maneiras que ele poderia ser salvo daquelas condições,
"Os irmãos de Robert andavam pelo mundo, recrutando exércitos em Pedra do Dragão e em Ponta Tempestade. Alyn e Harwin regressariam a Porto Real com o resto de sua guarda depois de tratarem de Sor Gregor. Catelyn rebelaria o Norte quando as notícias lhe chegassem, e os senhores do rio, da montanha e do Vale se juntariam a ela." (Eddard XV, AGOT)
A visita do Mago
Quando menos esperava, o Stark recebe uma visita inusitada, trata-se de Varys, o aranha, com um disfarce de carcereiro que ele usa há anos para visitar as celas sem ser descoberto. Varys diz que protegeu Robert dos inimigos, mas não conseguiu proteger dos amigos. O eunuco pergunta o que levou Eddard a fazer decisões ruins como contar a Cersei sobre o incesto e recusar a oferta de Renly, o que deixa o prisioneiro chocado. Varys também atualiza as notícias do mundo. Por fim, Ned Stark é avisado da visita de Cersei Lannister, que irá oferecer a ele vestir o negro, desde que confesse sua traição. Ned recusa de primeira, dizendo que sua vida não é muito importante, mas Varys diz que é melhor ele pensar a respeito, não antes de alfinetar o lobo sobre seus jogos de Lorde.
Se isso for verdade, Lorde Eddard, diga-me… por que são sempre os inocentes a sofrer mais, quando vocês, os grandes senhores, jogam o seu jogo dos tronos? Pense sobre isso, se quiser, enquanto espera a rainha. Mas guarde também um pensamento: o visitante seguinte poderá trazer pão, queijo e leite de papoula para as suas dores… ou a cabeça de Sansa. A escolha, meu caro senhor Mão, é inteiramente sua. (Eddard XV, AGOT)
How I Met Your Mother
Quando Varys diz que Ned poderia passar o resto da vida na Muralha com seu irmão Benjen e seu filho ilegítimo, o Eddard tem outra grande pontada de lamentação.
Pensar em Jon encheu Ned com um sentimento de vergonha e uma mágoa profunda demais para ser expressa em palavras. Se ao menos pudesse voltar a vê-lo, sentar-se e falar com ele… (Eddard XV, AGOT)
As meninas comentaram que Ned, naquele momento em especifico, sente o peso de se passar por pai de Jon Snow todos aqueles anos, escondendo a verdade sobre sua mãe e seu pai. Mikannn comentou inclusive que isso poderia lembrar um pouco da cena da série em que Ned se despede do Jon dizendo: "Na próxima vez que nos vermos, falaremos sobre sua mãe."
Comentários
“É um capítulo muito especial pra mim. É o Ned refletindo sobre as escolhas que ele fez em vida.”
“É um capítulo de fechamento. O doido é que quando você lê, não parece que é de fechamento, é ele fazendo uma escolha, ele vai confessar e no próximo capítulo você vê o desdobramento disso.”
“É, o capítulo da uma certa esperança, coisa que o George R.R. Martin adora fazer, e depois você fica mais chateado ainda. Então talvez isso seja preparação de terreno pras próximas mortes, quando um personagem fica refletindo muito, talvez ele vá morrer. (Mikannn e Flávia, 13min 21seg)
“Ele tá sendo enterrado de uma maneira bem simbólica, quase como se tivesse sido enterrado vivo. Ele não pode comer, não pode ver luz, ele ganha um pouquinho de água pra ele permanecer vivo suficiente pra continuar sendo enterrado.” (Flávia, 15min 47seg)
Elas também comentaram que o fato do Varys saber de coisas que não deveria e usar disfarces muito bem feitos é um sinal de que ele é uma pessoa muito perigosa.
Mikannn e Flávia acharam Ned um pouco ingênuo a respeito de acreditar que a Catelyn com o Tyrion tudo ia se resolver normalmente, além de acreditar que Beric, Thoros e seus homens conseguiram matar Gregor CLegane. Carol defendeu Ned dizendo que em uma situação daquelas é de se esperar que alguém se agarre com força em todas as possibilidades de esperança.

Perguntas
Um ouvinte perguntou se as meninas acham que no livro Os Ventos do Inverno a questão dos Outros será resolvida e em um Sonho de Primavera seria Westeros pós-Outros resolvendo a briga pelo Trono de Ferro. Como aconteceu na série, em que derrotaram os Outros antes e depois resolveram a questão do trono.
Mikannn acha que no TWOW será estabelecido a questão dos Outros, um lance de "o inverno chegou e vamos ver o que fazer nesse reino fudido", e daí esse conflito e todos os outros só iriam se resolver em ADOS.
Eu pessoalmente acho que vai ser mais ou menos isso também.
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2020.04.03 04:52 altovaliriano Qual é a força de uma herdeira?

Em A Espada Juramentada, presenciamos uma situação inédita até hoje na saga: uma mulher sendo privada de seus direitos como legítima herdeira por força de um testamento elaborado pelo pai.
Rohanne deveria estar casada até segundo aniversário da morte de Wyman ou perderia Fosso Gelado para Wendell. Como comentam Elio Garcia e Linda Antonsson, a situação da Viúva Vermelha é atípica, pois as mulheres em Westeros são consideradas herdeiras por direito próprio. Afinal, em O Festim dos Corvos, vimos que o direito de Cersei a Rochedo Casterly não é contestado por nenhum dos homens na linha de sucessão.
No mesmo livro, o mesmo direito é negado a Asha, mas não há como julgar as tradições de Westeros pela perspectiva dos homens de ferro, que se gabam de ter uma cultura distinta do resto de Westeros. Especialmente quando a decisão do afastamento de seu direito foi decidido em uma Assembléia.
Assim, a situação de Rohanne é única. E a partir dela Antonsson e Garcia observam o quão fraca parece ser a pretensão de uma mulher ao assento de sua família. Antonsson ainda arriscou dizer que pode ser por força das circunstâncias (pós-rebelião Blackfyre), porém eu não consigo concordar, já que Wyman poderia simplesmente nomear Wendell diretamente como seu herdeiro.
Entretanto, a própria Rohanne nos coloca a par do quão incerta é seu controle sobre seus direitos:
Esses concursos para ver quem mija mais longe são como os senhores julgam a força um do outro, e coitado do homem que mostra sua fraqueza. Uma mulher precisa mijar duas vezes mais longe, se espera governar. E se acontece de a mulher ser pequena... Lorde Stackhouse cobiça minha Colina Ferradura, Sor Clifford Conklyn tem uma antiga reivindicação do Lago Frondoso, aqueles tristes Durwell vivem de roubar gado... e sob meu próprio teto tenho Longo Inch. Todo dia eu acordo me perguntando se esse será o dia em que ele se casará comigo à força. – Sua mão apertou a trança com força, tão forte como se fosse uma corda, e ela estivesse pendurada em um precipício. – Ele quer isso, eu sei. Contém-se por medo da minha fúria, assim como Conklyn, Stackhouse e Durwell pisam com cuidado quando se trata da Viúva Vermelha. Se um deles pensar por um momento que me tornei fraca e branda...
(A Espada Juramentada)
A Viúva Vermelha acredita que seu controle se baseia na força, porém os eventos em A Espada Juramentada apontam para um cenário político e jurídico diferente.
Por um lado, Wyman levou as vontades de Rohanne em consideração até a hora de sua morte. Por outro, uma autoridade maior pode ser o que realmente está intimidando os cavaleiros cientes do testamento.
Vejamos:
– O senhor seu pai exigiu isso. Lorde Wyman queria netos para levar sua linhagem adiante. Quando ele adoeceu, tentou casá-la com Longo Inch, para que pudesse morrer sabendo que ela teria um homem forte para protegê-la, mas Rohanne o recusou. Sua senhoria teve sua vingança no testamento. Se ela permanecesse sem se casar até o segundo aniversário da morte do pai, Fosso Gelado passaria para seu primo, Wendell. Talvez você o tenha visto no pátio. Um homem baixo, com um bócio no pescoço, muito dado à flatulência. Embora eu não possa dizer nada sobre isso. Também sou amaldiçoado com excesso de gases. Seja como for, sor Wendell é ganancioso e estúpido, mas a senhora sua esposa é irmã de Lorde Rowan... e abominavelmente fértil, não se pode negar. Ela dá à luz com a mesma frequência que ele peida. Os filhos deles são tão maus quanto ele, as filhas piores, e todos eles começaram a contar os dias. Lorde Rowan confirmou o testamento, então sua senhoria tem só até a próxima lua.
(A Espada Juramentada)
Esta passagem parece revelar que o testamento de Wyman desempenhava um papel mais elevado do que simplesmente forçar Rohanne a se casar. O falecido Lorde Webber, ao deixar um documento com sua última vontade, deveria saber que a validade de seu plano dependeria do aval de seu suserano, Lorde Rowan.
Ao que parece, Lorde Rowan poderia não ter confirmado o testamento e decidido o destino de Fosso Gelado segundo outros parãmetros, mas parece ter aceito bem a ideia de fazer seu cunhado esperar por 2 anos, "contando os dias", por uma recompensa que poderia não chegar. Ou seja, no final, Wyman Webber acabou por fazer Lorde Rowan emprestar sua autoridade para confirmar o poder de Rohanne enquanto ela procurava um marido "forte".
E quanto ao poder de escolha, Wyman parece ter dado algum a Rohanne. Depois de tê-la forçado a alguns casamentos fracassados na juventude, Wyman não a forçou novamente com Longo Inch. Na verdade, o testamento diz que ela deveria estar casada, mas não diz com quem, quando poderia ter dito. Tudo é deixado para Rohanne decidir.
Portanto, onde realmente está a fraqueza de Rohanne?
A fraqueza de Rohanne está no simples fato de que um homem pôde condicioná-lo postumamente. Não é algo que tenhamos ouvido até o momento acontecer com um herdeiro masculino. E Wyman assim fez porque sabia que havia em Westeros uma cultura que aceitaria que ele fizesse isso.
De fato, os homens em volta de Rohanne aceitam a vontade de Wyman e aguardam. Rohanne pode estar impedindo que pessoas tomem seus direitos à força com sua reputação de cruel, mas ela sabe que essa reputação não lhe compraria um minuto a mais de poder depois que o segundo aniversário de morte de seu pai chegasse.
Talvez vejamos este assunto voltar a tona com o testamento de Robb Stark. Mas isso não é assunto para um "Quinta Não-Asoiaf".
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2020.04.02 05:50 Vini_Skinhead Questionamentos a cerca do cristianismo

Valter Moraes Jesus morreu para salvar os pecadores, mas... ressuscitou JH McKenna, professor de História das Ideias Religiosas na Universidade de CA Irvine (EUA), sugeriu algumas simples reflexões que podem levar alguém a questionar a religião e a existência de Deus e, em consequência, se tornar ateu. Seguem 24 dessas reflexões 1 — Se Deus "revela" informações vitais apenas a algumas pessoas, isso mostra uma parcialidade injusta. Se Deus tivesse uma mensagem de salvação para a humanidade, por que ele não a tornou acessível a todos? 2 — Os mandamentos morais de Moisés não eram de modo algum "revelações" porque todas as tribos do planeta haviam chegado milênios antes a essas regras. 3 — Se Deus falou para o mundo, todos os cristãos estão convencidos da clareza e objetivo de suas palavras. Mas o que se tem é a discordância entre inúmeras seitas. As palavras de Deus existem para semear a paz ou a discórdia? 4 — Jesus como "filho de Deus" é tão suspeito como todos os outros "filhos de Deus" antigos cujas mães foram impregnadas por um ente divino. A propagação desse mito era comum no tempo em que o cristianismo surgiu e o cristianismo simplesmente o adotou. 5 — Nenhum sistema de justiça pode aceitar a morte de um inocente para salvar um culpado, o que significa que a crucificação de Jesus não é uma ideia moral. 6 — Se Jesus veio à Terra para 'sofrer' por nossos pecados, então ele deveria ter vivido muito tempo para passar por mais agruras. Ele deveria ter suportado uma doença incapacitante por dez anos, por exemplo. Deveria ter contraído demência. Deveria ter morrido de angústia mental e física aos 93 anos, não com 33. Em vez disso, Jesus morreu no auge de sua juventude e, depois de sofrer por três horas em uma tarde de sexta-feira, voltou para o paraíso. Ao longo do tempo, milhões de pessoas vêm sofrendo mais do que Jesus. E muitas delas aceitariam morrer jovens se soubessem que voltariam à vida três dias depois com fama, vida eterna e lugar garantido no paraíso. 7 — Se o propósito de Jesus era "morrer" pela humanidade, não faria diferença a causa de sua morte. Ele poderia ter morrido de varíola, de dengue ou ter dado uma escorregada fatal em uma casca de banana. 8 — Deus levou apenas seis dias para criar o universo. Por que ele não pode salvar a humanidade de uma só vez em uma semana? Milhares de anos precederam Jesus e ainda a maioria das pessoas não foi salva. 9 — Se Deus é tão poderoso como relata a Bíblia, por que ele ficou cansado com apenas seis dias de trabalho? 10 — Se Jesus tivesse a intenção de iniciar um novo sistema religioso, ele o teria escrito durante sua vida, como dezenas de profetas judeus anteriores. 11 — Jesus não praticava o que dizia: não amava seus inimigos e os repreendia com uma amargura injustificada. 12 — Um castigo eterno e atormentador sem reabilitação para os infratores é talvez a ideia mais imoral que alguém pode conceber E, no entanto, Jesus pregou o inferno. 13 — Como a maioria das pessoas que já viveram não foi cristã, ela foi para o inferno — e assim Satanás já ganhou a guerra contra Deus. 14 — Um plano de salvação que consiga salvar apenas uma pequena fração da raça humana é um plano de resgate fracassado. 15 — Há muitas discrepâncias nos evangelhos, como as histórias distintas sobre a ressurreição de Jesus. Quem afinal foi colocado no sepulcro? Quantos anjos estavam lá? O que os anjos estavam fazendo? Quem viu Jesus primeiro? Quando e onde Jesus apareceu pela primeira vez aos seus discípulos após ter ressuscitado? Onde Jesus subiu ao céu? Cada um dos quatro evangelhos tem informação diferente entre si para essas questões. Assim, como é possível dar um mínimo de crédito à Bíblia? 16 — José não teve nem um pouco de ciúmes quando soube que sua mulher foi impregnada por um fantasma? José, afinal, tinha sentimentos de humanos. Ou não? 17 — Como Maria, uma mulher casada já há algum tempo, podia continuar sendo virgem? José era impotente? A Bíblia não explica. 18 — Por que Deus não criou com barro uma mulher para ele, em vez de botar chifres em José? A atitude de Deus não se sustenta moralmente. 19 — Por que Judas e Pilatos não são considerados santos considerando que eles foram os responsáveis diretos pela morte salvadora de Jesus? Por que não há nas igrejas estátuas dos dois? 20 — Cristianismo diz que houve uma guerra no céu entre a turma de Satanás e os anjos de Deus. Como pode haver guerra entre seres sobrenaturais que não podem ser feridos e que não sangram? 21 — Se anjos pecaram no céu, como Satanás e seus rebeldes, os humanos não poderão fazer o mesmo quando chegarem lá? 22 — O que determina a religião das pessoas é a geografia. Quem nasce no Brasil, por exemplo, tende fortemente a ser cristão porque a grande maioria da população é cristã. Por isso, é justo que bilhões de chineses, para pegar só um caso, sejam mandados por Deus para o inferno porque em seu país praticamente não existe o cristianismo? 23 — Sem doutrinar crianças, poucas pessoas adotariam uma religião. As crianças se tornam crentes por intermédio de lavagem cerebral feita pelos seus pais e sociedade. Isso é justo? 24 — Teístas lutaram contra teístas até a morte por milhares de anos. Mas homens da ciência não lutam entre si. Exemplo: químicos não matam botânicos ou astrônomos não assassinam geólogos. 25 — O salmista que escreveu que "só um tolo diz em seu coração que não há Deus" quis dizer na verdade que "só um tolo não tem medo de anunciar sua incredulidade, em vez de guardá-la em segredo em seu coração". Com tradução para o português e síntese feitas por este site de texto publicado no Huffington Post. PEGUEI O TEXTO DE UM COMENTÁRIO NO FACEBOOK, NÃO SOU O DONO DELE, NEM O CARA QUE COMENTOU É, POREM ACHEI BONS QUESTIONAMENTOS.
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2020.02.17 04:00 altovaliriano Barristan Selmy

Mais uma vez atrasado. O “sábado de personagens” já fora do lugar no domingo. Agora entrando na segunda. Mas os finais de semana se tornaram pesadelos logísticos. Então, paciência.
Sugiro ao leitor que dê uma olhada no verbete de Barristan na Wiki Gelo e Fogo e na Wiki of Ice and Fire, pois são fontes bastante completas.
Mas gostaria de deixar aqui, na literalidade, as inscrições sobre Barristan no Livro Branco da Guarda Real (ASOS, Jaime VIII):
Sor Barristan da Casa Selmy. Filho primogênito de Sor Lyonel Selmy de Solar de Colheitas. Serviu como escudeiro de Sor Manfred Swann. Cognominado “o Ousado” no seu 10º ano, quando envergou uma armadura emprestada para surgir como cavaleiro misterioso no torneio em Portonegro, onde foi derrotado e desmascarado por Duncan, o Príncipe das Libélulas. Armado cavaleiro no seu 16º ano pelo Rei Aegon V Targaryen, após realizar grandes feitos de perícia como cavaleiro misterioso no torneio de inverno em Porto Real, derrotando o Príncipe Duncan, o Pequeno, e Sor Duncan, o Alto, Senhor Comandante da Guarda Real. Matou Maelys, o Monstruoso, o último dos Pretendentes Blackfyre, em combate singular durante a Guerra dos Reis de Nove Moedas. Derrotou Lormelle Lança Longa e Cedrik Storm, o Bastardo de Portabrônzea. Nomeado para a Guarda Real no seu 23º ano pelo Senhor Comandante Sor Gerold Hightower. Defendeu a passagem contra todos os desafiantes no torneio da Ponte de Prata. Vencedor do corpo a corpo em Lagoa da Donzela. Levou o Rei Aerys II até lugar seguro durante o Desafio de Valdocaso, apesar de um ferimento de flecha no peito. Vingou o assassinato de seu Irmão Juramentado, Sor Gwayne Gaunt. Salvou a Senhora Jeyne Swann e a sua septã da Irmandade da Mata de Rei, derrotando Simon Toyne e o Cavaleiro Sorridente, e matando o primeiro. No torneio de Vilavelha, derrotou e desmascarou o cavaleiro misterioso Escudo-Negro, revelando-o como o Bastardo de Terraltas. Único campeão no torneio de Lorde Steffon em Ponta Tempestade, onde derrubou Lorde Robert Baratheon, o Príncipe Oberyn Martell, Lorde Leyton Hightower, Lorde Jon Connington, Lorde Jason Mallister e o Príncipe Rhaegar Targaryen. Ferido por flecha, lança e espada na Batalha do Tridente enquanto lutava ao lado de seus Irmãos Juramentados e Rhaegar, Príncipe de Pedra do Dragão. Perdoado e nomeado Senhor Comandante da Guarda Real pelo Rei Robert I Baratheon. Serviu na guarda de honra que trouxe a Senhora Cersei da Casa Lannister para Porto Real, a fim de desposar o Rei Robert. Liderou o ataque contra Velha Wyk durante a Rebelião de Balon Greyjoy. Campeão do torneio em Porto Real, no seu 57º ano. Destituído do serviço pelo Rei Joffrey Baratheon no seu 61º ano, por motivo de idade avançada.

Leituras adicionais no Valiria sobre Barristan

Declarações de GRRM sobre Barristan

Perguntas

  1. Barristan é um narrador não-confiável?
  2. Barristan é um completo tolo para manobras políticas ou ele está evoluindo em Meereen?
  3. Veremos Barristan em algum futuro conto de Dunk & Egg?
  4. Aerys II “desconfiava de qualquer um exceto sua Guarda Real ‒ e nem todos, pois manteve Sor Jaime Lannister por perto o tempo todo para servir com refém contra seu pai” (TWOIAF, A Rebelião de Robert). Aerys confiava em Barristan? Mesmo antes de Valdocaso?
  5. Barristan afirma não ter escolhido servir Viserys porque ele era muito jovem e já exibia a loucura Targaryen. Barristan trairá Daenerys quando ela for acusada de ter essa mesma loucura?
  6. No Tridente, Sor Barristan abateu uma dúzia de bons homens, amigos de Robert” e de Ned (AGOT, Eddard VIII). Ter tornado Barristan o Senhor Comandante da Guarda Real não deu trabalho a Robert e Ned junto às Casas destas pessoas mortas?
  7. Varys sugeriu a demissão de Barristan e foi um dos que a comunicou a Barristan na frente de toda a corte. Varys já cogitava aliciar Barristan e as coisas deram certo pelas via erradas ou Barristan ter chegado à Illyrio foi apenas uma feliz coincidência? Barristan sabe que Illyrio trabalha com Varys?
  8. Os garotos treinados como cavaleiros por Barristan em Meereen (Tumco Lho, Larraq o Chicote, Ovelha Vermelha e três irmãos Ghiscari) tem algum papel futuro a desempenhar na história?
  9. Barristan sempre insitiu que Daenerys fosse direto para Westeros, abandonasse Meereen, aceitasse a proposta de casamento de Quentyn, etc. Estes eram bons conselhos?
  10. Barristan dizer que Daenerys parecia uma filha de Ashara Dayne, uma mulher por quem Selmy nutriu sentimentos na juventude, demonstra que Selmy sente algo por Daenerys?
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2020.02.10 15:30 KNWRV Escrevi esse conto e gostaria de um feedback

O funeral
Na estante de madeira, uma coleção de livros; uma televisão sobre a bancada, lâmpada fosca de tungstênio, ele se encontrava deitado sobre o teclado do computador, semi-desperto, na tela do computador se lia: “A vida e a morte de zdweddddddd...”. José Augusto era escritor, vivia de pequenos contos, algumas traduções aqui e outras ali. Dava pra pagar o pequeno apartamento em que vivia. Não tinha mais companhia, terminara com a namorada, o cachorro Tufão morreu há um mês. Vivia, ainda que mal vivia.
Prim,Prim...Ah! Acordou de sobressalto, era aquele maldito telefone, pra quê pagava aquela linha? Ninguém mais ligava ali, bom mas alguém ligava... Foi caminhando zonzo, no andar dos bêbados. Alô! É da casaa do senhor José Augustoo? – falava como se puxasse a última vogal de algumas palavras ou era a ligação- É sim. Quem fala? É Helena, mulher do Leonardo. Do Leonardo? Como ele tá? Já faz muito tempo que eu falei com ele! É assim...humf,humf... ele saiu dessa para uma melhor- disse entre choramingos. Meu deus. O funeral vai ser hoje à tarde, uma da tarde, seria bom se você aparecesse no funeral, ele pediu que eu te entregasse algo. Eu vou sim, claro que vou- falava estupefato- Tá certo... Tá certo. Funerária Jerusalém. Tá certo.
Morto, defunto, funeral... hoje? Uma hora? Mas como? Quando? Ele tava doente? Por que ele não falou nada? Faz o quê? Cinco anos? Seis? Sentou-se consternado, novamente, em frente do computador. Eram oito horas e trinta minutos, depois dessa mórbida conversa sentiu seu lábio rachado como as terras áridas do deserto, levantou-se da cadeira, a visão ficou turva e sentiu uma certa vertigem. Escuridão, tudo negro... morte? Morte? Não, ainda não. Andou meio bambo até a cozinha, retirou uma vasilha de água da geladeira. Bebeu direto dela, os copos estavam sujos. Funerária Jerusalém. Eu vou ter que pesquisar onde fica. Voltou ao quarto em duas passadas, sentou todo afobado, abriu o navegador, digitou no site de busca: Funerária Jerusalém. Descobriu que ficava na rua Azul do bairro que vivia, eram três quadras de distância, iria a pé, estava decidido.
Preto, é claro! Tem que ir de preto. Não poderia ir com a regata branca amarelada e esburacada na altura das axilas e nem mesmo o short florido que trajava no momento. Saiu do cômodo e voou pelo quarto para o armário. Cadê? Cadê? Aqui. Tirou uma amassada camisa do armário. Eu passo? É tenho que passar, mas primeiro a calça. Cadê? Cadê? Aqui! Pegou uma calça negra, mas com um buraco na parte esquerda da calça. Tem outra? Não, não tem. Droga! Jogou a calça e a camisa na cama. Meias? Precisa de meias pretas? Melhor né? Cadê? Cadê? Não tem, branco é tranquilo, é só a meia, pegou o único tênis que tinha; claramente preto. O tênis estava deplorável, a camisa amassada e a calça furada, mas era o que ele tinha.
Tem que passar a camisa... passo? Eu passo... não pra quê? Ninguém vai reparar, ninguém sabe que José Augusto é apenas um fracassado de quarenta anos, ninguém sabe, nem saberá. Que horas são? Olhou o relógio, já eram doze horas, mas já? Quanto tempo foi perdido nas roupas? Talvez uma fenda o tempo se abriu e me sugou para dentro e eu não percebi? Talvez o preto fosse uma espécie de cor sagrada em que o contato possibilitava romper as barreiras da realidade, os questionamentos fluíam da cabeça de José Augusto tomando forma na realidade, enfim concluía sempre seus pensamentos com um: “Hmm... devo escrever uma história sobre isso”. Já eram doze horas, isso lhe era inegável, ainda que tentasse justificar com ideias de ficção científica. É realmente não dá para passar. Voltou à cozinha; abriu a geladeira, tinha um pequeno prato com um pedaço de carne, pegou a margarina, caminhou até o fogão, ligou-o, chama alta, derramou quase toda a margarina na frigideira, fritou o bife, o boi morto ardia no metal, chiando, o som agudo causava certa irritação em seus ouvidos, levou o dedo ao ouvido, evitando o som que em poucos segundos cessou. Cortou um pedaço de pão velho perdido pela cozinha em uma cesta perto da geladeira, pôs a carne nele, comeu em duas mordidas. Tomo banho? Cheirou-se, não havia odor algum, não, só troco de roupa. Voltou ao quarto, trocou o folgado short que usava pela camisa amassada e a calça rasgada. Era hora de ir ao funeral.
Saiu do apartamento, trancou a porta, desceu as escadas, abriu o pequeno portão. Começou a andar no quarteirão, o sol estava queimando, os prédios mais distantes apareciam em formas distorcidas em meio ao calor como se fossem visões de uma realidade que nunca existira. Passou o primeiro cruzamento; faltavam três; uma velha corcunda vestida com um vestido florido e com cabelos brancos que pareciam brilhar em meio ao sol esperava no segundo cruzamento, ela quer atravessar? Ajudar uma velha, eu sou o quê, um escoteiro? Isso é tão ridículo. José confrontava a ideia de ajudar uma velha a atravessar a rua e não fazer nada, não importava sua escolha ambas aos seus olhos lhe pareciam ridículas, a primeira era algo quase que irreal, algo como um drama de uma história sem sal, típicas do seu trabalho de escritor menor; a segunda porque em nada mudaria o destino das estrelas no universo, uma pequena ação em uma rua tão pequena, nada poderia mudar o significado do mundo, porém alguma ação de José Augusto já havia mudado o universo? Ele pesava ambas com cuidado, agindo com uma balança perfeitamente regrada, ele sentia o que cada uma poderia causar: no fim concluiu que ajudar ou não ajudar não importava.
Quem sabe a primeira me compre um lugar no céu. Acreditava no céu? Isso não se sabe, nem ele sabia disse ao certo. José ia à igreja algumas vezes, sabia decorado alguns salmos, o pai-nosso, a ave-maria, credo e mais algumas, o tempo que passara na Eucaristia e em sua Crisma, lhe fora cansativo, porém internalizara bem os comandos de Dona Susana, mas não chegou a concluir se tinha uma fé verdadeira ou imposta, a verdade que nem ele sabia no que acreditava: às vezes se baseava puramente na ciência outras vezes falava de coisas imateriais e justificava com destino e outras coisas assim. Era um ser curioso, um escritor sem muito valor, mas bastante curioso.
Com as dúvidas na cabeça e o sol sobre a cabeça, ele se aproximou da velha corcunda. Senhora quer ajuda? Obrigado, meu filho.- disse abrindo um sorriso com os dentes amarelos, demarcados pela falta de alguns, entre os buracos parecia haver um fogo que ardia de dentro de seu ser. Ele a pegou em sua mão, a mão era fria, como se ele sentisse a mão do falecido que veria no funeral. Cuidadosamente, primeiro um pé e depois um outro, cuidado com os carros. Senhora, não precisa se apressar, vamos devagar. Isso, devagar. A velha somente ficava calada, mostrando seu sorriso furado e amarelo. Enfim atravessaram a rua, com certa lentidão típica daqueles que atravessam para o outro lado da rua. Largou a mão fria já na calçada, olhou os olhos da velha que mais pareciam tragar toda a luz e não emitir nenhuma, desafiando os princípios físicos e disse: A senhora tem que tomar cuidad... Tá falando com quem otário?! Disse um garoto com boné para trás que passava pela rua.
José Augusto desviou seu olhar para o jovem que passou e depois retornou para onde deveria estar a velha, mas ela já não estava mais lá. Olhou para os quatros cantos, a velha desaparecera em meio ao sol quente daquela quinta-feira. Como poeira naquele asfalto, a velha sumira diante do mundo, levada pelo vento quente. Como era de tentar justificar tudo José Augusto formava pensamentos desconexos para tentar compreender aquela história: foi o sol, ele pensava, o calor muda a visão e a realidade, apenas pode ser isso, assim como os prédios distorcidos, a velha não passava de uma distorção da realidade, existem algumas teorias físicas que apontam distorções do espaço-tempo, talvez a velha fosse uma extensão dessas distorções, pensava com a cabeça de um físico teórico. Continuou andando pelas cimentadas ruas, o sol queimava, mas ainda andava com passos firmes, formulando outras teorias sobre as distorções do continuum espaço-tempo. Absorto nessas ideias, ele não percebeu que apesar do sol incidir obliquamente sobre seu corpo, ele não tinha sombra, um fato muito mais curioso, haja visto que a velha caminhava logo atrás dele, sem nenhum som, ou seja seu desaparecimento não valia a pena ser investigado porque já reaparecera. Sob o sol forte, ele, enfim, chegou em frente à funerária, uma casa azul, com algumas flores amarelas na entrada e uma árvore murcha. José entrou fazendo o sinal da cruz.
“José”. Helena, há quanto tempo; Helena usava a típica roupa de viúva; negra, usava um véu sobre a cabeça branco que destoava, mas era o mais típica possível. Havia dois vasos com flores vermelhas na sala, no caixão do defunto, mais flores vermelhas e ao redor vários olhos vermelhos e inchados de choro. Perto do caixão estava a mesma velha corcunda do vestido florido, ela abriu o mesmo desdentado sorriso amarelo e José Augusto atônico, desviou o olhar das chamas que ardiam entres os furos de seu sorriso. O que foi José? Parece que viu um fantasma. Não é nada... não é nada, Helena. Ela tinha o nariz e os olhos verdes avermelhados, possivelmente do choro, pensava José. A idade não havia sido severa com Helena, ela ainda continuava bonita quando nos tempos da juventude. Ela um tanto apressada, com medo de não ter outra oportunidade, ela tirou do bolso uma pequena foto e disse: José, o Leonardo pediu para eu te entregar. Ela então entregou a foto amarelada: José e Leonardo jovens, em tempos de faculdade, sentados sobre o capô de um gol branco, José ria e Leonardo sorria olhando para baixo, o sol incidia sobre o vidro e aquele momento ficou capturado como uma alegre lembrança. Bons tempos, do que será que ele morreu? Eu pergunto? É rápido...ele olhou o nariz vermelho e subitamente sua coragem cedera, não, não pergunto, do que adianta saber, em que isso mudaria a situação?
Ele nunca me contou o porquê de vocês terem brigado, disse Helena com um certo tom de inocência na voz revelando seu inerente desejo de saber o porquê de tão bons amigos terem parado de se falar repentinamente, faz tanto tempo- disse lentamente José Augusto- eu nem lembro o motivo... eu devia ter pedido desculpas, ele olhava para os azulejos à portuguesa do chão. Ele também deveria, disse Helena abrindo um sorriso de complacência, sabendo da personalidade cabeça-dura de seu finado marido. Eles se despediram de uma forma silenciosa, Helena foi receber outros que chegavam, José sentou na cadeira de plástico bamba do canto esquerdo, com a foto na mão direita, que manuseava incessantemente entre os dedos, ele olhava fixamente para o caixão, assim como para a velha. Permaneceu sentando no canto por longos trinta minutos, alheio ao mundo; revivendo o garoto solitário que ficou amigo do garoto popular, dos jovens na faculdade, das alegres brincadeiras e queria lembrar o motivo da briga, mas não lembrava, fixava os olhos cansados sobre a foto, esquecera da velha por um momento, tentava lembrar com todas as suas forças o motivo da briga, mas não lembrava. Revisitando suas diáfanas memórias de amizade e juventude, dos namoros e diversões, de seu melhor amigo improvável, fez com que escorresse, por sua face que já enrugava, uma lágrima, somente uma, mas uma escorreu.
Levantou-se, foi-se embora lentamente, sem ninguém perceber, abriu a porta e saiu da funerária, também fazendo o sinal da cruz. A velha do sorriso amarelo o acompanhou; passou pela árvore murcha e as flores da entrada, sob o sol ainda fervente, voltou ao seu apartamento, alheio ao mundo, despercebendo as mudanças que os prédios sofriam, deixando a forma de prismas retos, para uma forma arredondada e curvada. A velha corcunda que o acompanhava, fazia o papel de sua sombra que inexplicavelmente sumira. José Augusto normalmente iria criar teorias científicas, filosóficas ou qualquer outro motivo para aqueles momentos, porém absorvido no passado que revivia em lembranças não pensava nisso, abriu a porta do seu apartamento que rangeu como um último grito de um moribundo, sentia em seu peito uma necessidade de escrever, sem trocar a roupa, comer ou beber água, encaminhou-se ao escritório, colocou a foto em cima da bancada, sentou em frente ao computador, a velha do sorriso amarelo ficara no canto do cômodo observando-o trabalhar, o seu sorriso era cada vez mais macabro, mas o escritor nada notava, apenas digitava, tudo que sentira naquela revisitação de suas memórias. José Augusto escrevera, até o anoitecer e além, o livro de sua vida: “Duas vozes”, a lua já estava alta e as estrelas cantavam, sentiu um grande sono e caiu sobre o teclado dormindo, com um sorriso escancarado, reconhecendo que escrevera uma obra digna de autores como Proust, Machado e Joyce, quem sabe estaria ele ao lado deles, após aquele livro.
A velha aproximou-se, deu-lhe um abraço e trouxe um pequeno cobertor do quarto para José, por uma última vez ela abriu o sorriso amarelo: É uma história bonita. Parabéns, José Augusto. Disse com sua voz fria e profunda que ecoava em uníssono com o silêncio do quarto frio.
“Duas vozes” virou um sucesso, falava-se dela nas ruas, na tevê, ganhara a aclamação de crítica e público, suas passagens eram recitadas por jovens e velhos e até sua abertura, que para os leitores era tão icônica, virou frase de para-choque de caminhão e tatuagens na pele de muitos que nunca viram o rosto de José Augusto, a frase era mais ou menos assim: “Cuide de suas lembranças, elas são o cemitério que você leva na cabeça”.
“Duas vozes” era claramente uma versão poética de sua amizade com Leonardo e todas as aventuras de infância, juventude e maturidade pelas quais passaram. Os críticos que a aclamaram depois, perceberam facilmente essa criação poética das lembranças e suas semelhanças com a realidade. Assim como destacam que foi escrita na quente quinta-feira do funeral de Leonardo e da morte de José Augusto.
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2020.01.28 15:31 Charles_Bronsonaro Finlandês responde: Qual é a diferença entre o socialismo nos países nórdicos e na Venezuela?

Eu sou um finlandês, eu posso responder essa questão de cabo a rabo. Do nosso ponto de vista essa pergunta é um insulto, mas eu acredito que você não queria nos insultar, então eu vou lhe perdoar.
Na história dos países nórdicos (Suécia, Finlândia, Noruega, Dinamarca e Islândia), houve duas tentativas de implantação do socialismo: em 1918 e 1939–1944. Vamos dar uma passada por esses eventos pra melhor entender como nós nos sentimos com relação ao socialismo, e depois eu vou escrever sobre alguns fatores que permitiram um fortalecimento das economias nórdicas, até o que elas são hoje em dia.
Assim que a Finlândia declarou a sua independência em dezembro de 1917, eclodiu a guerra civil finlandesa entre os brancos e os vermelhos, em janeiro de 1918. Os brancos eram liderados pelo Senado finlandês, já os vermelhos eram alguns esquerdistas finlandeses sustentados e abastecidos de armas pela União Soviética. Os vermelhos queriam trazer o socialismo para a Finlândia, mas os brancos - isto é, o exército finlandês de fato - venceram e o país continuou como uma democracia ocidental.
Na segunda tentativa, a União Soviética atacou a Finlândia em novembro de 1939, no que ficou conhecido como a guerra de inverno. A Sociedade das Nações, precursora das Nações Unidas, considerou o ataque ilegal e expulsou a União Soviética da organização.
O plano do exército vermelho era tomar a Finlândia em algumas poucas semanas, começando com uma declaração de guerra e um ataque massivo. Os finlandeses se defenderam com todas as suas forças e o país jamais foi ocupado. A Finlândia, entretanto, perdeu partes da Carélia, Salla, Kuusamo e Petsamo para a União Soviética. Essas áreas, que foram anexadas à URSS, converteram-se ao socialismo e foram transformadas de lugares ricos para a pobreza.
Os arquivos da União Soviética depois revelaram os planos da União Soviética para o conjunto de operações do noroeste em 1939–1944. Os políticos decidiram que deveriam tomar as terras dos outros países. Isso é socialismo, e é contrário a qualquer código moral.
Eu acredito que você não quis perguntar a respeito dessas pequenas interferências do socialismo na nossa história, em vez disso, você quis saber o modelo nórdico de estado de bem estar social. A diferença deve ser cristalina:
No socialismo, os meios de produção, como as terras e as fábricas devem ser de propriedade coletiva, normalmente do Estado. Socialismo quer dizer confiscar as propriedades das pessoas. Aqui, entre os nórdicos, nós chamamos isso de roubo e é ilegal.
Entre os países nórdicos, nós escolhemos um caminho bem diferente, promover os direitos humanos individuais e o bem estar social. No nosso modelo, nós investimos em duas áreas: educação e assistência à saúde. Nenhuma delas tem nada que ver com socialismo.
Então eu vou mudar a questão para: por que é que o modelo nórdico é tão exitoso?
A resposta é: porque o retorno sobre o investimento em educação e saúde é alto. Os nórdicos criaram um ciclo virtuoso: crianças saudáveis + boa educação -> empresas inovadoras e lucrativas -> contratar novas pessoas -> pagar melhores salários -> arrecadar mais imposto de renda -> arrecadação para manter um bom nível de educação e de assistência à saúde.
Eu vejo a Finlândia e outros países nórdicos investirem continuamente no futuro; educar as novas gerações; cuidar da saúde; empoderar novos negócios.
Você usou a expressão "incrivelmente exitoso". Eu diria o mesmo, mas de uma maneira mais precisa. Nós finlandeses somos uma gente modesta, então eu vou apenas listar alguns rankings mundialmente aceitos.
A Finlândia tem uma das maiores rendas per capita do mundo. Além disso, o país está entre os primeiros em várias métricas de desempenho comparativo entre países, desde educação, competitividade e liberdades civis, como:
Esses feitos não vieram de graça. Você não pode ter um PIB alto e um bem estar social sem empresas lucrativas pra pagar os impostos. Qual é a fonte de renda dos países nórdicos? Bom, cada país nórdico tem a sua história a respeito.
Conforme um dos requisitos do acordo de paz, a Finlândia teve que pagar reparações de guerra no valor de cinco bilhões de dólares em valores atuais para a União Soviética. Então, para entregar dezenas de milhares de máquinas, locomotivas e navios no período entre 1944 e 1952, a Finlândia agrária precisou se industrializar rápido. Desde aquela época, o país se escorou em inovações tecnológicas. Você pode dar uma olhada no índice global de inovação, dois países nórdicos estão entre os cinco primeiros países: a Suécia e a Finlândia. Essas inovação catalizaram novos ramos de negócio, por exemplo: a indústria naval entre as décadas de cinquenta e sessenta, a de telefones celulares entre as décadas de oitenta e noventa e a de jogos para telefones móveis entre as décadas de 2000 e 2010.
Vamos pensar em escala agora de uma maneira mais concreta: a Finlândia é um país pequenininho, de apenas cinco milhões de habitantes. Entretanto, nada mais nada menos que 60% dos navios quebra-gelo foram construídos no país. Em 2016 a participação da Finlândia no total de receitas de 35 bilhões do negócio de jogos para celular foi de 7%. Entre alguns jogos bem famosos desenvolvidos na Finlândia estão: Angry Birds, Boom Beach e Best Fiends.
Na Suécia, eles também são muito bons na criação de novos modelos de negócio globais, como os da Ikea e do Spotify.
O modelo nórdico não quer dizer um apetite por empresas estatais. Ao redor do mundo, muitos países têm os serviços ferroviário e de correios nas mãos do estado. Os países nórdicos, por um outro lado, os privatizaram. Sim, isso diminuiu a qualidade do serviço e causou aumentos nos preços, mas mesmo assim não iremos voltar atrás. Na competição global valem as regras da economia de mercado. Quanto mais nós jogarmos por essas mesmas regras, mais chance teremos de vencermos.
Uma vez que somos países pequenos, nós aprendemos a perseguir sempre a cooperação, para que possamos inclusive sobreviver. Vamos dar uma olhada em um case de negócios.
No final da década de setenta, as operadores de telefonia dos países nórdicos se reuniram e especificaram a primeira rede de telefonia móvel totalmente automática, para substituir as antigas redes ARP (Auto Rádio Fone). O novo padrão se chamou NMT, cuja tradução é Telefonia Móvel Nórdica, que começou a funcionar em 1981. As especificações do NMT eram livres e abertas, o que permitiu a muitas empresas produzir equipamentos segundo o padrão, reduzindo, por consequência, os preços. Redes NMT foram construídas em cerca de vinte países.
Entre os fabricantes de equipamentos NMT estavam: a Nokia da Finlândia (fundada em 1865); a Ericsson sueca (de 1876); a Storno dinamarquesa e depois adquirida pela General Eletric e por fim pela Motorola; a AP, outra dinamarquesa adquirida pela Philips; e a Simonsen Telecom norueguesa (fundada em 1970).
Dez anos depois, outras companhias de telefonias se juntaram ao barco e criaram o próximo padrão de telefonia móvel: o GSM, também conhecido por 2G. A primeira ligação GSM foi realizada na Finlândia em dezembro de 1991.
Os padrões abertos permitiram uma competição acirrada entre os fabricantes, mas mais acirrada ainda era aquela entre as operadoras de telefonia. Enquanto que ao redor do mundo predominava o monopólio de uma única empresa a nível nacional, na Finlândia, havia bastante competição: além da operadora nacional de telefonia estatal, existiam muitas operadoras privadas regionais. No final dos anos 1980, cinquenta operadoras de telefonia operavam na Finlândia, isso era mais do que o número total de operadoras atuando em todos os demais países europeus.
A competição feroz pelos clientes domésticos, disputados entre a operadora de telefonia estatal e seus competidores privados, impulsionou o desenvolvimento de produtos na unidade de maior crescimento da Nokia: a Telenokia, entre os anos oitenta e noventa. Isso preparou a empresa para competir nos mercados globais. Agora, três décadas depois sobraram apenas três grandes marcas de equipamentos de redes de telefonia: a Nokia da Finlândia, a Ericsson sueca e a Huawei da China.
E sim, voltemos ao estado de bem estar social. Sem uma ambiente de negócios bem lucrativo, não há estado de bem estar social. O papel dos políticos é propiciar investimentos a longo prazo na infraestrutura que irá fomentar os negócios. Os investimentos em educação e saúde já provaram ter um alto retorno.
É claro que nem todos os países podem copiar essa mesma trajetória de negócios para sustentar o bem estar social, e nem todos precisam.
As empresas suecas, por um outro lado, provavelmente não fizeram tantas inovações tecnológicas mas criaram modelos de negócio mais revolucionários, como exemplo: a Ikea e o Spotify. As empresas norueguesas sempre puderam contar com a pesca. Em 1969, eles ainda encontraram petróleo sob o mar. Esse tesouro foi transformado em um fundo. Citando os noruegueses: "o objetivo do fundo é garantir uma gestão responsável das receitas da Noruega com gás e petróleo no Mar do Norte de modo que essa riqueza possa beneficiar as gerações atuais e futuras. O nome oficial do fundo é Fundo Global de Pensões Governamentais." Os islandeses também são bons em pesca. As necessidades energéticas deles foram supridas por fontes naturais geotermais e hidrelétricas (do mar). 99,9% da eletricidade na Islândia é gerada a partir de fontes renováveis. Na Dinamarca, a agricultura é bem desenvolvida, e o turismo cresceu a ponto de se tornar o segundo maior negócio.
Você já deve ter lido vários artigos sobre os finlandeses podendo aproveitar da educação grátis e do sistema de saúde grátis. Gostaria apenas de lembrá-lo que nós temos também a opção de escolas privadas e da saúde privada. O desafio do setor público é manter a qualidade tão alta, de modo que as pessoas o prefiram.
Já falei muito sobre números, vamos concluir com algumas histórias:
Sobre educação: na minha juventude eu estudei por muitos anos numa escola pública, então mudei para uma escola privada (que são igualmente pagas, assim como nos EUA), porque eu queria me especializar em algumas matérias, aí eu mudei de novo para outra escola pública, que era considerada a melhor do país. O que eu percebi foi que todas eram igualmente boas. O investimento a longo prazo em educação (e na formação dos professores) criou uma competição tão acirrada que no final das contas as diferenças entre as escolas é pequena. Se você não confia em mim, já que eu sou finlandês, você pode confiar no relatório das Nações Unidas sobre o melhor sistema educacional do mundo.
Já sobre a saúde: minha mãe era filha de fazendeiros, nascida em 1931. Quando ela tinha catorze anos, conseguiu um trabalho de estagiária em um hospital local. Alguns anos depois se formou enfermeira especializada em cirurgias. Ela trabalhou em hospitais privados e públicos. Ao longo da vida dela, ele teve alguns problemas de saúde, como muitas outras pessoas, desde infartos até um derrame que deixou metade do seu corpo paralisado. Em outras palavras, ela conhece bem o sistema de saúde da Finlândia, mas em uma coisa ela é bem teimosa. Sempre que eu sugiro a ela que vá a um médico particular ou a um hospital particular, se recusa. Ela quer ir para o sistema público de saúde, mas não é porque ela acha que o sistema de saúde particular é ruim, com 88 anos, ele prefere realmente o sistema público, que sempre cuidou bem dela. É como uma lealdade a uma marca.
Ah sim, e quanto à Venezuela? Acredito que eles não se esforçaram muito em prover uma boa educação ou um sistema de saúde de alta qualidade. Em vez disso, eles tentaram o socialismo.
O modelo nórdico se preocupa em investir no futuro, enquanto o socialismo se preocupa em roubar do presente. O fundamento do modelo nórdico é permitir às pessoas escolherem o que elas querem, e garantir ao menos bons serviços públicos para suprir as suas necessidades.
Então, respondendo a pergunta:
O socialismo e o modelo nórdico são abordagem opostas, então é mais do que natural que uma dessas abordagens pareça ter alcançado sucesso enquanto a outra é um desastre completo.

FONTE: https://pt.quora.com/Qual-%C3%A9-a-diferen%C3%A7a-entre-o-socialismo-nos-pa%C3%ADses-n%C3%B3rdicos-e-na-Venezuela
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